Nova mensagem em alguns museus: não apenas olhe. Faça

Kerry Hannon

  • Guerrilla Girls/Museum of Fine Arts, Boston via The New York Times

    Poster de 1985 das Guerrilla Girls

    Poster de 1985 das Guerrilla Girls

Tráfico sexual e uma exposição de arte podem parecer uma combinação incompatível.

Em maio, porém, o Museu Patan, local declarado Patrimônio Mundial pela Unesco, no Nepal, abrigará o "Projeto Histórias Reais", apresentado por Art Works for Change [Obras de Arte pela Mudança], uma organização beneficente sediada em Oakland, na Califórnia, em colaboração com a Fundação Siddhartha, em Katmandu (Nepal). A exposição visa enfocar o problema perturbador e muitas vezes invisível do tráfico de meninas como escravas sexuais.

"Esta é uma questão de direitos humanos e uma questão das mulheres", disse Randy Jayne Rosenberg, diretora-executiva e principal curadora da Art Works for Change. "É uma exposição de arte poderosa e desconfortável. E é uma maneira de conscientizar sobre esse sério problema global do abuso e exploração de crianças."

Apesar de o grupo de Rosenberg existir há dez anos, seu trabalho provavelmente nunca foi tão relevante. Além do projeto sobre tráfico sexual e exploração de mulheres e meninas, sua organização trabalha com projetos que enfocam a biodiversidade e a importância da natureza; habitação diante da mudança climática; ética; e a extinção de espécies animais.

"Quando começamos a Art Works for Change, não havia muitas exposições temáticas ou de conteúdo dirigido", disse Rosenberg. "Havia uma impressão de que esse tipo de exposição sacrificava a arte pelo tema, e a arte talvez não tivesse qualidade de museu."

Isso mudou de modo significativo. "Hoje há muitas obras excelentes em que os artistas abordam questões críticas de nossa época", acrescentou a curadora. "Há situações sociais no mundo que estão afetando profundamente as pessoas. Nosso objetivo é usar a arte que envolve as pessoas emocional e intelectualmente para inspirá-las a ser agentes de mudança."

Nos últimos anos, os museus têm feito um esforço maior para ter voz no ativismo social e reagir a problemas prementes de nossa época. A grande questão é quando e como os museus de arte devem assumir uma posição pública e tentar efetivar a mudança, ou pelo menos iniciar uma discussão na comunidade sobre um tema.

Ang Tsherin Sherpa / Art Works for Change via The New York Times
Trabalho de Ang Tsherin Sherpa sobre tráfico sexual

Muitos especialistas em museus são cautelosos sobre seu relacionamento público com questões sociais polêmicas, e geralmente evitam assumir uma posição. Fazer isso poderia isolá-los de públicos potenciais que poderiam sentir preconceito, ou colocar suas instituições em risco de ser identificadas por potenciais doadores como apoiadoras de pontos de vista politicamente ofensivos.

Mas Jennifer Mergel, curadora sênior de arte contemporânea no Museu de Belas Artes de Boston, disse: "Meu trabalho como curadora é tomar decisões sobre o que incluir, o que expor e o que não, e quem representar em nossas galerias para nosso público, e eu considero isso uma decisão política. O papel do museu é apresentar arte, provocar o diálogo".

Em fevereiro, o Museu de Belas Artes começou a exibir um rodízio de cartazes de sua coleção das Guerrilla Girls, o grupo de artistas feministas, cujos membros sempre foram anônimos.

Colaborando desde 1985, as Guerrilla Girls oferecem comentários sobre gênero e discriminação racial no mundo da arte, mas também fazem observações sobre questões como os sem teto. Seu imaginário e comentário apareceram originalmente como publicidade, placas, cartazes e folhetos para ônibus e quadros de avisos.

Oito cartazes da coleção de 88 do museu entraram na exposição "Intenção Política". O preferido de Mergel é uma impressão ampliada de uma nota de um dólar com uma linha pontilhada marcando mais ou menos um terço. O texto abaixo é: "As mulheres nos EUA ganham só um terço do que os homens ganham. As mulheres artistas ganham só um terço do que os homens artistas ganham".

Mergel disse: "É impossível não ver isso. Não é apenas a condição das mulheres artistas, mas das mulheres em todo o país. Para mim, artistas como as Guerrilla Girls apresentam uma ideia que é oportuna e urgente, manifestações que realmente falam ao espírito da época".

O novo ativismo patrocinado por museus está expondo arte não apenas nos museus, mas também nas ruas.

Brian Flaherty/The New York Times
Randy Jayne Rosenberg, da Art Works for Change, em sua casa em Oakland, na Califórnia

"A comunidade torna-se parte do processo, parte da narrativa", disse Rosenberg, da Art Works for Change, em Oakland. "Quando levamos uma exposição a um museu, procuramos parceiros da comunidade, ou pedimos aos museus para fazer esse papel e utilizamos os grupos ativistas que já existem na comunidade. Não somos um grupo ativista. Somos um grupo de arte."

Na Filadélfia, a Fundação Barnes está mostrando como mais de 50 artistas internacionais se envolvem com comunidades em "Person of the Crowd: The Contemporary Art of Flanerie" [Uma pessoa comum: a arte contemporânea do passeio], que vai até 22 de maio. As obras artísticas tocam temas como gentrificação, políticas de gênero, globalização, racismo e falta de moradias.

"Person of the Crowd" inclui uma série de performances nas ruas da cidade, por artistas como Sanford Biggers, um artista interdisciplinar sediado no Harlem, em Nova York, que trabalha em filme, vídeo, escultura e música, e Tania Bruguera, uma artista performática cubana. Projetos com outdoors e cartazes de rua também fazem parte da exposição e da diversão.

Man Bartlett, um artista multidisciplinar de Nova York, está registrando as performances de rua durante a exposição e convidando as pessoas a compartilhar suas opiniões sobre a vida urbana pelas redes sociais, usando o hashtag personofthecrowd.

Bartlett também trabalha junto com adolescentes da área de Filadélfia para criar vídeos que documentam suas experiências, inspirados por visitas a espaços públicos da cidade. A obra em evolução está disponível no site do projeto, personofthecrowd.org, e é projetada na Annenberg Court da Fundação Barnes.

Um desafio para os museus em calibrar seu ativismo social é a pátina de elitismo que se prende a eles.

"É claro que temos consciência da percepção de que instituições como os museus são de elite, e não para todos os públicos", disse Mergel. "Eu pessoalmente acredito que já estamos atuando sobre isso. As parcerias que alcançamos em nossa comunidade já estão trazendo um público mais diversificado às galerias."

Mergel descreveu uma impressão em pigmento de uma mulher transgênero, CeCe McDonald, feita por Andrea Bowers, artista sediada em Los Angeles. Em 2012 McDonald foi condenada a 41 meses em uma prisão masculina em Minnesota por assassinato. Chamada "Trans Liberation: Building a Movement" [Liberação trans: construindo um movimento], é uma foto incrível, com quase 2,40 m de altura e 1,50 de largura, que foi adquirida pelo museu em junho passado.

"O que nós decidimos exibir é importante", disse Mergel. "Bowers usa essa imagem para aumentar a consciência da discriminação social contra as mulheres transgênero. Conversas incríveis entre os visitantes de nosso museu acontecem bem na frente de CeCe. Se a imagem pode fazer alguém enxergar com maior discernimento, e com curiosidade, em vez de fobia, isso se traduz em nossa vida social. E me faz sentir muita esperança."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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