Nova revista política entra na briga nos EUA e quer discutir o "trumpismo"

Jennifer Schuessler

  • Benjamin Norman/The New York Times

William F. Buckley Jr. disse que preferia ser governado pelos primeiros 2.000 nomes na lista telefônica de Boston do que pelo corpo docente de Harvard. Mas em uma noite no final do mês passado, o Harvard Club na cidade era um bom lugar para procurar pelo futuro intelectual do conservadorismo.

A ocasião era o lançamento da "American Affair", uma revista trimestral dedicada a dar peso e coerência intelectual à ideologia amorfa conhecida como, por falta de um termo melhor, trumpismo.

O nome de Donald Trump não foi mencionado durante a apresentação, apesar de Julius Krein, o fundador e editor de 31 anos da revista, ter prestado um tributo indireto ao homem com uma citação do ensaio clássico do crítico francês Roland Barthes, "O Mundo do Catch" (luta livre).

"Nossa política, assim como a luta de Barthes, se transformou em um espetáculo de excesso, sem sentido de tempo, sem lógica do futuro", disse Krein, extraindo riso da plateia de mais de 100 pessoas. Ele então passou a um assunto sério: o repensar de todo o consenso de políticas do pós-Guerra Fria.

"Nós na América não temos mais ideia de como o futuro deve ser, muito menos como construí-lo juntos", ele disse.

É uma proposta ousada para uma revista trimestral com tiragem inicial de apenas 300 exemplares e cuja primeira edição mistura artigos sobre economia e assuntos internacionais com temas mais abstratos, como uma disquisição de Hegel e do trabalho. Mas a história do conservadorismo moderno é repleta de revistas cuja pequena circulação não correspondia ao peso de sua influência, como "The Public Interest", que se transformou no principal órgão do neoconservadorismo nos anos 70 e 80, e a "National Affairs", fundada em 2009 para promover a "reforma do conservadorismo".

Em uma entrevista, Krein descreveu a revista, em parte brincando, como visando ter apelo tanto aos fãs da revista "Foreign Affairs" quanto do provocador marxista esloveno Slavoj Zizek. Mas falando de modo mais sério, a revista busca preencher o vácuo deixado por um establishment intelectual conservador mais focado em se opor a Trump do que lidar com a rejeição do dogma do globalismo e do livre mercado que impulsionou sua vitória.

"Muitas pessoas na direita estão olhando para trás e vendo uma agenda que é um fracasso completo, presidida por um bando de insignificantes", ele disse. "É uma piada."

Até o momento, a direita definitivamente está lendo. Matthew Continetti, do site de jornalismo político "The Washington Free Beacon", em um artigo repostado pela revista "National Review", chamou a primeira edição de "cheia de energia e provocadora, às vezes profundamente perspicaz". Ross Douthat, do "New York Times", um forte crítico de Trump, notou a revista em uma coluna recente, apesar de ter considerado as ideias oferecidas "não tão ousadas quanto eu esperava".

Na esquerda, Jeet Heer, da revista "The New Republic", expressou menos apreço. A discussão de alto tom sobre "amizade cívica" e "nacionalismo pactual", disse Heer, na prática "encobre" a "demagogia racial" e o autoritarismo de Trump e "visa ludibriar os conservadores da elite a acreditarem que Trump é igual a eles".

Krein diz que a ideia é exatamente a contrária. "Trump não é como eles e é isso o que o torna atraente, pelo menos no ponto de vista político", ele disse.

Ele prosseguiu: "É preciso que haja um senso de uma comunidade política distinta. Não acho que precisa ser étnica ou racial, mas é preciso que haja uma cidadania americana distinta que importe".

Krein cresceu em Eureka, Dakota do Sul, e estudou filosofia política em Harvard com o notável acadêmico conservador Harvey C. Mansfield antes de ingressar na área de finanças, trabalhando para o Bank of America, Blackstone Group e firmas menores. (Agora ele trabalha em tempo integral na revista.)

Ele também é um hábil conector, como pode atestar o público presente no Harvard Club. O evento principal foi uma discussão da globalização entre Peter Thiel, o empreendedor do Vale do Silício e apoiador de Trump, e Anne-Marie Slaughter, presidente-executiva do centro de estudos de esquerda New America. (Krein disse que conheceu Thiel vários anos atrás, por meio de um grupo de leitura dedicado ao filósofo Leo Strauss.)

Durante a hora do coquetel, Thiel conversou com a filantropa e doadora de Trump, Rebekah Mercer, enquanto redatores e editores do "The Washington Free Beacon", "First Things", "National Review", "The American Conservative" e outros veículos em sua maioria de centro-direita trabalhavam na sala.

William Kristol, do "The Weekly Standard", um ferrenho "Trump Jamais", resumiu o público como "uma mistura de pessoas normais que vêm a eventos conservadores, algumas pessoas interessantes que são distintamente trumpistas e alguns poucos lunáticos".

E ele? "Estou representando o Estado profundo", brincou Kristol.

O jornalista Michael Lind, um membro do conselho consultivo da revista (e um ex-conservador que se tornou defensor do "nacionalismo liberal"), creditou Krein por "tentar misturar as categorias esquerda, direita e centro".

"Nós já vimos um realinhamento partidário", disse Lind. "O que estamos vendo agora é um realinhamento intelectual, à medida que os intelectuais de ambos os partidos tentam entender suas bases".

A "American Affairs" nasceu do "The Journal of American Greatness", um blog escrito sob pseudônimo que Krein (que às vezes contribuía para "The Weekly Standard") e outros iniciaram no ano passado, devido à frustração por nenhum veículo querer publicar seus longos e eruditos ensaios tolerantes a Trump. (Ele foi encerrado abruptamente em junho, declarando que o que começou como uma "piada" começou a ser levado muito a sério. Outra ramificação, "American Greatness", surgiu em julho.)

O site é mais famoso por publicar Publius Decius Mus, autor do incendiário ensaio pró-Trump "The Flight 93 Election" (A eleição do Voo 93, em tradução livre), que foi desmascarado no mês passado como sendo Michael Anton, que atualmente é funcionário do Conselho de Segurança Nacional. Krein, que escrevia como Plautus, disse que entre suas contribuições favoritas estão "The Red Album" (O álbum vermelho, em tradução livre), uma sátira à "paranoia #NeverTrump" (Trump Jamais) modelada parágrafo por parágrafo no ensaio clássico de Joan Didion, "O Álbum Branco".

A primeira edição da "American Affairs" é igualmente eclética, mesmo que dentro da tradição de revistas políticas. Anton escreveu uma crítica à "ordem internacional liberal", e o economista David P. Goldman, mais conhecido por suas colunas sob o pseudônimo de Spengler, contribuiu com um ensaio cheio de gráficos sobre tecnologia e os Estados Unidos. O ensaio de Krein sobre a crítica de James Burnham à "elite administrativa" ataca ambos os partidos.

A segunda edição, disse Krein, incluirá mais surpresas, misturando nomes novos com alguns proeminentes que ninguém esperaria ver ali. Quanto ao maior nome na política americana, Krein disse que a revista não segue "deixas intelectuais" de Trump.

"Essas ideias são nossas", ele disse. "Esperamos que haja alguma coincidência, mas não estamos atuando como líderes de torcida do governo."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos