Governo Trump dá mais liberdade a militares dos EUA do que gestão Obama

Michael R. Gordon

Em Washington (EUA)

  • Nicholas Kamm/AFP/Getty Images

    20.fev.2017 - O presidente dos EUA, Donald Trump, cumprimentar o general H.R. McMaster (esq) em seu resort em Mar-a-Lago, em Palm Beach, na Flórida

    20.fev.2017 - O presidente dos EUA, Donald Trump, cumprimentar o general H.R. McMaster (esq) em seu resort em Mar-a-Lago, em Palm Beach, na Flórida

O presidente Donald Trump está transferindo ao Pentágono maior autoridade sobre as operações militares, segundo autoridades da Casa Branca, revertendo o que seus assessores e alguns generais disseram ser uma tendência do governo Obama a microadministrar questões que seria melhor deixar para os comandantes militares.

A mudança está no centro de uma reengenharia do papel do Conselho de Segurança Nacional sob seu novo líder, o general H. R. McMaster, e reflete a opinião de Trump de que o CSN deve se concentrar menos em operações e táticas militares e mais em problemas estratégicos.

Um preceito condutor do presidente e sua equipe é que o equilíbrio de poder no mundo mudou contra os interesses dos EUA, e que McMaster deve se dedicar a desenvolver opções de políticas econômicas e externas em coordenação com o Pentágono, o Departamento de Estado e outras agências para responder a esse desafio.

A nova abordagem da gestão de operações militares ficou evidente neste mês, quando uma bateria de artilharia dos Fuzileiros Navais e uma equipe dos Patrulheiros do Exército --cerca de 400 soldados ao todo-- chegaram ao norte da Síria. O secretário da Defesa, Jim Mattis, autorizou os destacamentos e comunicou à Casa Branca. Mas McMaster não convocou uma reunião na Casa Branca para discutir se devia enviar as forças, nem apresentou ao Pentágono perguntas sobre onde exatamente as tropas deveriam operar ou que riscos poderiam enfrentar.

Embora a decisão simplificada tenha sido bem-vinda por muitos militares, poderiam levantar perguntas sobre se Trump, que utilizou muitos atuais e ex-generais para preencher cargos chaves em seu governo, está exercendo uma supervisão suficiente.

"Para o presidente Trump, é apenas o início, mas ele parece estar voltando a um modelo de maior delegação de autoridade", disse Michèle Flournoy, que foi a principal diretora de políticas do Pentágono sob o presidente Barack Obama e é a executiva-chefe do Centro para uma Nova Segurança Americana, grupo de elaboração de políticas sediado em Washington.

"O benefício é que isso permite que a campanha militar continue sem pausas, interrupções ou atrasos indevidos", acrescentou Flournoy. "Permite criar mais ímpeto e ser mais responsivo a modificações no campo de batalha. Mas há um risco se houver supervisão inadequada e o presidente parar de dar atenção minuciosa. Pode ser prejudicial, e até perigoso, se um comandante-em-chefe não se sentir dono da campanha ou perder contato com como as coisas estão evoluindo em campo."

Trump já atraiu críticas por aprovar muito rapidamente os planos militares para efetuar um ataque ao Iêmen em janeiro que levou à morte um comando americano e vários civis. Os EUA também realizaram um ataque aéreo na semana passada na Síria que, segundo militares americanos, matou dezenas de combatentes da Al Qaeda, mas segundo ativistas locais também feriu civis.

Ao mesmo tempo, Trump ainda não anunciou uma nova estratégia para derrotar o Estado Islâmico, algo que, durante a campanha presidencial, ele disse diversas vezes que faria. Isso sugere que a principal contribuição de Trump poderá ser garantir que a estratégia básica que ele herdou se realize mais rapidamente.

McMaster --que substituiu o general aposentado Michael Flynn, cujo mandato tumultuado como assessor de segurança nacional durou menos de um mês-- tem uma reputação de pensador estratégico. Até agora ele não empreendeu nenhuma reestruturação fundamental do CSN, segundo membros da Casa Branca que não quiseram ser identificados porque estavam discutindo o planejamento interno. Mas ele fez algumas indicações para ajudar na tentativa de forjar uma nova estratégia.

Dina Powell, principal assessora de Trump para iniciativas econômicas, foi nomeada vice-assessora de segurança nacional para estratégia para dirigir a preparação de opções políticas e supervisionar sua execução quando Trump as decidir.

Nadia Schadlow, uma ex-membro do Pentágono e autora de um livro recente que examina casos em que o Exército americano interveio no exterior, foi contratada para esboçar uma estratégia de segurança. No passado, esse documento costumava ser uma espécie de reformulação das políticas da Casa Branca, mas para o governo Trump, que luta para traduzir sua promessa de "tornar os EUA grandes de novo" em uma agenda econômica e internacional coerente, poderá ser uma afirmação importante.

Resta ver como McMaster irá contornar centros de poder rivais dentro da Casa Branca que têm suas próprias opiniões arraigadas sobre política de segurança. Quando Mattis recebeu o ministro da Defesa saudita no Pentágono na última quinta-feira (16), McMaster foi uma das cinco autoridades da Casa Branca que participaram da reunião. As outras foram Stephen Bannon, que continua sendo um membro pleno do comitê de "principais" do CSN; Jared Kushner, o genro de Trump; Powell; e Derek Harvey, o principal especialista em Oriente Médio na equipe do CSN.

"O problema do general McMaster não é como lidar com o secretário da Defesa e outros principais; é como lidar com os muitos poderes concorrentes na Casa Branca", disse Ivo Daalder, presidente do Conselho de Chicago sobre Assuntos Globais e coautor de um livro sobre o CSN. "Isso foi salientado quando cinco altos membros da Casa Branca chegaram ao Pentágono para uma reunião que normalmente teria a participação de um único assessor do CSN."

Os passos que o governo Trump deu até agora, como mobilizar artilharia dos Fuzileiros Navais na Síria, geralmente refletem a abordagem do governo Obama de fornecer poder de fogo e assessores para que forças locais possam efetuar o combate em campo.

Enquanto ainda espera que a Casa Branca seja consultada, porém, o governo Trump está preparado para dar ao Pentágono mais margem para mobilizar forças do que na época de Obama. O escrutínio das mobilizações militares pela Casa Branca de Obama refletia seu medo de ser levada a um atoleiro, assim como tensões com os militares que datam de deliberações de 2009 sobre a estratégia no Afeganistão.

Enquanto a abordagem do governo Obama garantia que o presidente estivesse bem informado sobre detalhes militares, também significava que passos modestos como o reabastecimento de armas a combatentes sírios que lutavam contra o Estado Islâmico ou o envio de equipes militares para sondar uma potencial base no Iraque, muitas vezes podem ser dados sem uma deliberação prolongada.

"Em defesa do governo Obama, cada vez que pedimos algo mais ao presidente, acabamos conseguindo, embora muitas vezes tivéssemos de saltar muitos passos", disse Andrew Exum, um patrulheiro do Exército aposentado que tinha um cargo elevado no Departamento da Defesa de Obama. "O episódio que mais marcou foi perto do final do governo Obama, quando literalmente vimos secretários de gabinete discutirem o deslocamento de três helicópteros do Iraque à Síria."

Embora ainda não esteja claro se o novo governo criará uma estratégia significativamente diferente da de seu antecessor, a equipe de Trump poderá influir em como a que ele herdou será realizada.

"Potencialmente, dando aos comandantes em campo mais espaço para explorar as oportunidades no campo de batalha, o governo Trump pode executar a estratégia de Obama de maneira mais eficiente", disse Exum.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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