Trump tem opiniões combativas, conflitantes e confusas sobre o clima

John Schwartz*

  • Stephen B. Morton/The New York Times

Scott Pruitt, diretor da Agência de Proteção Ambiental, causou comoção na última quinta-feira (9) ao dizer que o dióxido de carbono não é um dos fatores principais do aquecimento global, contradizendo anos de ciência consagrada. Mas seu chefe, o presidente Donald Trump, também levantou dúvidas sobre a causa do aquecimento global e disse muito mais sobre o assunto, como parte de uma discussão, uma frase para aplausos, uma tirada de humor ou um insulto.

Mas o que seus diversos comentários, com frequência conflitantes, revelam sobre o que ele realmente pensa sobre o assunto? Nem mesmo seu entusiástico desprezo pela ciência climática foi coerente: em 2009, ele se somou a cerca de 50 líderes empresariais que assinaram uma página inteira de publicidade no "New York Times" pedindo "medidas significativas e eficazes de combate à mudança climática", sem as quais enfrentaríamos consequências "cientificamente irrefutáveis" que seriam "catastróficas e irreversíveis".

Uma amostra de seus comentários:

Ele realmente despreza as turbinas de vento.

No Twitter, de 2012: "É sexta-feira. Quantas águias carecas as turbinas eólicas mataram hoje? Elas são um desastre ambiental e estético".

As turbinas eólicas são claramente uma das coisas preferidas do ódio de Trump. Esse tuíte é típico de mais de cem em que Trump atacou as fazendas eólicas como terríveis assassinas de pássaros; ele afirmou que matam mais de 1 milhão de aves por ano. Ele também combateu iniciativas na Escócia para a construção de uma "fazenda eólica realmente feia" ao largo do resort Trump International Golf Links Scotland, em Aberdeen.

Seja qual for o valor de seu argumento estético, seus fatos estão errados: as turbinas de vento matam muito menos de 1 milhão de aves por ano, e muito menos que as que são mortas por gatos ou em colisões com edifícios.

Ele disse que o aquecimento global é uma farsa, e que beneficia "os chineses"

De 2012: "O conceito de aquecimento global foi criado por e para os chineses, com o objetivo de tornar as indústrias americanas não competitivas".

Trump fez seu mais conhecido comentário sobre a mudança climática nesse tuíte de 2012, que ele chamaria alternadamente de piada e de comentário sério em entrevistas posteriores. Em 28 de junho de 2015, ele disse a Jake Tapper, da CNN: "Estou sendo sarcástico". Mas depois disse: "É um pouquinho sério". Ele chamou o comentário de brincadeira no "Fox and Friends" em 18 de janeiro de 2016, acrescentando: "Mas isso foi feito para beneficiar a China".

Trump também se referiu diversas vezes à mudança climática como uma farsa (em 20 de dezembro de 2015, em um comício em Hilton Head, Carolina do Sul, disse: "Grande parte disto é uma farsa, é uma farsa") ou pior. Em 26 de setembro de 2016, no primeiro debate presidencial, Hillary Clinton disse: "Donald acha que a mudança climática é uma farsa perpetrada pelos chineses". Ele atirou de volta: "Eu não... eu não disse isso".

A expressão "mudança climática" é um rebranding desesperado. É fria!

De 2014: "O clima está tão frio há tanto tempo que os FARSANTES do aquecimento global foram obrigados a mudar o nome para mudança climática para manter o fluxo de $ !".

Aqui (e muitas outras vezes) Trump usa um tema conservador popular: políticos e cientistas rebatizaram o "aquecimento global" por causa das baixas temperaturas. Não é verdade. As duas expressões continuam sendo usadas, mas, como afirmou a Nasa em 2008, "mudança climática" se tornou a preferida em seu site porque "a mudança de temperatura em si não é o efeito mais grave da mudança do clima", e citou a mudança de padrões climáticos e o aumento do nível do mar.

Uma frente fria não inverte a tendência de longo prazo que fez a Terra alcançar sua temperatura mais alta já registrada em 2016 --o terceiro ano seguido em que o recorde foi quebrado. A referência a "fluxo de $" é outro argumento muito usado e contestado entre os que questionam a ciência climática: que os cientistas do clima seguem de maneira fraudulenta o consenso climático para enriquecer com recursos federais para pesquisa.

A Organização Trump, aliás, usou o termo "aquecimento global e seus efeitos" quando pediu uma autorização para construir proteção contra a erosão costeira para seu campo de golfe na Irlanda.

A energia renovável é uma panaceia cara para "abraçadores de árvores".

