Tempestade de neve traz mistura invernal de lama e irritação

  • Uli Seit/The New York Times

    Neve cobre as casas no bairro do Queens, em Nova York

    Neve cobre as casas no bairro do Queens, em Nova York

Enquanto a neve cai, repórteres de "The New York Times" visitam bairros e aeroportos de Washington a Boston. Aqui estão algumas histórias que eles descobriram.

Pronto para trabalhar, veio a decepção

A neve pode ter estado nas previsões para o litoral de Jersey na manhã de terça-feira (14), mas uma outra coisa acabou caindo aos baldes: sarcasmo.

"Que tempestade?", disse Billy Pisano, um pintor, que disse ter "enfrentado as filas do pão e do leite" na noite de segunda-feira (13) e cancelado seu trabalho da terça, mas acordou sem neve.

"Acho que vou ter de ficar em casa na chuva", disse ele. "Acho que vai ser um dia de Netflix."

Em uma loja de conveniência Wawa em Neptune, as pessoas paravam para tomar café, comprar cigarros e reclamar.

David Dee Delgado/ The New York Times
Trem fora de serviço no Brox, em Nova York

George Martin, 50, tinha prendido um arado de neve a seu veículo esportivo-utilitário e pretendia passar o dia usando-o para ganhar alguns trocados. Esperava 18 cm de neve, mas seu moral afundou quando ele acordou bem cedo e olhou para fora.

"Foi tipo, 'Oh, não, fizeram isso de novo'", disse ele. "É como ter uma bomba de artifício, você a atira e ela dá chabu."

Ele acrescentou: "Não há nada para raspar. Você não pode cobrar das pessoas por algo que não existe".

Al Clark, 38, e Stephen Vierschilling, 26, colegas de trabalho em uma oficina que pinta carros de bombeiros, contavam piadas sobre os meteorologistas.

"Nas últimas tempestades eles disseram que seria o fim do mundo, e não foi", disse Clark.

Soo Becchina, um professor de educação especial em Oceanside, Long Island, dá aulas extras para alunos depois das aulas normais. Por causa da tempestade, ela teve de cancelar várias aulas, deixando de ganhar por elas.

"Aulas extras são um negócio à parte para mim", disse Becchina. "Mas mais importante é que sempre fico chateada quando não posso dar a meus alunos o que eles precisam. Uma das meninas que acompanho terá uma prova de matemática amanhã. Espero que a professora não dê a prova, mas eu a conheço e sei que não costuma mudar a data das provas."

Apesar de perder o dia e o dinheiro, Becchina ainda pretendia dar uma aula por telefone a sua aluna naquele dia, sem cobrar.
— Nate Schweber e Ruth Bashinsky

No aeroporto Kennedy, com milhas pela frente

As notícias de cancelamento cobriam o painel de voos internacionais no Terminal 4 do Aeroporto Kennedy em Queens (Nova York) na manhã de terça-feira (13). Mas um voo, de Guangzhou, na China, havia pousado pouco antes das 5h.

David Dubois, um engenheiro e entusiasta da aviação de Hudson, New Hampshire, estava entre os passageiros. Ele disse que ficou impressionado com a aterrissagem, apesar das condições de neve.

Victor J. Blue/The New York Times
Grupo de viajantes canadenses joga cartas enquanto esperam por voo no Terminal 4 do John F. Kennedy International Airport em Nova York

"O piloto realmente enfrentou dificuldades e se saiu muito bem", disse Dubois. "Não havia pista de asfalto, era tudo neve. Quando ele pousou, deu para sentir que começou a derrapar de lado. Ele endireitou o avião, sem sacolejão, sem nada. Não pude acreditar."

Mas Dubois ainda tinha de ir para a Nova Inglaterra.

Kamari Simon, 18, estava em situação semelhante no Terminal 5. Simon, um DJ, disse que devia se apresentar com um rapper de 14 anos chamado Smooky Margiela no festival South by Southwest em Austin, no Texas.

