Opinião: Trump quer cortar ajuda humanitária, que salva vidas e evita crises

Nicholas Kristof

  • Efe

    3.jul.2015 - Crianças brincam com integrantes da missão da ONU na cidade de Bor, no Sudão do Sul

    3.jul.2015 - Crianças brincam com integrantes da missão da ONU na cidade de Bor, no Sudão do Sul

Primeiro, um teste: Qual é a crise mais importante no mundo atual?

A) Os falsos tuítes do presidente Trump de que o presidente Barack Obama o grampeou.

B) A guerra do presidente Trump à mídia noticiosa.

C) A crise de fome que ameaça 20 milhões de pessoas em quatro países.

A resposta é meio óbvia, não é?

"Estamos enfrentando a maior crise humanitária desde a criação da ONU", advertiu Stephen O'Brien, o diretor humanitário da organização. "Sem esforços globais coletivos e coordenados, as pessoas simplesmente vão morrer de fome."

Como Trump está reagindo a esta crise? Cortando a ajuda humanitária, aumentando o risco de que as pessoas passem fome nos quatro países --Iêmen, Sudão do Sul, Somália e Nigéria. O resultado é uma tempestade perfeita: milhões de crianças tropeçando em direção à fome, enquanto os EUA abdicam da liderança e cortam a ajuda.

"Este é o pior momento possível para fazer cortes", disse David Miliband, presidente do Comitê Internacional de Socorro. Ele disse que "o maior perigo" é o efeito dominó --que a ação dos EUA encoraje outros países a também recuar.

A essência do orçamento que Trump divulgou alguns dias atrás é cortar a ajuda aos necessitados, seja no país ou no exterior, e usar a economia para reforçar os militares e construir um muro na fronteira com o México.

(Sim, o muro que Trump costumava dizer que o México pagaria. Mas parece que na verdade será pago cortando as refeições dos americanos idosos e reduzindo a ajuda às crianças famintas do Iêmen.)

É importante notar que "todas essas crises são fundamentalmente criadas pelo homem, conduzidas por conflitos", como disse Neal Keny-Guyer, CEO do Mercy Corps. E os EUA têm parte da responsabilidade.

Em particular, a catástrofe no Iêmen --o país com o maior número de pessoas sob risco de fome-- deveria ser um escândalo internacional. Uma coalizão liderada pela Arábia Saudita, apoiada pelos EUA, impôs um bloqueio ao Iêmen que deixou dois terços da população precisando de assistência. No Iêmen, "passar fome" é transitivo.

O sofrimento lá recebe pouca atenção, em parte porque a Arábia Saudita impede a maioria dos repórteres de chegar às áreas submetidas a seu bloqueio. Eu tentei entrar desde o último outono [no hemisfério norte, primavera no hemisfério sul], mas a coalizão saudita controla o ar e o mar e se recusa a me deixar entrar. Na verdade, os sauditas conseguiram bloquear a cobertura dos crimes contra a humanidade que estão cometendo no Iêmen, e os EUA apoiam os sauditas. Que vergonha para nós!

Do mesmo modo, o governo do Sudão do Sul me negou um visto neste mês; ele não quer testemunhas de sua crise de fome.

Nos EUA, a ajuda humanitária tem sido uma tradição bipartidária, e o campeão entre os presidentes recentes foi George W. Bush, que iniciou programas de combate à Aids e à malária e salvou milhões de vidas. Bush e outras pessoas reconheceram que os motivos para ajudar envolvem não apenas nossos valores, mas também nossos interesses.

Pense em qual foi a maior ameaça à segurança que os EUA enfrentaram na última década. Eu diria que pode ter sido o ebola, ou alguma outra epidemia --e nós superamos o ebola não com porta-aviões, mas com ajuda humanitária e pesquisa médica--, ambas as quais foram cortadas no orçamento de Trump.

A visão de Trump de uma ameaça de segurança é um submarino chinês, ou talvez um imigrante não autorizado, e é essa visão que seu orçamento reflete. Mas em 2017 algumas das mais sérias ameaças que enfrentamos são de doenças ou narcóticos que não podem ser achatados por um tanque, mas podem ser abordadas com diplomacia, pesquisa científica e programas sociais dentro e fora de nossas fronteiras.

É verdade que a ajuda externa dos EUA poderia ser distribuída de maneira mais sensata. É ridículo que um dos maiores beneficiários seja um país próspero, Israel. O orçamento de Trump estipula que outras ajudas devem ser cortadas, mas não a de Israel.

Os EUA contribuem com menos de um quinto de 1% de nossa renda nacional à ajuda externa, cerca da metade da porcentagem de outros países doadores, em média.

A ajuda humanitária é uma das maiores histórias de sucesso do mundo, pois o número de pessoas que vivem na extrema pobreza caiu pela metade desde 1990, e mais de 120 milhões de vidas de crianças foram salvas nesse período.

Veja o caso de Thomas Awiapo, cujos pais morreram quando ele era criança, no norte de Gana. Dois de seus irmãos mais moços morreram, aparentemente de desnutrição. Então Thomas ouviu falar que uma escola local estava oferecendo refeições aos alunos, um "programa de alimentação escolar" apoiado pela Usaid, a agência de ajuda dos EUA, e os Serviços Católicos de Ajuda. Thomas foi à escola e recebeu refeições diárias, sob a condição de que se matriculasse.

"Eu continuei indo à escola da aldeia só para comer", disse-me ele. Thomas tornou-se um estudante brilhante, foi à faculdade e fez mestrado nos EUA. Hoje ele trabalha para os Serviços Católicos de Ajuda em Gana, após decidir que queria dedicar sua vida a retribuir.

Eu lhe perguntei o que ele acha do corte da ajuda externa no orçamento de Trump. "Quando eu soube que essa ajuda foi cortada, fiquei muito triste", respondeu ele. "Aquela comida salvou minha vida."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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