Opinião: Ligar os pontos da relação de Trump com a Rússia não é tão difícil

Nicholas Kristof

  • Joshua Roberts/Reuters

Eu gostava da série "House of Cards", mas sempre sentia que ela ia longe demais, que sua trama não era plausível. Após sete semanas do presidente Donald Trump, eu devo um pedido de desculpas a "House of Cards". Nada mais parece impossível.

Isso inclui a maior suspeita de todas: a de que a equipe de Trump esteve de alguma forma em conluio com a Rússia para interferir na eleição americana. Essa é a questão central na qual devemos nos manter focados.

Há muitos pontos aqui e o desafio é como ligá-los. Mas é preciso ter cuidado: os democratas precisam evitar mergulhar no tipo de mentalidade conspiratória que levou alguns republicanos a presumirem que Hillary Clinton era uma criminosa prestes a ser indiciada, ou conjurar escravos sexuais pertencentes a ela em uma pizzaria de Washington. Coincidências acontecem e acho que há um foco excessivo no secretário de Justiça, Jeff Sessions, mas não o suficiente em Paul Manafort, o ex-diretor de campanha de Trump. Aqui estão 10 pontos cruciais:

1. Trump e seus assessores têm negado repetida e falsamente ligações com a Rússia. O jornal "USA Today" contou pelo menos 20 negações. De fato, já sabemos que ocorreram contatos por pelo menos meia dúzia de pessoas do círculo de Trump com autoridades russas.

2. Não há um motivo óbvio para todos esses contatos. Quando o vice-presidente Mike Pence foi perguntado em 15 de janeiro se houve contatos entre a campanha de Trump e autoridades do Kremlin, ele respondeu: "É claro que não. Por que haveria?" Nós também não sabemos, sr. vice-presidente.

3. Ocorreram comunicações não explicadas entre um computador servidor da Organização Trump e o Alfa Bank da Rússia, que tem laços com o presidente Vladimir Putin. Elas incluem 2.700 mensagens buscando iniciar comunicações e alguns investigadores consideram tudo isso profundamente suspeito. Outros acham que pode haver uma explicação inocente, como spam. Ainda não sabemos.

4. Contatos "repetidos" e "constantes" entre funcionários de Trump e a inteligência russa, como noticiado pelo "New York Times" e a "CNN", são ressaltados pelas interceptações de comunicações envolvendo autoridades russas, e pelos governos britânico e holandês que monitoraram os encontros na Europa entre russos e membros da equipe de Trump.

5. Um conceituado especialista em Rússia que já fez parte do MI6 (o serviço secreto de inteligência britânico), Christopher Steele, produziu um dossiê agora famoso alegando que a Rússia fez vídeos comprometedores de Trump em 2013 e que membros da equipe de Trump estiveram em conluio com o Kremlin para interferir na eleição americana. O dossiê cita um russo como tendo dito que um acordo foi arranjado com "pleno conhecimento e apoio de Trump" e que, em troca da ajuda russa, "a equipe de Trump concordava em deixar de lado a intervenção russa na Ucrânia como tema de campanha". James Clapper, o ex-diretor nacional de inteligência americano, diz não ter visto nenhuma evidência desse conluio, mas que é a favor de uma investigação para esclarecimento do assunto.

6. Trump tem expressado uma visão desconcertantemente benigna da Rússia e nomeou autoridades que também são amistosas com Moscou. Ele não discutiu a invasão da Rússia à Ucrânia durante a campanha.

7. Um associado de Trump, Roger Stone, parecia ter conhecimento prévio dos vazamentos pela Rússia dos e-mails de campanha de Hillary Clinton pelo WikiLeaks. Em agosto, dois meses antes dos e-mails do diretor de campanha dela, John Podesta, serem vazados, Stone tuitou: "Acredite me mim, logo será a vez de Podesta". Em outubro, seis dias antes da divulgação dos e-mails de campanha de Hillary, Stone tuitou: "HillaryClinton já era. #WikiLeaks".

8. Sessions parece ser uma distração, já que não era um canal sigiloso para o Kremlin. A pessoa mais interessante é Manafort, que tem sido foco dos investigadores por causa de seus antigos laços com a Rússia.

9. "Vemos muito dinheiro vindo da Rússia", Donald Trump Jr. foi citado como tendo dito em 2008. A Rússia pode ter ganhado influência sobre o presidente Trump por meio de empréstimos à sua organização ou outros acordos de negócios. A forma de afastar essas suspeitas seria examinar as declarações de imposto de renda de Trump. Qualquer investigação que não obtiver as declarações de Trump simplesmente não é uma investigação meticulosa.

10. Até mesmo muitos republicanos reconhecem, como colocou o presidente George W. Bush, que "Todos nós precisamos de respostas". Os comitês de inteligência da Câmara e do Senado costumam atuar por trás de portas fechadas, enquanto ansiamos por transparência. O que é desesperadamente necessário é uma investigação independente semelhante à Comissão do 11 de Setembro.

Quando amigos me perguntam sobre o que acho que aconteceu, eu lhes digo que meu palpite é que não houve um toma lá dá cá claro entre Trump e Putin para cooperar em roubar a eleição, mas sim algo mais ambíguo e menos transacional, em parte porque Putin pretendia ferir Hillary e não imaginava que Trump pudesse de fato vencer. Mas não causaria surpresa se a equipe de Trump tiver mantido contatos secretos e trocado mensagens sigilosas, tendo conhecimento prévio dos esforços da Rússia para atacar o processo político americano. E isso seria um escândalo momentoso.

Um motivo que me faz suspeitar cada vez mais é o fato de Trump estar atacando furiosamente a imprensa e Barack Obama, a ponto de às vezes parecer descontrolado. Os jornalistas aprenderam que quando um líder perde o controle e ataca e ameaça os investigadores, é porque eles estão chegando perto.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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