Com a eleição, Holanda avalia novo relacionamento com muçulmanos

Alissa J. Rubin

Em Roterdã (Holanda)

  • Emmanuel Dunand/ AFP

    Protesto antirracista chamado "Marcha das mulher por uma Holanda unida" ocorre às vésperas das eleições parlamentares no país

    Protesto antirracista chamado "Marcha das mulher por uma Holanda unida" ocorre às vésperas das eleições parlamentares no país

Como muitos muçulmanos, Ahmed Aboutaleb ficou incomodado com o teor de raiva da campanha eleitoral holandesa. Os candidatos de extrema-direita criticaram o islã, muitas vezes retratando os muçulmanos como forasteiros que não querem se integrar à cultura do país.

Isso é especialmente preocupante para Aboutaleb, já que ele é o prefeito da segunda cidade da Holanda, Roterdã; fala fluentemente o holandês; e é um dos políticos mais populares do país. E não é o único: a presidente do Parlamento holandês, Khadija Arib, é muçulmana, embora seu partido, o Trabalhista, deva perder terreno nas eleições nacionais nesta quarta-feira (15). A Holanda (ou Países Baixos) também tem uma classe florescente de profissionais muçulmanos: assistentes sociais, jornalistas, comediantes, empresas e banqueiros.

"Há uma sensação de que se houver demasiada influência cultural de outras partes do mundo o que isso significará para nossas tradições e a cultura holandesa?", disse Aboutaleb, cuja cidade tem de 15% a 20% de muçulmanos e abriga imigrantes de 174 países.

As eleições na quarta-feira darão início ao ano do ajuste político europeu. As eleições holandesas, que acontecerão antes das francesas, alemãs e possivelmente italianas, serão as primeiras a testar o limite de tolerância da Europa ao crescimento dos partidos populistas que atacam a UE e a imigração, fazendo apelos nacionalistas pela preservação de culturas locais.

É uma medida notável do poder das forças anti-establishment que tais apelos estejam caindo em ouvidos receptivos mesmo na Holanda, país que durante gerações viu ondas sucessivas de imigração muçulmana. No máximo, a Holanda é uma imagem de assimilação relativamente bem sucedida, especialmente quando comparada com a vizinha Bélgica ou a França.

Na Holanda, Geert Wilders, um dos políticos europeus antimuçulmanos mais estridentes, recentemente chamou alguns marroquinos de "escória". Seu Partido pela Liberdade deverá ser um dos três a receber mais votos, desafiando o governo de centro-direita do primeiro-ministro Mark Rutte.

Se existem barreiras, muitos muçulmanos --como Aboutaleb, 55, que chegou a este país baixo vindo de uma aldeia na montanha no Marrocos quando era adolescente, quase sem falar uma palavra de holandês-- dizem que o trabalho duro é recompensado, pelo menos. Mas a extraordinária história de sucesso de Aboutaleb, e a sensação de que a Holanda lhe deu muitas oportunidades, é típica de uma geração mais velha.

Não há dúvida de que o preconceito religioso está em ascensão, em reação ao mais recente influxo de imigrantes muçulmanos e aos crescentes temores de terrorismo na Europa. Ambos são facilmente manipulados pelos políticos, que promovem a ideia de que hoje há tantos não brancos e não cristãos na Holanda que as tradições nacionais serão esquecidas ou eliminadas.

Mas há uma base factual: cresceu muito o número de migrantes não ocidentais ou seus filhos na Holanda, que constituem cerca de 10% da população de um país de cerca de 17 milhões. Mas nem todos eles são muçulmanos; há, por exemplo, muitos indianos que são hindus ou budistas.

Os últimos números divulgados pelo Departamento Central de Estatísticas da Holanda mostram um aumento líquido de 56 mil imigrantes em 2015 e 88 mil em 2016, com o maior número no ano passado, cerca de 29 mil, vindo da Síria.

O número de municípios com populações com 10% a 25% de imigrantes não ocidentais duplicou entre 2002 e 2015, segundo o Instituto de Pesquisas Sociais dos Países Baixos, um órgão do governo que estuda políticas sociais.

Uma quantidade desproporcional de crimes é cometida por jovens muçulmanos, especialmente adolescentes e jovens marroquinos, mas isso também vale para os imigrantes das Antilhas Holandesas, no Caribe.

E há muitos muçulmanos de primeira, segunda e agora terceira geração na Holanda que têm papéis significativos na vida pública e em profissões privadas.

"Wilders fala a uma parte da sociedade holandesa que sente que sua identidade está ameaçada", disse Fouad el Kanfaoui, 28, um banqueiro no ABN Amro em Haia e um marroquino muçulmano de segunda geração. Ele também é o presidente da Ambitious Networking Society, uma organização para jovens empresários e artistas que são, na maioria, de origem marroquina.

"Os supermercados e as padarias holandeses estão sumindo", disse ele. "Em vez de padaria do Hans é padaria do Muhammad. Quando as tradições mudam é difícil; quando os confrontam pessoalmente, é desafiador."

Essas percepções explicam algumas justaposições marcantes. Em um dia recente, o comediante holandês-marroquino Anuar Aoulad Abdelkrim estava fazendo o brunch em uma das praças principais de Utrecht, quando sua conversa foi interrompida pelo ruído de um comício do grupo de extrema-direita Pegida. O grupo, que foi fundado na Alemanha, agora tem uma filial holandesa.

