Como Trump se tornou o primeiro presidente do Vale do Silício

Charles Duhigg

  • Kevin Hagen/The New York Times

    Donald Trump e Mike Pence se encontram com líderes da indústria de tecnologia na Trump Tower antes da posse do novo governo

    Donald Trump e Mike Pence se encontram com líderes da indústria de tecnologia na Trump Tower antes da posse do novo governo

No último verão, pouco depois de Donald Trump ter conseguido a indicação do Partido Republicano para candidato a presidente, seu recém-instalado diretor de campanha, Stephen Bannon, reuniu-se com autoridades graduadas do Comitê Nacional Republicano para discutir a gestão da eleição geral.

A equipe de Trump se manteve incomumente pequena durante as duras eleições primárias --uma compacidade, na opinião de seus assessores, que lhe deu vantagem pela agilidade. Então a maioria das autoridades republicanas esperava que a equipe de Trump se expandisse para supervisionar os milhares de membros da equipe republicana, autoridades estaduais e consultores que seriam as tropas de infantaria na guerra política definitiva.

Quando Bannon se reuniu com os diretores do comitê, entretanto, informou-lhes que não haveria uma grande expansão.

A campanha de Trump, disse ele, pretendia continuar esparsa e descentralizada. Emprestando do Facebook um mantra do Vale do Silício, ele disse a seus ouvintes chocados que "seu trabalho é andar depressa", segundo uma pessoa que estava presente. "Descubram o que precisa ser feito e façam. Não esperem por autorização."

Seu público ficou surpreso. A sabedoria política convencional defendia uma hierarquia de campanha firme e elaborada.

Mas Bannon pedia o oposto. Vencer, disse ele, exigia táticas e ideias tiradas dos manuais de administração de empresas novatas do Vale do Silício: tomada de decisões distribuída; rápida experimentação e execução, em vez de deliberação sopesada; aprender com grupos de esquerda e empresas de videogames.

Depois dessa reunião, muitos pensaram que a estratégia de Bannon era maluca, segundo a pessoa que esteve presente. Então Trump venceu a eleição. E agora podemos afirmar que Trump é, de muitas maneiras, o primeiro genuíno candidato e presidente startup do Vale do Silício.

O presidente Barack Obama pode ter adotado a tecnologia, usado as redes sociais como arma e buscado conselhos dos cofundadores do Facebook e do LinkedIn. Mas afinal ele foi um líder de campanha e administrador tradicional. Foi a equipe de Trump quem, surpreendentemente, adotou a filosofia de disrupção e os estilos de administração do Vale do Silício, e quem tentou imitar as táticas que moviam empresas como Uber e Amazon.

"Trump é o candidato do Vale do Silício em todos os sentidos, exceto que a ideologia está invertida", disse Sam Altman, um importante líder tecnológico, executivo-chefe da Y Combinator e grande doador a Hillary Clinton. "Ele é um forasteiro. Pegou um sistema que pensava que estivesse quebrado e então desconsiderou as regras; ele conseguiu conhecer bem seus usuários, testou seu produto cedo e interagiu rapidamente. Esse é o manual das startups. É exatamente o que dizemos para nossas startups fazerem."

Resta ver, entretanto, se Trump fará com sucesso a transição de uma startup a um comandante-chefe maduro. Assim como a Uber e outras jovens firmas tecnológicas tropeçaram enquanto cresciam, Trump parece neste momento de ponta-cabeça na Casa Branca.

Mas é importante compreender esses primeiros erros --e como o pensamento de startup projetou Trump ao poder--, porque nos dá uma lupa para examinar as forças e as fraquezas das técnicas de gestão que são cada vez mais imitadas por outras indústrias em todo o mundo.

Colocado de outro modo, o sucesso do presidente demonstrou a força da filosofia das startups. Mas será bom ou ruim se Trump se tornar o primeiro unicórnio político?

A ironia é que muitos tecnólogos detestam Trump e suas opiniões. O Vale do Silício votou avassaladoramente em Hillary Clinton e angariou fundos para ela, e os trabalhadores tecnológicos protestaram irados contra a proibição de Trump aos imigrantes.

Na Cúpula de Nova York, um encontro de altos executivos de tecnologia organizado por "The New York Times" nesta semana, os participantes se queixaram intensamente de que sua indústria não deve ser associada à vitória de Trump, ou considerada responsável por ela.

Mas resta o fato de que ele é um excelente exemplo das forças perturbadoras que a indústria tecnológica celebra. No nível mais básico, a adoção da tecnologia por Trump --os milhões de dólares que ele levantou em doações online e sua capacidade de mobilizar enormes públicos por e-mail e canalizar notícias pelo Twitter-- foi crucial para seu inesperado sucesso político.

E a adoção por sua equipe da filosofia do Vale do Silício vai muito mais fundo. Conforme a campanha de Trump ganhava impulso, por exemplo, membros destacados começaram um esforço dedicado a estudar as táticas de grupos de defensoria digitais de sucesso, especialmente o Moveon.org, de esquerda, assim como o #BlackLivesMatter, para fazer engenharia reversa dos métodos para mobilizar rapidamente os eleitores.

Sua campanha também utilizou empresas de videogames para aprender a fazer conteúdo viciante. Durante a disputa, o genro de Trump, Jared Kushner, encontrou-se com Gabriel Leydon, fundador de uma companhia em Palo Alto, na Califórnia, chamada MZ, antes conhecida como Machine Zone, que criou os games altamente populares Mobile Strike e Game of War: Fire Age. Leydon, um dos maiores anunciantes online, aceitou compartilhar ideias sobre táticas de marketing digital com a campanha de Trump. (Em um comunicado, a MZ disse que nunca trabalhou formalmente para Trump.)

A influência da filosofia das startups na equipe de Trump se estende à administração cotidiana. A campanha e a Casa Branca buscaram técnicas de administração da indústria tecnológica para empoderar membros da equipe para lançarem iniciativas políticas, conduzir testes digitais rápidos e intensificar campanhas de publicidade e captação de fundos sem pedir autorização de membros graduados.

Em contraste com a metódica Casa Branca de Obama e a campanha de Clinton, onde os tuítes precisavam de autorização de pelo menos três diretores antes que fossem postados, membros da equipe de Trump podiam inventar anúncios ou campanhas de e-mail sem supervisão. No auge, a campanha dele publicava 60 mil anúncios online diferentes por dia para ver quais frases e imagens tinham maior impacto.

No entanto, a conexão mais significativa entre Trump e o pensamento do Vale do Silício é como ele personifica completamente a "tese da disrupção" que impulsionou tantas firmas de tecnologia emergentes. A equipe de Trump trabalhou deliberadamente para remover os vigilantes tradicionais --os grandes doadores, os partidos políticos, grupos de defensoria e a mídia noticiosa-- que no passado muitas vezes determinavam a viabilidade política.

Um membro graduado da campanha disse que a estratégia "pôs de lado os corretores de poder da mesma forma que o Uber pôs de lado as companhias de táxi", e afirmou que a política praticada por Trump faz parte de uma revolução que começou na tecnologia e agora se espalha para outras indústrias e governos em todo o mundo.

Muitos no Vale do Silício reprovam essa ideia. "O presidente Trump não é um disruptor, mas promove seus interesses e muitas vezes é desonesto", disse em um e-mail Clay Christensen, um dos pais da teoria da disrupção e autor de "The Innovator's Dilemma" [O dilema do inovador]. "As inovações disruptivas tornam os produtos mais acessíveis, de modo que muitas pessoas podem usar coisas que historicamente só estavam disponíveis aos ricos e capacitados."

Mesmo por esse parâmetro, porém, Trump, que atraiu muitos eleitores novatos e que foi eleito com um grande empurrão dos americanos sem instrução superior, parece se encaixar na conta.

E tudo isso apresenta uma pergunta: se o manual foi tão útil para eleger Trump, por que ele está tropeçando agora? Por que a mentalidade do Vale do Silício deixou de prosperar em Washington?

Talvez Trump simplesmente precise evoluir ao próximo nível do pensamento da indústria tecnológica. E na verdade há um manual pronto sobre como as startups transitam para firmas maduras. A Google, por exemplo, começou a naufragar quando alcançou 200 empregados. Por isso os fundadores da companhia trouxeram um líder mais estabelecido, Eric Schmidt, para oferecen "supervisão adulta", explicou Sergey Brin, um dos fundadores da Google, em 2001. Quando a força de trabalho do Facebook atingiu 1.800 pessoas, em 2008, seu fundador, Mark Zuckerberg, contratou Sheryl Sandberg, uma executiva tarimbada, como diretora operacional, para controlar a cultura livre e descentralizada da empresa.

Estamos vendo uma mudança semelhante na Casa Branca. Depois que a proibição à imigração de Trump causou confusão generalizada nos aeroportos e nos órgãos federais no mês passado, seu chefe de Gabinete, Reince Priebus, implementou um processo formal para aplicar ordens executivas. Quando o presidente se preparava para seu pronunciamento no Congresso na semana passada, sua equipe usou um processo formal para rever o script. Os líderes republicanos estão pressionando a Casa Branca para contratar mais assessores com experiência de governo. Como no Facebook e no Google, uma hierarquia está sendo construída.

Mas para muitos na indústria tecnológica essa nova Casa Branca mais madura é motivo de preocupação. "Acho que a maioria das pessoas não quer que ele tenha êxito", disse Laszlo Bock, que até o ano passado foi vice-presidente sênior no Google. "Não importa como Trump administre a Casa Branca, ele acredita no oposto dos valores do Vale do Silício. Não queremos que ele aprenda conosco."

Em última instância, segundo luminares do Vale do Silício, o mundo está mudando graças a forças fora do controle de uma indústria. As empresas de tecnologia não são culpadas por essas mudanças. Elas meramente as viram e as aproveitaram mais depressa que as outras.

Não é uma questão de se os gerentes de campanha, políticos e líderes de outras indústrias devem imitar a indústria tecnológica, mas sim uma questão de quando eles vão perceber que é tarde demais para resistir.

"Acho que tudo isso --a atual revolução das startups, Trump e muitas outras coisas-- é de modo geral uma consequência de a internet quebrar as barreiras tradicionais", disse Altman, o executivo da Y Combinator, em um e-mail. "Essa abertura social, na minha opinião, tem algumas ótimas consequências, como o boom das startups nos últimos 20 anos, e algumas ruins, como Trump."

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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