Experimento solar permite que vizinhos comercializem energia entre si

Diane Cardwell

Em Nova York (EUA)

  • Kevin Hagen/The New York Times

    1.mar.2017 - Garry Golden em seu telhado no bairro de Windsor Terrace, no Brooklyn

    1.mar.2017 - Garry Golden em seu telhado no bairro de Windsor Terrace, no Brooklyn

O Brooklyn é conhecido no mundo por coisas locais feitas em pequena quantidade, como tamancos de grife, bourbon e chucrute artesanais.

Agora, ele está tentando adicionar eletricidade à lista.

Em um experimento promissor em um pedaço rico do distrito, dezenas de conjuntos de painéis solares espalhados pelos telhados das casas estão conectados em uma crescente rede.

Chamada de Microrrede do Brooklyn, o projeto está inscrevendo moradores e empresas em uma plataforma virtual de comércio, que permite aos produtores de energia solar vender os créditos pela eletricidade excedente de seus sistemas para compradores no grupo, que podem até mesmo ser o vizinho ao lado.

O projeto ainda está em seus primeiros estágios (ele conta com apenas 50 participantes no momento), mas suas implicações podem ser imensas. A ideia é criar um sistema virtual peer-to-peer (ponto a ponto ou par a par) de troca de energia baseado em blockchain, a tecnologia de banco de dados de compensação por trás de moedas virtuais como a bitcoin.

A capacidade de completar transações seguras e criar um negócio baseado em compartilhamento de energia permitiria aos participantes contornar o fornecimento de energia pelas companhias elétricas e no final construir uma microrrede com componentes de geração e armazenamento de energia, que poderia funcionar por conta própria mesmo durante grandes apagões.

"Os membros da comunidade podem trabalhar tanto individual quanto coletivamente para ajudar a atender a demanda de modo eficiente", disse Audrey Zibelman, que recentemente deixou o cargo de presidente da Comissão de Serviços de Utilidade Pública do Estado de Nova York, que regula as empresas prestadoras de serviços de utilidade pública estaduais.

"Ela retira da mesa o principal provedor, neste caso, historicamente, a companhia elétrica", ela prosseguiu, "e realmente cria um mercado onde as pessoas não compram e vendem para a companhia elétrica, mas sim identificam as necessidades de cada um e a disposição de comprar e vender".

O projeto é mais um exemplo de como tecnologias que estão se disseminando rapidamente, como painéis solares e blockchain, estão mudando relacionamentos tradicionais, como entre as companhias elétricas e os consumidores, dando um controle ainda maior aos consumidores.

Kevin Hagen/The New York Times
Medidores transativos na casa de Garry Golden no Brooklyn

Por todo o mundo, novas empresas como a LO3 Energia, que está desenvolvendo o experimento no Brooklyn juntamente com a gigante industrial Siemens, estão construindo redes digitais que oferecem a promessa de sistemas de energia elétrica descentralizados, guiados pelos usuários, que podem trabalhar em conjunto com a rede elétrica tradicional ou, especialmente em economias emergentes, sem a necessidade da rede tradicional.

Na Austrália, onde Zibelman em breve dirigirá os mercados de energia elétrica do país, uma empresa chamada Power Ledger anunciou no ano passado o início de um mercado de comércio de eletricidade residencial baseado em blockchain, em um empreendimento residencial em Perth.

Em Bangladesh, onde estimadas 65 milhões de pessoas não têm acesso à rede elétrica, a ME SOLshare está desenvolvendo redes peer-to-peer de lares rurais com e sem sistemas de geração de energia solar.

Os produtores-consumidores ali, conhecidos como "prossumidores", podem vender à rede a energia excedente gerada, onde lares e empresas vizinhas podem comprá-las em pequenas quantidades pelo celular.

E na Alemanha,a Sonnen, a principal fornecedora de baterias e produtos e serviços para energia elétrica inteligente para os lares, criou uma rede de cerca de 8.000 clientes, tanto com quanto sem painéis solares em seus telhados, que estão comercializando sua energia armazenadas uns com os outros.

Kevin Hagen/The New York Times
Patrick Schnell, participante do Brooklyn Microgrid, com panéis solares em seu telhado no bairro de Gowanus, no Brooklyn


"O peer-to-peer está de modo lento, mas garantido, se tornando realidade", disse Olaf Lohr, o chefe de desenvolvimento de negócios da Sonnen nos Estados Unidos. 

"Trata-se de uma tecnologia altamente disruptiva. Os clientes também são os proprietários, são os produtores de eletricidade. Não há uma grande companhia elétrica como fornecedora centralizada."

Em Nova York, a microrrede do Brooklyn é concebida para trabalhar em conjunto com a rede convencional, que está passando por uma atualização sob as diretrizes do governador Andrew M. Cuomo, para torná-la mais flexível, resistente e economicamente eficiente, reduzindo ao mesmo tempo as emissões de gases do efeito estufa. Esse esforço, conhecido como Reforma da Visão de Energia, ou REV (na sigla em inglês), inclui o encorajamento do desenvolvimento de microrredes e a participação mais ativa da comunidade.

O sistema elétrico ideal, segundo Richard L. Kauffman, que como diretor de energia e finanças do governo está liderando o esforço, é um que combine grandes usinas elétricas e linhas de transmissão com grupos de escala menor de produtores-consumidores, "onde os elétrons possam fluir em mais de uma direção e onde a oferta e a demanda de eletricidade seja dinâmica, diferente de como a rede é hoje".

O compartilhamento peer-to-peer de energia elétrica é consistente com essa visão, ele disse, apesar de que várias mudanças regulatórias são necessárias para que decole.

A Comissão de Serviços de Utilidade Pública estadual já promoveu algumas delas, incluindo a aprovação na semana passada de novas formas de determinação do preço da eletricidade a partir de projetos de energia renovável, que reflitam de forma mais precisa o valor para uma rede com base na localização geográfica, horário e outros fatores ainda a serem determinados.

Mas Lawrence Orsini, presidente-executivo da LO3, disse que o Estado ainda precisa determinar como definirá sua empresa e sua rede de participantes antes que possa colocar seu mercado em operação, algo que ele espera que aconteça até junho.

Kevin Hagen/The New York Times
Medidores transativos em teste pela LO3 Energy Lab no Brooklyn

"Não há nada tecnicamente inviável no que estamos fazendo", ele disse. "Para que a energia transativa possa decolar como um todo, os reguladores precisam estar confortáveis de que os mercados podem de fato trabalhar dessa forma e, mais importante, que as pessoas desejam mercados como esse."

Ao longo do ano passado, a LO3 tem trabalhado para encontrar essas pessoas, usando o Google Earth para identificar lares com instalações de painéis solares no teto e então batendo às suas portas para alistar participantes, com algum sucesso em Park Slope e Gowanus.

A equipe de Orsini está ocupada coletando dados dos medidores instalados nos lares dos prossumidores, medindo a produção, uso e exportação da eletricidade solar para ajudar a desenvolver o modelo do mercado.

Ela também está testando aplicativos para smartphone que os clientes poderão usar para administrar suas compras de eletricidade, estabelecer parâmetros para controle da fonte (selecionando dentre um variedade de opções como convencional, renovável, local e em massa, assim como quanto estão dispostos a gastar).

Orisini disse que espera que a maioria dos usuários fará suas escolhas e então deixará o sistema assumir.

"Ninguém deseja comprar e vender eletricidade diariamente", ele disse. "Estamos dando às pessoas algo de que nunca ouviram falar, que é realmente uma forma de personalizar seu consumo de energia."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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