Opinião: Discípulos de um falso profeta

Charles M. Blow

  • Kevin Lamarque/ Reuters

O golpe que Donald Trump deu em seus eleitores aos poucos está sendo desvendado. Ele não é honesto. Ele não é um negociador brilhante. Ele não é nem mesmo competente.

Por sua vida inteira Trump vendeu gato por lebre. Tudo era e é uma ilusão, uma marca construída sobre a venda de banalidades com petulância. Ele moldou vacuidades em forma de sonhos e as entregou àqueles ávidos por um gostinho da forma espalhafatosa e fútil da alta sociedade que ele passou a representar. Ele era bom em explorar aqueles com um apetite ostentoso pela aura de sucesso. A história da vida de Trump é um esquema de pirâmide das ambições.

Ele levou essa história a um povo que tentava lidar com a escassez de oportunidades e explorou seus pontos fracos: uma sensação de cada vez menos segurança econômica e suas tendências nativistas crescentes.

Mas Trump se baseia mais em sentimentos do que em fatos. Para ele, a verdade é maleável e uma mentira é valiosa. Ele cria sua própria realidade em vez de viver na realidade dos outros. A enganação é só uma ferramenta, e a traição é só uma inconveniência.

Agora até mesmo algumas das pessoas que antes o apoiavam com vigor estão sendo obrigadas a abrir os olhos, passando a ser os discípulos traídos de um falso profeta.

Além disso, têm surgido cada vez mais indícios de conexões e contatos entre a equipe de Trump e a Rússia, um país que, está mais do que provado, interferiu nas nossas eleições em uma tentativa de ajudar Trump e prejudicar sua adversária.

O desastre retumbante da revogação e do plano de substituição do Trumpcare está sob um risco cada vez maior uma vez que até mesmo os republicanos estão com medo dos danos que ele causaria e do preço eleitoral a ser pago.

As acusações difamatórias contra o presidente Barack Obama, de que ele havia mandado grampear seus telefones na Trump Tower, estão sendo vistas com cada vez mais descrença, uma vez que não se baseiam em nada concreto, pelo menos até o momento.

Algo que acho fascinante é reler a transcrição da fala de Trump quando este anunciou que concorreria à presidência à luz do que sabemos hoje. Boa parte dela consistia de mentiras ou de críticas suas contra outros por coisas que, mais tarde, como foi provado, ele mesmo fez. É o documento mais condenatório possível sobre esse homem, pelo menos que esteja disponível publicamente hoje.

Dois dos pilares centrais desse discurso e, na verdade, de toda sua candidatura, eram o muro na fronteira e a revogação do Affordable Care Act (lei de serviços de saúde acessíveis).

Trump disse durante o discurso:

"Eu construiria um grande muro, e ninguém constrói muros melhor do que eu, acreditem, e vou construí-los de forma muito pouco custosa. Vou construir um muro enorme em nossa fronteira sul. E vou fazer o México pagar por esse muro".

Primeiro, o preço para o muro disparou em bilhões de dólares. Como Bess Levin observou na "Vanity Fair":

"De acordo com um relatório interno feito pelo Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, ele vai custar cerca de US$ 21,6 bilhões (R$ 67 bilhões). Esse número é significativamente mais alto que a estimativa de US$ 12 bilhões da equipe de Trump, ou do que a estimativa da liderança republicana de US$ 15 bilhões, porque leva em conta pequenos inconvenientes que a Casa Branca não considerou em seus cálculos aproximados, como o fato de que muitas áreas onde o muro passaria são de propriedade privada e teriam de ser compradas".

Então, quando o México se recusou firmemente a pagar pelo muro, algo que observadores sabiam que iria acontecer, Trump mudou o tom, dizendo que o México na verdade reembolsaria os americanos pelo muro depois que os contribuintes americanos pagassem por ele.

Agora essa ideia de que os mexicanos pagarão pelo muro praticamente desapareceu. Quando ele falou para uma sessão conjunta do Congresso algumas semanas atrás, Trump sequer mencionou uma demanda de que o México pague pelo muro.

Trump também disse em seu discurso no qual anunciava sua candidatura:

"Precisamos revogar o Obamacare, e ele pode —e— e ele pode ser substituído por algo muito melhor para todos. Que seja para todos. Mas muito melhor e muito menos custoso para as pessoas e o governo. E podemos fazer isso".

Mas, como deixa claro a avaliação feita pelo Comitê Orçamentário do Congresso esta semana sobre o plano de substituição, isso custaria o seguro de saúde a dezenas de milhões de americanos. Seria uma bênção para americanos mais ricos e uma desgraça para os não tão ricos. Mais especificamente, os custos poderiam ir às alturas para muitos idosos.

A maior de todas as ironias é, como apontou Nate Cohn, do The Upshot do "The New York Times": "As pessoas que mais sairiam perdendo em créditos fiscais com o plano de saúde dos republicanos do Congresso tendiam a apoiar Donald J. Trump no lugar de Hillary Clinton na eleição de 2016".

Alguns desses eleitores de Trump que estão literalmente sendo mantidos vivos por terem acesso a tratamento pelo Affordable Care Act votaram em um homem e em um partido que prometeram acabar com ele. De fato, uma pesquisa da Fox News divulgada na quarta-feira revelou que somente 35% dos eleitores nos Estados Unidos aprovavam a forma como Trump estava lidando com o sistema de saúde.

As muitas mentiras que Trump contou entre aquele discurso e hoje só agravaram seus defeitos e suas traições. Mas agora a conta está chegando. Em breve um preço será pago por essas enganações.

As mentiras de Trump, sua marca e sua presidência são como um castelo de cartas e a verdade é uma caixinha de fósforos. Está se tornando cada vez mais provável a proximidade das chamas, destinadas a reduzir a cinzas toda a construção, enquanto Trump vai aos poucos convertendo antigos seguidores em adversários decepcionados.

Tradutor: UOL

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