"Espero que tudo dê certo e eu chegue a Austin", disse Simon, que estuda música no Five Towns College em Dix Hills, em Long Island. "É uma ótima oportunidade para conhecer outros artistas e fazer contatos."
— Sean Piccoli

Para alguns estudantes, não é bem um dia de neve

A tempestade de terça-feira fechou escolas em toda a região do litoral leste dos EUA, mantendo os estudantes fora das aulas. Mas apesar disso estudantes elementares de Petersham, em Massachusetts, cidade de 1.200 habitantes na parte central do Estado, não tiveram exatamente um dia de neve.

Eles tinham lição de casa --livros, atividades, trabalhos e até uma experiência científica-- destinada e permitir que compensassem o dia de aulas sem estar na escola e assim evitar que ela tivesse de acrescentar um dia de aulas no final do ano.

Al Drago/The New York Times
Caroline Preston, de Ponte Vedra Beach (Flórida), brinca de escorregar na neve nos morros no Capitólio, em Washington

A ideia surgiu depois do inverno de 2015, quando o distrito teve dez dias de neve. Tari Thomas, superintendente de escolas em um distrito consolidado que inclui Petersham, disse que o distrito experimentou enviar os estudantes mais velhos para casa com cursos online para terminar em laptops (embora esse não fosse o caso na terça-feira, porque os alunos já tinham usado os cinco dias de aprendizado online permitidos durante o ano).

"Houve um pequeno grupo de pais que disseram: 'Por que as crianças não podem ser crianças e ter um dia de neve?'", disse Thomas.

Mas ela acrescentou: "Alguns pais disseram: 'Oh, meu Deus, ainda bem que vocês lhes deram algo para fazer'".

No Central Park, em Manhattan, a história era outra. Foi um verdadeiro dia de neve, com as aulas canceladas.

Aliana Lambert, 6, arrastou seu trenó roxo até um monte só para meninos. Não havia uma regra escrita que proibisse as meninas de usar o monte na Rua 100 com Central Park Oeste, mas às 14h Aliana era a única menina ali.

Kat Vlasica, mãe de Aliana, disse que elas vêm ao monte em seu bairro em todas as tempestades de neve. "Quando você está em Nova York com 75 metros quadrados, tem de aproveitar um monte como este", disse ela. "Este é o nosso monte, e nem precisamos colocar sal nele ou raspá-lo."

— Jessica Bidgood e Emily Palmer

Um dia de neve escorregadio em Washington

Washington finalmente está tendo o dia de neve que pensou que este inverno tivesse esquecido. Bem... mais ou menos.

Não importa que apenas alguns centímetros de neve, granizo e chuva tenham caído por toda a cidade e áreas próximas da Virgínia e Maryland durante a noite. Ou que o transporte público e o governo federal, o maior empregador da região, estivessem funcionando normalmente.

Enquanto as camadas de neve e gelo enterravam os arbustos e murchavam a florada precoce das cerejeiras em Washington, as ruas estavam cobertas de gelo e na maioria vazias na madrugada de terça-feira. Donos de lojas que decidiram abri-las de qualquer jeito limpavam com pás as calçadas, que logo eram recobertas de lama congelada, muito escorregadia.

Até os legisladores na Câmara de Deputados, que estão correndo para fazer avançar uma grande lei de saúde nesta semana, decidiram dar a si mesmos uma espécie de dia de neve. Citando os muitos voos cancelados em todo o país, eles adiaram as votações para quarta-feira (15).

No Salão Oval, o presidente Donald Trump recebeu Mohammed bin Salman, o vice-príncipe real da Arábia Saudita, para almoço e conversa. Lá fora, o fluxo diário e constante de turistas posava para fotos.

David e Michelle Wilding, de Dallas, estavam entre eles, acompanhados por suas filhas, Hope e Grace. Eles tinham imaginado um passeio de primavera, mais verde. E a neve? "É maravilhosa", disse David Wilding, especialmente depois de um inverno que não teve sua dose habitual.

— Nicholas Fandos
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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