Para começar, todo o impulso a favor da energia renovável está sendo conduzido pelo motivo errado, a crença enganosa de que a mudança climática global é causada pelas emissões de carbono. Se você não acredita nisso --como eu--, então temos na verdade uma maneira cara de fazer os abraçadores de árvores se sentirem bem consigo mesmos.

A fonte mais popular de energia verde são os painéis solares. Eles funcionam, mas não fazem sentido do ponto de vista econômico. Eles não fornecem economias de energia suficientes para cobrir o custo de sua instalação e utilização. Eles são a forma de energia subsidiada mais cara nos EUA.

Este trecho do livro de 2015 de Trump, "Crippled America: How to Make America Great Again" [América paralítica: como tornar a América grande de novo], expõe seu argumento central contra a energia renovável. Mas montanhas de evidências científicas mostram que a mudança climática é real e é causada principalmente pelas emissões de gases do efeito estufa. O custo da energia renovável também despencou, às vezes ficando abaixo do dos combustíveis fósseis. A Agência Internacional de Energia diz que as fontes renováveis ultrapassaram o carvão como maior fornecedor de capacidade energética global. Os argumentos de Trump sobre subsídios, muitas vezes usados por adversários da energia renovável, também tendem a ignorar os subsídios recebidos pelas indústrias de combustíveis fósseis.

A mudança climática é uma ameaça? Que piada!

Você sabe, Obama pensa que nosso maior problema é o aquecimento global, pode acreditar nisso? Não, é verdade. Eu ouvi e disse: "Não, não. É uma piada. Quem contou essa piada? Ela parece muito... foi o Jimmy Fallon?" (RISOS)

Foi Jimmy Kimmel? Quem contou essa piada? É muito... não, não. Não é uma piada. Então fui ver e ele realmente falou sério. Nosso maior problema é o aquecimento global da variedade nuclear, e é melhor tomarmos muito cuidado.

(APLAUSOS)

É melhor tomarmos muito, muito cuidado mesmo.

Em seu discurso de campanha em Carmel, Indiana, em 2 de maio de 2016, Trump tocou num tema favorito, usando referências à mudança climática como uma maneira de ridicularizar o governo Obama. O presidente Barack Obama frequentemente se referiu à mudança climática como a maior ameaça de longo prazo ao mundo, apontando a elevação dos mares, secas e inundações perigosas e a resultante instabilidade política.

O carvão será rei de novo.

"Vamos trazer de volta a indústria do carvão, salvar a indústria do carvão... eu amo essa gente."

Em uma conferência sobre energia em Bismarck, Dakota do Norte, em 26 de maio de 2016, Trump expôs seu plano energético da forma mais completa. Ele prometeu deixar o compromisso dos EUA com o acordo climático de Paris e prometeu cortar "regulamentos que fecharam centenas de usinas de energia movidas a carvão e impediram a construção de novas".

"Quão idiota é isso?", disse ele sobre esses regulamentos. Esse tema ideal para discurso de campanha o ajudou em Estados produtores de carvão como a Virgínia Ocidental. Mas o declínio do carvão é principalmente uma consequência das forças de mercado --gás e óleo natural baratos, principalmente devido ao sucesso do petróleo de xisto --, e não da regulamentação restritiva. E trazer de volta o carvão é uma promessa difícil de cumprir.

Depois da eleição, ele sugere uma "mente aberta" sobre o clima.

Acho que há uma certa conectividade. Há uma certa alguma coisa. Depende de quanta. Também depende de quanto vai custar a nossas companhias. Você precisa compreender que nossas companhias não são competitivas hoje.

Em uma entrevista muito ampla a "The New York Times" em 22 de novembro de 2016, Trump pareceu dar uma opinião mais moderada sobre a mudança climática: "Tenho uma mente aberta a respeito". Essa mudança se repetiu nos meses seguintes por seus nomeados para cargos no Gabinete. O ex-governador do Texas Rick Perry, durante sua audiência de confirmação para secretário de Energia, desmentiu declarações anteriores como chamar a mudança climática de "uma confusão inventada". Agora ele disse: "Acredito que o clima está mudando" e "acredito que parte disso ocorre naturalmente, mas parte também é causada por atividades feitas pelo homem". A posição aparentemente mais branda minimiza muito o grau de certeza científica sobre a mudança climática e poderia definir argumentos para limitar a ação para combatê-la.

Trump também aproveitou um momento na entrevista para mais uma vez atacar com firmeza a energia eólica com argumentos estéticos e de matança de aves, mas acrescentou: "Há um lugar para eles".

* Kitty Bennett colaborou na pesquisa.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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