Abdelkrim balançou a cabeça e explicou que "depois de 15-16 anos na comédia, recuso-me a ir a um programa de TV explicar por que um sujeito de barba faz algo que todo mundo sabe que é errado", disse ele, referindo-se ao terrorismo islâmico.

"Todo mundo vem aos meus shows, toda religião, toda cor, muitos executivos", disse ele. "Às vezes pessoas me procuram depois e dizem: 'Sabe, eu sou um pouco racista, não gosto dos meus vizinhos, mas gosto de você'."

Até certo ponto, é o modo de ser holandês, disse Abdelkrim. Em seu bairro, que mistura imigrantes e holandeses brancos, houve grande relutância inicialmente a receber as famílias de refugiados sírios que o governo instalou lá.

"As pessoas diziam: 'Não, não, não, o que temos a ver com eles?', mas agora houve uma virada de 180 graus, porque as pessoas ficaram motivadas a ajudar os refugiados porque conhecem sua história", explicou ele.

Achraf Bouali, 42, que nasceu no Marrocos, deixou um cargo diplomático para se candidatar ao Parlamento na atual eleição pela chapa D66, o principal partido de esquerda, com um forte enfoque na educação e no meio ambiente e socialmente liberal.

Ele vê a atual política anti-imigração como um produto de fatores externos que repercutiram na Holanda: o terrorismo na Europa, a crise financeira de 2008, que deixou muitos holandeses se sentindo mais pobres e inseguros, e a recente onda de imigrantes que chegam à Europa das regiões assoladas pela guerra no Oriente Médio.

Mas parte do que dá esperança a políticos muçulmanos como ele é que no passado muitos imigrantes muçulmanos se misturaram de modo inconsútil à sociedade holandesa.

"Estamos trabalhando juntos neste país há séculos para nos protegermos da água, construindo os diques", disse ele. "Afinal, há um pragmatismo e um espírito de trabalhar juntos para resolver nossos problemas --e há problemas."

Na década de 1990, dezenas de milhares de muçulmanos vieram da Bósnia durante as guerras civis na antiga Iugoslávia. Afegãos vieram durante a guerra civil em seu país e no período taleban. Ambos os grupos se integraram bem.

Antes deles, um grande número de imigrantes indo-holandeses chegou nos anos 1940 do que eram então partes da Indonésia. Marroquinos e turcos vieram atrás de empregos nos anos 1960 e 70.

As políticas são menos hospitaleiras hoje, segundo Marianne Vorthoren, diretora do grupo Spior, que treina professores de religião islâmica nas escolas holandesas.

Vorthoren, que se converteu ao islã e é casada com um médico turco, disse que em 2015 sua organização reuniu 174 relatos de crimes de ódio contra muçulmanos --mais que o triplo do número coletado pelo governo.

Ela disse que o debate atual se tornou muito concentrado em se os muçulmanos estão "suficientemente integrados" ou "suficientemente assimilados", evitando o verdadeiro diálogo.

"Quando você diz às pessoas que seu problema é a identidade, é quem elas são, não há espaço para falar sobre problemas reais como o casamento forçado, a radicalização, a violência doméstica", disse ela, referindo-se às críticas de alguns holandeses sobre os muçulmanos.

O modesto bairro de Schilderswijk, em Haia, que foi cenário de tumultos no passado, tornou-se na mídia holandesa sinônimo de área muçulmana problemática.

Jan Kok, um inspetor de polícia em Haia, tornou-se uma espécie de autoridade cultural da polícia e trabalha com três delegacias da cidade para melhorar as relações com os muçulmanos.

Ele criou um curso obrigatório para recrutas policiais aprenderem a trabalhar com minorias e um curso para os que já são membros da força.

Segundo ele, muitos dos jovens migrantes "crescem sem pai, sem respeito pela polícia, pelas regras da Holanda".

Mas ele tem empatia por sua luta maior. "Eles têm um problema de identidade: eu sou um holandês, ou um marroquino, ou ambos?", disse. "Todo mundo precisa pertencer a um lugar --uma igreja, uma mesquita--, e a maioria deles não tem isso."

Kok acrescentou: "Depois você tem Wilders e Rutte, o primeiro-ministro, dizendo: 'Se você não gosta daqui, vá embora', mas esses rapazes nasceram aqui. Para onde eles irão?"

Nos arredores de Amsterdã, um grupo de jovens muçulmanos se reúne quase toda noite em um centro comunitário chamado The Hood [o Capuz], aonde eles chegaram quando adolescentes e hoje atuam como voluntários para incentivar as crianças do bairro a evitar problemas.

A maioria dos rapazes voluntários encontrou trabalhos ao sair do colegial --mas só depois de longa procura. Eles dizem sentir-se presos numa armadilha, porque mesmo que quisessem estudar para ser advogados ou médicos não poderiam pagar.

"Muita gente neste bairro tem de trabalhar para ajudar suas famílias, não podem ficar na escola", disse Zaid Belmahdi, 19, que conseguiu sua primeira entrevista de emprego depois de enviar 131 currículos.

Yassir Aknin, 21, estudou informática, mas disse que nove em cada dez possíveis empregadores nem sequer o recebem por causa do nome muçulmano.

"Você tem de aprender a conviver com isso, tem de ser forte", disse ele, enquanto seus amigos ao redor da mesa assentiam. "Mas outros caras não têm essa força, e acontece duas vezes, eles ficam deprimidos e param de tentar."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos