A nova linguagem do Gaymoji

Guy Trebay

Em West Hollywood (Califórnia)

  • Brad Torchia/The New York Times

    Joel Simkhai (dir), fundador do Grindr, e Landis Smithers, diretor criativo, na sede da companhia em West Hollywood, na Califórnia

    Joel Simkhai (dir), fundador do Grindr, e Landis Smithers, diretor criativo, na sede da companhia em West Hollywood, na Califórnia

Você não precisa ser formado em semiótica para enxergar um significado em uma berinjela ao lado de uma régua ou um pêssego com um telefone antigo em cima. A primeira é um símbolo de internet reconhecido universalmente como um membro masculino avantajado e o último é uma abreviação visual para um convite para sexo casual, algo que praticamente qualquer adolescente de 16 anos de idade poderia explicar prontamente.

Assim como acontece com a maior parte do resto de nossa cultura, as características de uma população definem o futuro, especialmente aquelas que descrevem uma faixa etária que nasceu com um smartphone nas mãos. Essa, pelo menos, é a estimativa feita pelo Grindr, o popular aplicativo de encontros gay com ambições de se reformular como um território comum na internet para uma geração de jovens lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros e seus amigos.

A partir desta semana, o Grindr oferecerá aos usuários um conjunto de emojis patenteados, chamados Gaymoji, 500 ícones que funcionam como uma abreviação visual para termos, atos e estados de espírito que parecem mais engraçados, leves e livres de complicação quando representados em forma de desenho no lugar de palavras.

"Quase 20% de todas as mensagens enviadas pelo Grindr" já usam emojis, disse seu diretor de criação Landis Smithers. "Existe essa mudança cultural acontecendo e precisamos acompanhar os usuários para onde eles estão nos levando."

Ou seja, na direção de uma linguagem visual de unicórnios em cores do arco-íris, ursos, lontras e algemas, só para citar algumas das imagens disponíveis na primeira série de 100 símbolos Gaymoji gratuitos. Existem outros 400 que podem ser liberados para aqueles dispostos a pagar US$ 3,99 (cerca de R$ 12) para terem acesso a ícones digitais organizados em categorias como Humor, Objetos, Corpo, Namoro e Sexo.

Brad Torchia/The New York Times
Adesivos com novos emojis para o app do Grindr na sede da companhia na Califórnia

O fundador da empresa, Joel Simkhai, disse que em suas próprias comunicações no Grindr muitas vezes ele sentiu a necessidade de emojis que não estavam disponíveis antes.

"Esse projeto em parte começou porque o conjunto atual de emojis estabelecido por algum comitê internacional era limitado e não estava evoluindo suficientemente rápido para nós", disse Simkhai, que de certa forma se encaixa no estereótipo de um homem gay em West Hollywood: um não-fumante ágil, malhado, sem pelos que gosta de dançar em festas do circuito gay.

"Quando eu queria dizer algo sobre sair para dançar, eu sempre tinha de usar a mulher dançando de vestido vermelho. Eu pensei, 'Por que não tem um cara dançando?' Era esquisito para mim, sempre ter de enviar aquela mulher do vestido vermelho'."

Algumas pessoas ficaram perplexas com a venda no ano passado de 60% das ações do Grindr para um conglomerado de investimentos chinês especializado em jogos online. No entanto, para aqueles que viam em um aplicativo que se descreve como a maior rede de mídia social exclusivamente masculina do mundo uma versão erotizada do "Candy Crush", a iniciativa parecia quase inevitável.

Estudos encomendados pelo Grindr mostraram que, sejam eles atraídos pela perspectiva de encontros sexuais, de encontros para tomar um café ou pela cascata constantemente renovada de fotos de nus sem o rosto, os 3 milhões de usuários diários têm entrado no site uma média de 18 vezes por dia e passado um total de quase uma hora a cada 24 horas.

"Mas éramos um negócio de um único foco", disse Simkhai enquanto mostrava recentemente a nova sede do Grindr em West Hollywood.

Brad Torchia/The New York Times
Sede da Grindr em West Hollywood, na Califórnia

Em uma mudança nítida da sede que o Grindr ocupava anteriormente em um prédio genérico de um trecho sem graça do Sunset Boulevard, os novos escritórios da empresa passaram a ocupar um andar envidraçado do Pacific Design Center, com vistas panorâmicas da região de Los Angeles, visíveis de cada uma das mesas.

No entanto, poucos dos 90 funcionários nos escritórios pareciam notar os brilhantes céus azuis que haviam voltado à região após semanas de chuva. Assim como a maior parte dos humanos no mundo desenvolvido, eles estavam com a cara enfiada em suas telas.

"Estamos todos tão ligados em nossos telefones que quando as pessoas falam sobre o conceito de um computador se mesclando ao ser humano e perguntam quando isso vai acontecer, eu digo que já aconteceu", disse Simkhai. Ele acrescentou que a perspectiva de ficar sem um telefone por 20 minutos induzia nele "o mais alto nível de ansiedade que eu poderia ter".

Essa compulsão já bastante analisada, que tem sua origem nos receptores do cérebro associados ao prazer —eles acendem de uma forma muito parecida com a da tela de um smartphone quando chega uma notificação de mensagem— parece feita sob medida para a expansão do Grindr para os emojis.

"A essência do que está acontecendo com os emojis ou Gaymojis é que eles tiram um pouco da pressão que surge quando você precisa dizer algo na caixa sem janelas que é uma conversa online", disse Gretchen McCulloch, uma linguista que está escrevendo um livro sobre como a internet está mudando a linguagem, a partir da conferência de tecnologia South by Southwest em Austin, no Texas esta semana.

"Você envia essas imagens engraçadinhas para não ter que bolar uma frase inteligente. Você não está tentando comunicar nada em particular além de sinalizar seu desejo de continuar a conversa."

Divulgação
Emoji do Gaymoji do app do Grindr

Então o Gaymoji serve tanto como um substituto de conversa quanto até mesmo existencial, disse McCulloch: "Você os usa para dizer 'Ainda estou aqui e ainda quero conversar com você'".

Entre as armadilhas que o Grindr enfrenta ao introduzir um conjunto de ícones para representar um grupo que não é mais facilmente definido está o fato de que ao substituir um conjunto de estereótipos antigos ele pode estar introduzindo outros igualmente desajeitados e infelizes.

"Um problema é que você tem essa linguagem em comum que não está sendo organicamente criada por pessoas marginalizadas", como eram os códigos secretos do lenço ou da fita do chapéu usados para assinalar uma identidade na época em que as pessoas não podiam se assumir, disse Doug Meyer, um professor-assistente no departamento de mulheres, gênero e sexualidade na Universidade da Virgínia.

"O elemento corporativo é novo nisso. Ter uma linguagem corporativa em comum criada para beneficiar um negócio acaba excluindo muitas pessoas e criando formas muito particulares e normativas de se pensar sobre sexo."

A questão não foi completamente ignorada por Simkhai, que em um aniversário comemorado recentemente logo antes de ele inaugurar o Gaymoji, recebeu a má notícia de colegas de que, aos 40 anos, ele pode ter ficado velho demais para seu próprio aplicativo.

Como se para enfatizar essa afirmação, um repórter que olhava a nova série de Gaymojis em busca de algo que simbolizasse uma pessoa da época de Simkhai só conseguiu encontrar um.

Era a imagem de um senhor grisalho segurando um cartão de crédito.

Tradutor: UOL

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