Turistas e poluição ameaçam as águas do Baikal, um dos maiores lagos do mundo

Neil MacFarquhar

Em Baykalsk (Rússia)

  • James Hill/The New York Times

    Turistas chineses tiram foto na margem ocidental do lago Baikal, próximo a Listvyanka

    Turistas chineses tiram foto na margem ocidental do lago Baikal, próximo a Listvyanka

Os banheiros são o assunto de destaque no lago Baikal ultimamente, pelo menos entre as pessoas interessadas por ecologia.

Durante anos, seu maior fantasma foi a fábrica de papel e polpa Baykalsk, que ficava na margem, vertendo poluentes no lago espetacular, que contém cerca de um quinto da água doce não congelada da superfície da Terra. Três anos depois do fechamento da fábrica, a luta para preservar o lago mudou para outros campos de batalha.

Alguns consideram o próximo combate ainda mais difícil. Ele envolve modificar os hábitos diários das pessoas que vivem há gerações neste canto longínquo da Sibéria, assim como controlar a onda de turistas, na maioria chineses, para os quais o lago se tornou um destino romântico.

"Era fácil dizer que a fábrica era a culpada, que era ruim", disse Marina Rikhvanova, 55, que fez da preservação do lago a missão de sua vida. "É muito mais difícil dizer que eu sou culpada porque meu banheiro é o problema."

O lago, um sítio do Patrimônio Mundial da ONU, estende-se como uma gigantesca apóstrofe azul no mapa da Sibéria, um vale estreito que forma o maior e mais profundo corpo de água doce do planeta. As gerações mais jovens têm muito mais consciência de que o lago precisa de proteção, mas essa mentalidade ainda não é universal.

"Criamos várias gerações que veem isto de outro modo --desde o jardim da infância eles sabem o que é o Baikal, que a natureza precisa ser preservada", disse Nikolai Volodchenkov, 63, um aposentado que há 40 anos defende a Reserva Natural de Baikalsky, na aldeia de Tankhoy. Ainda encarregado de alimentar diariamente duas zibelinas engaioladas, ele adora o fato de que a água do lago parou de cheirar mal depois que a usina de papel fechou.

A fábrica foi finalmente encerrada, mais por razões econômicas que ecológicas, e hoje os sinais de uma profunda transformação são visíveis em toda Baykalsk, cidade com cerca de 13 mil habitantes na margem sul do lago. Ela está tentando se livrar da imagem de um feio bolsão industrial e substituí-la pelo visual de um balneário saudável. As novidades incluem esqui nas montanhas com vistas incríveis do lago, hotéis com chalés de madeira e uma profusão de frutinhas silvestres colhidas nas florestas ao redor, que podem ser consumidas com chás orgânicos da Sibéria.

Mas há um caminho a percorrer.

Quando Rikhvanova chegou aqui pela primeira vez, nos anos 1990, pedindo o fechamento da fábrica, os moradores a desprezaram por ameaçar sua única fonte de empregos. Alguns ainda se ressentem, mas muitos que queriam a segurança do trabalho na fábrica estatal se mudaram, e a visão geral se modificou.

"Se antes 'ambientalista' era um palavrão, hoje todo morador de Baykalsk diz 'sou um ambientalista'", disse Tatiana Gluckman, uma ex-funcionária da fábrica de papel que se tornou política e duelou com Rikhvanova antes de se tornar sua principal aliada local. "Talvez eu esteja idealizando um pouco, mas em geral é assim."

Rikhvanova usou um prêmio ambiental de US$ 25 mil para subsidiar nove de 60 projetos apresentados em um concurso que ela patrocinou para moradores criarem empregos amigos do meio ambiente. "Tivemos de superar a inércia da era soviética e fazer as pessoas acreditarem em si mesmas", disse Gluckman.

Boris Brisyuk, 63, um engenheiro robusto de rosto vermelho, é um dos convertidos. Ele deixou a usina de papel para trabalhar em vários empregos, incluindo motorista de táxi e eletricista, antes de decidir em 2015 iniciar uma empresa que ajuda as pessoas a desenvolver suas próprias linhas de frutinhas secas e sucos.

