Assédio online não desencoraja fuzileira naval dos EUA: "precisa haver progresso"

Dave Philipps

  • Caitlin O'Hara/The New York Times

    12.mar.2017 - Savannah Cunningham, fuzileira naval que foi vítima de assédio online de militares americanos

    12.mar.2017 - Savannah Cunningham, fuzileira naval que foi vítima de assédio online de militares americanos

O problema começou meses atrás para Savannah Cunningham, que há muito sonhava em ser uma fuzileira naval, quando foi inundada por mensagens obscenas de homens e soube que um grupo exclusivamente masculino de fuzileiros fazia circular no Facebook um vídeo dela nua.

Novas ondas de pedidos e comentários lascivos sobre sua aparência chegavam toda vez que o vídeo, obtido inicialmente de um ex-namorado, e outras fotos tiradas da conta dela no Instagram eram republicados, juntamente com sua identidade. "Foi horrível", disse Cunningham, 19, em sua casa em Phoenix, no Arizona.

"Foi uma invasão de privacidade horrorosa", acrescentou. "Eles procuravam ativamente imagens minhas nua, qualquer coisa que pudessem conseguir."

Diante de uma visão tão crua do pior da cultura dos fuzileiros navais, muitas mulheres podem ter se decepcionado com os militares. Mas Cunningham estava decidida a se alistar, e partirá para o treinamento básico na primeira semana de abril.

"Alguém precisa se levantar e dizer que isso não representa os valores do Corpo de Fuzileiros Navais", afirmou. "Se eu não for, quem irá? Sim, durante muito tempo foi um clube de rapazes, mas precisa haver progresso."

A notícia do grupo só para convidados no Facebook que está por trás do assédio --uma reunião de 30 mil membros de fuzileiros na ativa e veteranos, chamados Marines United-- aumentou a discussão sobre o antigo problema de como as mulheres são tratadas no corpo militar.

Os Fuzileiros Navais enfrentaram um duro questionamento na terça-feira (14) da Comissão de Serviços Armados do Senado, cujos membros acusaram a liderança militar de não tomar medidas sobre uma questão que, segundo eles, o órgão conhece há anos.

"Não há mistério --isto acontece há muito tempo, está bem na sua frente", disse a senadora democrata Kirsten Gillibrand, de Nova York, a comandantes dos fuzileiros, citando uma audiência de 2013 sobre o assédio na internet a mulheres do órgão. "Quando vocês nos dizem que as coisas têm de mudar soa vazio."

Em um depoimento sério e às vezes introspectivo, o comandante do Corpo de Fuzileiros Navais, general Robert Neller, disse que o assédio online é um sintoma de um problema cultural maior que ameaça minar as bases da força de combate. Ele prometeu punir todos os que participaram e trabalhar para tornar a força de 184 mil integrantes um lugar mais receptivo para suas 15 mil mulheres.

"Vocês já ouviram isso antes, mas nós vamos ter de mudar como vemos a nós mesmos e como tratamos uns aos outros", disse ele a Gillibrand. "É uma resposta fraca, mas é tudo o que tenho neste momento. E fica por minha conta."

Os comandantes disseram que dos 30 mil membros dos Marines United somente cerca de 500 parecem ter entrado nas pastas de fotos de mulheres nuas. Investigadores estão trabalhando para montar casos jurídicos sobre militares na ativa que puderem identificar.

Mas os atos do grupo nos últimos dias mostram que talvez não seja fácil detê-los. Quando a página do grupo original foi fechada, depois que o site de notícias Reveal descobriu seus atos na semana passada, um grupo central de compartilhadores de fotos se mudou para outro grupo secreto chamado MU 2.0. Mais tarde, quando este foi fechado, eles se mudaram para o MU 3.0.

E mesmo quando o fuzileiro mais graduado do grupo, o sargento-major Ronald Green, condenou seus atos em depoimento ao Congresso na semana passada, os membros o desafiaram online, segundo um veterano, James LaPorta, que acompanha as atividades do MU.

"Parece não haver arrependimento", disse LaPorta. "Eles usavam xingamentos raciais e falavam em obter fotos da mulher dele."

