Trump pode ter afastado os eleitores holandeses do populismo

Alissa J. Rubin

Em Haia (Holanda)

  • Yves Herman /Reuters

    O líder da extrema-direita holandesa Geert Wilders, do partido PVV, após perder as eleições

    O líder da extrema-direita holandesa Geert Wilders, do partido PVV, após perder as eleições

Se há uma coisa em que todos os holandeses concordam é na preservação dos diques, que protegem este país baixo da destruição causada pela fúria do mar. Esse sentimento se traduz na política.

Para os holandeses, a votação pelos britânicos para saída da União Europeia e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos romperam os diques políticos, deixando os holandeses incomodados com o conflito e incerteza resultantes.

Isso, disseram alguns analistas, ajuda a explicar por que, no final, os holandeses optaram por conter o avanço populista liderado por Geert Wilders, o ícone da extrema-direita, nas eleições da última quarta-feira.

"Na Europa, todos estamos vendo os desdobramentos nos Estados Unidos e não é o que queremos para nós, porque o que vemos é caos", disse Janka Stoker, uma professora da Escola de Economia e Administração da Universidade de Groningen, no norte da Holanda.

"Somos um país de coalizão, nem sempre gostamos das coalizões, mas sabemos que elas dão estabilidade e as pessoas sabem aqui que devem trabalhar juntas", disse Stoker.

É difícil dizer se o mesmo sentimento prevalecerá em outros países europeus que realizarão eleições neste ano. A Holanda, uma nação de instintos sociais basicamente liberais, é um barômetro, apesar de imperfeito, com seu sistema eleitoral proporcional que dissipa o poder e força a cooperação.

Está muito menos claro se os disjuntores políticos em locais como França e Itália conterão da mesma forma o movimento populista. Eles já não funcionaram no Reino Unido, onde a decisão imprudente de um referendo sim-não a respeito da Europa removeu as habituais salvaguardas eleitorais, e nos Estados Unidos, onde o Colégio Eleitoral pela segunda vez passou por cima do voto popular desde 2000.

Assim, apesar da sensação de alívio entre os políticos e eleitores de mentalidade europeia ter sido palpável na quinta-feira, após a eleição holandesa, a Europa (seu projeto de integração, sua unidade, seus ideais políticos) ainda está longe de livre das ameaças populistas.

Apesar dos holandeses terem negado a Wilders uma grande vitória, eles apoiaram partidos de centro-direita que adotaram algumas das posições e linguagem dele para poderem vencer.

No geral, os partidos de inclinação de direita, incluindo os partidos definidos como populistas pelos acadêmicos e especialistas em pesquisas, ganharam sete cadeiras no Parlamento holandês, o que lhes dá 57% das 150 cadeiras parlamentares nesta eleição, em comparação a 52,6% na eleição passada, quando ficaram com 79. Ao mesmo tempo, uma das forças políticas holandesas mais antigas, o Partido Trabalhista de esquerda, afundou.

O resultado praticamente garante que as políticas em relação aos imigrantes e muçulmanos serão mais restritivas, apesar de menos do que se Wilders estivesse no comando do governo holandês.

Mas há vários sinais de que o "efeito Trump", que esperava-se que impulsionaria populistas de mentalidade semelhante, é menos poderoso ou está surtindo o efeito oposto, disseram vários analistas e especialistas em pesquisas.

Igualmente, a votação britânica para saída da União Europeia, conhecida como Brexit, pode parecer menos convidativa como modelo à medida que a realidade de sua desordem passa a ser vista.

Charles Grant, diretor do Centro para a Reforma Europeia, uma organização de pesquisa com sede em Londres, disse que o "fator Trump" exerceu o papel de "fazer as pessoas pensarem duas vezes antes de votarem em um populista, já que viram que se você eleger um populista, pode acabar tendo todo tipo de políticas loucas."

"Ao mesmo tempo", ele acrescentou, "temos visto uma queda do populismo na Europa desde a Brexit, à medida que os cidadãos perceberam que, apesar de um voto de protesto ser divertido, pode levar às incertezas da Brexit, que não são nada divertidas. Isso contribuiu para a mudança de humor na Holanda".

Nas pesquisas na Holanda que olhavam para as percepções a respeito de Wilders antes e depois da eleição de Trump, Wilders se saía significativamente melhor antes da posse do presidente americano, disse Maurice de Hond, um dos mais experientes especialistas em pesquisas da Holanda.

"O motivo para Wilders ter terminado em segundo lugar tem a ver com Trump", ele disse, notando que outros fatores, como a ausência de Wilders nos primeiros debates, também contribuíram.

Nem todos concordam e alguns analistas ressaltaram que toda a política é local. Mais importante do que a Brexit ou Trump pode ter sido a briga diplomática do último fim de semana com a Turquia, que deu ao partido de centro-direita um impulso após ter adotado uma posição dura contra Recep Tayyip Erdogan, o presidente turco.

"Não se trata da Holanda não estar preocupada com Trump ou com a Brexit, mas sim que há um provincianismo nessas eleições europeias", disse E.C. Hendriks, um pesquisador holandês de ciências sociais e antropologia cultural atualmente na Universidade de Pequim. "Na verdade, todos estão em sua própria ilha."

Com certeza, há fatores tanto na França quanto na Alemanha que tornam suas respectivas eleições idiossincráticas e potencialmente menos afetadas pelos ventos políticos americano e britânico.

Todavia, na França é notável o fato de Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional de extrema-direita, ter buscado se esquivar de analogias entre suas políticas e as de Trump.

"Geert Wilders, o equivalente holandês de Le Pen, falava muito sobre Trump, o elogiou na proibição da entrada de muçulmanos no país e foi um das poucas figuras políticas europeias a elogiar a proibição", disse Alexandra de Hoop Scheffer, diretora do escritório do Fundo Marshall Alemão, em Paris.

"Le Pen foi mais discreta, acho que ela percebeu que estar próxima demais de Trump, no momento em que o governo dele passa por uma fase caótica, lhe seria desfavorável."

Alguns eleitores holandeses disseram que levam a sério o tom às vezes belicoso de Trump e votaram conscientemente em partidos que apoiam a UE, por acreditarem que a Europa é mais forte unida e mais capaz de confrontar os Estados Unidos sob Trump.

Por motivos semelhantes, disseram alguns, eles não apoiaram a Brexit. "Não gosto da Brexit, pois ela enfraqueceu o sistema, enfraqueceu a Europa e, indiretamente, a Holanda", disse Max den Voort, um estudante de 19 anos da Universidade de Ciências Aplicadas de Haia, em Delft.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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