Ele entrou em um restaurante vacilando sob o peso de sacolas de compras cheias de recipientes com frutas secas e garrafas de suco concentrado. "Quando se trata da relação entre ecologia e poder viver, as pessoas ainda se importam mais com a renda", confessou ele.

A última medida ambiental que fez as pessoas resmungarem foi a proibição durante dois anos da pesca de omul, uma iguaria pescada por mulheres ao redor de todo o lago.

A maior preocupação ambiental é o apogeu do turismo, porém. O voo de Pequim a Irkutsk dura menos de três horas, e turistas chineses têm inundado a região desde a queda do preço do rublo, em 2014.

Um grupo de investidores russos e chineses anunciou recentemente planos de gastar mais de US$ 11 bilhões no desenvolvimento de hotéis e outras infraestruturas turísticas. Os ambientalistas temem que se o plano se concretizar seja ecologicamente destrutivo.

"Você não pode ter turistas em um lugar que não está preparado para eles", disse Vasily Sutula, que supervisiona a Reserva Estatal de Biosfera Natural de Baykalsk, com 184 mil hectares, depois de exibir um belo e novo centro de visitantes na margem do lago, onde ele pensa colocar rótulos em chinês descrevendo a flora e a fauna. "O mais importante não são os rótulos em chinês, mas mais banheiros, trilhas ecológicas, hospedarias."

Um dos pontos mais difíceis de se entender na Rússia, com suas vastas dimensões, é que os recursos são limitados. Se a terra ou a água estivessem poluídas, sempre havia mais em outro lugar. É essa atitude que a reserva natural luta para mudar.

Enquanto a população atraída pelo lago aumenta, os ambientalistas hoje se concentram na falta quase total de usinas de purificação de água ou banheiros biológicos, que produzem composto em vez de esgoto. "Banheiros, cozinhas --todos os poluentes fluem para o lençol freático e direto para o lago Baikal", disse Rikhvanova.

Grandes colônias de algas tornaram-se um problema em certos lugares, embora algumas pessoas digam que elas são consequência da diminuição do nível do lago devido à seca, mais que de algum fator humano. Moradores próximos ao lago têm dificuldade em conseguir água, porque os poços artesianos secaram.

"As pessoas acham que porque elas vivem no Baikal há centenas de anos e sempre existiram esses banheiros a coisa pode durar para sempre", disse Rikhvanova. "Ainda não há compreensão suficiente de que o lago Baikal é grande, mas frágil."

Outras ameaças espreitam.

Os produtos químicos abandonados quando a usina de papel fechou estão se infiltrando no lençol freático e acabarão contaminando o lago, segundo um estudo do Ministério de Recursos Naturais na região de Irkutsk. Planos da Mongólia de represar o rio Selenga, que corre para o lago, também são uma preocupação russa.

Moscou tomou algumas medidas para proteger o lago. Sergey Donskoy, o ministro federal de Recursos Naturais, disse que o governo construirá um novo sistema de tratamento de esgotos na região e está dando mais poder às autoridades locais para executarem um programa de preservação federal.

Uma consciência popular muito maior também ajuda. O problema do Baikal é um tema que espontaneamente atrai milhares de manifestantes às ruas quando a ameaça é óbvia. Alguns anos atrás, quando a Transneft, o gigantesco oleoduto estatal, propôs construir um oleoduto ao longo da margem, a forte reação do público levou o presidente Vladimir Putin a ordenar que o oleoduto fosse afastado do lago --uma das raras ocasiões em que ele cedeu a um protesto.

Empresários estão tentando criar experiências diferentes como hotéis verdes que cultivam mudas de plantas locais ameaçadas. A organização Grande Trilha do Baikal atrai milhares de voluntários todo verão para ajudar na construção de trilhas de caminhada, e pretende construir banheiros ecológicos.

Tudo isso indica uma mudança de atitude, mas Rikhvanova acha prematuro dizer que a batalha pelo Baikal terminou.

"Fizemos mudanças, é claro, mas por enquanto não posso dizer que vencemos", disse ela. "Há muitos problemas não resolvidos. Por enquanto, não podemos cantar vitória."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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