O grupo continua postando em sites anônimos de pornografia. Um exame das imagens desses sites mostra dezenas de mulheres identificáveis, total ou parcialmente nuas, ao lado de fotos delas usando uniforme.

Thomas Brennan, um fuzileiro aposentado e jornalista que foi o primeiro a denunciar o grupo, disse que deu os nomes de 55 fuzileiros envolvidos na distribuição de fotos, incluindo oficiais com patentes até de major, a investigadores seis semanas atrás, mas que não houve sinal de que algum deles foi afastado do serviço.

Um porta-voz dos Fuzileiros Navais disse que não podia comentar a investigação em curso.

O escândalo agora se espalhou pelo Exército e a Marinha, que estão investigando grupos semelhantes. Para as dezenas de milhares de mulheres no serviço militar, entretanto, até os processos bem sucedidos poderão ter pequenas consequências sobre o campo minado de preconceito que elas dizem enfrentar.

Mais que qualquer outro ramo dos militares, os Fuzileiros Navais resistiram a integrar mulheres. Eles ainda treinam recrutas separadamente e deixam de dar às mulheres coletes blindados adequados a seus corpos, que o Exército já fornece há anos.

"Quase toda mulher que eu conheço nos fuzileiros enfrentou esse tipo de assédio, e você tenta mostrar que é dura o suficiente para ignorá-lo", disse Justine Elena, uma ex-capitão dos fuzileiros que serviu no Afeganistão e hoje trabalha no programa "The Daily Show". "Mas a certa altura, ao ignorá-lo, você acaba por aceitá-lo."

Ela lembrou um caso em que colegas fuzileiros tiraram fotos de mulheres nos banheiros de um navio em que uma amiga dela servia.

"Temos de nos levantar e dizer que ser fuzileiro não é isso", disse.

Na semana passada, depois de saber sobre a ampla disseminação de fotos, Elena montou um site para angariar fundos chamado Female Marines United, em que as pessoas podem mostrar sua oposição ao Marines United doando dinheiro para apoiar tratamento mental para fuzileiros veteranos.

Cunningham, que dentro de poucas semanas pisará nas pegadas amarelas pintadas, que são o primeiro passo simbólico no treinamento básico para se tornar uma fuzileira, disse que embora ela muitas vezes tenha se preocupado com como deve reagir ao assédio online, decidiu que a melhor reação é ser a melhor fuzileira possível.

Ela, que sempre foi atlética, decidiu durante o colegial que entraria para o serviço militar e escolheu os fuzileiros, segundo disse, por ser o corpo mais exigente e seletivo. Ela pretende trabalhar em uma equipe carregando mísseis em helicópteros Cobra.

Dois anos atrás, ela começou a se exercitar intensamente em preparação, indo à academia até que seus braços, que no início não conseguiam fazer um único movimento em barra fixa, conseguiram realizar 14 em sequência.

"Eu queria ter certeza de que podia fazer tudo o que os fuzileiros fazem", disse ela. "Não queria que ninguém me considerasse em um nível inferior."

Mais tarde ela namorou um fuzileiro, e quando ele estava estacionado fora do Arizona ela lhe mandou um vídeo curto de strip-tease.

"Geralmente não faço essas coisas", disse. "Mas para a pessoa que você ama você faz coisas para manter a relação viva."

O vídeo logo foi acrescentado às centenas de fotos e vídeos de fuzileiras na ativa e veteranas --com o nome da pessoa, sua patente e o local de serviço-- que são compartilhadas pelo Marines United e outros grupos. Cunningham foi avisada por fuzileiros que ela conhecia e eram membros do grupo, e chegou a ter acesso a toda a coleção.

Ela vasculhou os arquivos, procurando mulheres que conhecesse para alertá-las, sabendo que seus colegas e comandantes poderiam vê-las.

Mas embora estivesse horrorizada com os atos do grupo disse que nunca os equacionou ao Corpo de Fuzileiros Navais. Hoje ela namora um sargento dos fuzileiros e disse que a maioria dos fuzileiros que conhece ficaram tão decepcionados quanto ela com as fotos que viram. Foi isso o que a fez seguir adiante com seu plano de alistar-se.

"Precisamos ser exemplos positivos da mudança que queremos ver", disse ela. "Coragem, integridade, honra: eu quero viver esses valores."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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