Combater um "Estado profundo" que não existe pode exacerbar problemas de Trump

Max Fisher

  • REUTERS/Carlos Barria

    21.jan.2017 - Donald Trump discursa na sede da CIA um dia após tomar posse

    21.jan.2017 - Donald Trump discursa na sede da CIA um dia após tomar posse

O governo Trump, em sua luta contra o "Estado profundo", que define uma rede de autoridades civis e militares que controlam ou minam governos eleitos democraticamente, poderá correr o risco de exacerbar os próprios problemas que ele atribuiu a forças burocráticas sombrias: vazamentos, conflitos internos e a politização de instituições como as agências de inteligência.

As instituições dos EUA não se parecem com os poderosos Estados profundos de países como o Egito ou o Paquistão, segundo especialistas. Nem os vazamentos individuais, muitos dos quais vieram da própria equipe do presidente Donald Trump, representam uma conspiração.

O diagnóstico de um "Estado profundo", segundo esses especialistas, vê o problema ao contrário.

Trump colocou as instituições sob uma enorme tensão. Ele as atacou publicamente, implicou que recusaria conclusões da inteligência que põem sua eleição sob uma luz negativa, atacou agências por deixarem de assumir posições críticas e cortou órgãos como o Conselho de Segurança Nacional da elaboração de políticas.

Isso obrigou os funcionários públicos a enfrentar um dilema impossível: obedecer, permitindo que suas instituições fossem postas de lado, ou montar uma defesa, por exemplo, por meio de vazamentos que contrariam as acusações de Trump ou o pressionam a restaurar as práticas políticas normais.

Esses atos defensivos aprofundaram as percepções no governo Trump de um "Estado profundo" que deve ser extirpado. Este ciclo de retaliações, segundo estudiosos, apresenta o risco de enfraquecer substancialmente Trump e as instituições governamentais. Em longo prazo, advertem eles, isso poderá minar a capacidade de o governo funcionar --e servir aos milhões de americanos que dependem dele.

Embora Trump não tenha usado publicamente essa expressão, aliados e canais de mídia simpáticos a ele redefiniram o "Estado profundo" de seu significado formal para ser um pejorativo destinado a acusar servidores públicos de intenções políticas e ilegitimidades.

É semelhante à apropriação por Trump de "fake news" ["notícias falsas"], expressão que originalmente descrevia rumores, mas que ele usou contra qualquer veículo que relate notícias reais desfavoráveis ao seu governo.

Embora seu uso de "notícias falsas" represente as reportagens como mentiras, o "Estado profundo" apresenta os funcionários públicos civis como agentes de resistência. E descaracteriza essas autoridades, que buscam defender seu lugar no sistema, apresentando-as como agentes contra esse sistema.

Ambos os termos tornaram-se instrumentos que Trump ou seus aliados usam para afastar críticas atacando a legitimidade do crítico.

O efeito é distorcer as funções básicas da governança democrática em disputas partidárias. Isso poderá servir a Trump em curto prazo, mas no longo apresenta riscos.

Elizabeth Saunders, uma cientista política da Universidade George Washington, comparou essa dinâmica com a maneira como a ciência foi "politizada" pelas disputas relativas à mudança climática.

Quando os adversários da regulamentação ambiental renegam a ciência climática básica, os pesquisadores se sentem compelidos a revidar. A ciência tornou-se uma questão cada vez mais partidária, o que prejudica a capacidade dos cientistas de moldar a compreensão pública e a política do governo.

As agências e instituições do governo poderão ter um destino semelhante, advertiu Saunders. "Quanto mais elas forem atraídas publicamente para essas batalhas, maior será sua polarização e politização."

Essas batalhas são invencíveis: pressionar publicamente o presidente reduz a influência dele e alimenta percepções de que as agências são irremediavelmente politizadas. Obedecer torna sua politização um fato.

Isto leva a uma importante diferença entre um Estado profundo no estilo egípcio e o governo americano. Nos EUA, os funcionários públicos podem ser mais influentes mantendo-se apolíticos, o que lhes permite influenciar as políticas a partir de dentro.

É por isso que autoridades do governo, segundo Saunders, "querem voltar a ficar nos bastidores e fazer seu trabalho, porque isso preserva sua legitimidade e credibilidade".

Projetar essas autoridades como forças de um "Estado profundo" as obriga a escolher entre opções que são ruins para os órgãos, mas também para o governo Trump. Quase qualquer resultado aumenta a percepção de que as instituições estão politizadas ou em conflito com Trump, o que também o prejudica.

Até uma instituição cordata, se for vista como politizada, lutará contra aplicar as políticas de Trump. Se o presidente e suas instituições passarem a se enxergar como inimigos, poderá ser difícil restaurar a confiança.

As autoridades do governo Trump podem acreditar honestamente que foram arrastadas para esse conflito institucional contra a sua vontade.

Mas quanto mais tempo durar esse conflito mais ele aproximará o governo do que Stephen Bannon, um importante assessor da Casa Branca, chamou de objetivo principal do governo: a "desconstrução do Estado administrativo".

Cada round, mesmo que termine com uma derrota política da Casa Branca, galvaniza apoiadores contra a instituição culpada pela derrota. Isso é conduzido pela polarização política, em que os americanos que se consideram alinhados a uma tribo política vêm apoiar as posições daquele grupo e se opõem a seus supostos adversários.

Trump, por exemplo, retratou sua derrota jurídica na proibição à imigração como culpa de juízes politizados. Os ataques não ressuscitaram sua ordem, mas disseram a milhões de apoiadores para não confiar no judiciário por ter motivação política. Seus ataques à mídia noticiosa enviam mensagens semelhantes.

Isso solapa a capacidade dessas instituições de agirem como controles do presidente ou outros atores poderosos, porque elas podem ser mais rapidamente descartadas como servindo a agendas partidárias restritas.

Polarizar os seguidores contra agendas de inteligência --o que, em reação a vazamentos, ele chamou de "antiamericano" e disse que lembra a "Alemanha nazista"-- torna mais fácil recusar suas recomendações políticas, liberando Trump para seguir políticas no país ou no exterior a que essas agências poderiam se opor.

Esse é um potencial paralelo com verdadeiros Estados profundos, que líderes como o presidente Recep Tayyip Erdogan, da Turquia, usaram como armas para justificar a consolidação do poder.

Mas Saunders vê o governo dando um tiro no próprio pé. Tratar a burocracia como adversário, disse ela, serviu principalmente para mergulhar Trump nas controvérsias e enfraquecer sua capacidade de pôr em prática suas políticas.

"Você tem a sensação de que Trump não compreende que trabalhar invisivelmente por meio da burocracia o reforçaria", afirmou Saunders. 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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