Proibição de viagem arruína celebração do Ano-Novo Persa

Jennifer Medina

Em Los Angeles (EUA)

  • Angie Smith/The New York Times

    Farhad Besharati, dono da agência de viagens ATT Vacation Travel, em seu escritório em Los Angeles (EUA)

    Farhad Besharati, dono da agência de viagens ATT Vacation Travel, em seu escritório em Los Angeles (EUA)

 Enquanto clientes lotavam sua pequena mercearia em Westwood Boulevard, Minoo Yousefi preparava apressadamente mais buquês de jacintos e tulipas. Aquele era um dos períodos mais movimentados do ano, restando poucos dias para o Nowruz, o Ano-Novo Persa e a celebração do primeiro dia da primavera.

E como fez por décadas, Yousefi começou a preparar os pratos especiais de arroz com ervas e cordeiro para servir à sua família.

Mas neste ano algo estaria faltando. Sua mãe e irmão não participariam da celebração. Eles estão retidos no Irã, já que seus vistos, para trazê-los para cá a tempo das festividades do Nowruz, que começam na segunda-feira, foram cancelados dois dias após a proibição inicial de viagem do governo Trump ter entrado em vigor no final de janeiro.

Eles consideraram brevemente tentar de novo quando a proibição foi suspensa, mas desistiram quando souberam que uma nova proibição seria emitida em breve.

Para centenas de iraniano-americanos no sul da Califórnia, que tradicionalmente viajam de um país ao outro para estarem com suas famílias no Nowruz, velhos planos e reuniões familiares foram arruinados por causa da incerteza em torno da proibição. Casamentos que foram marcados em torno do feriado foram adiados, parentes idosos passaram a temer nunca mais rever seus netos.

Para muitos membros da diáspora, esta é a primeira vez desde que chegaram aos Estados Unidos, após a revolução iraniana de 1979, que sentem que não podem correr o risco de sair do país, por medo de que seu retorno não será autorizado.

"Isto é muito triste, é loucura", disse Yousefi. Ela está nos Estados Unidos há 35 anos e se tornou cidadã décadas atrás. Ela já ajudou sua mãe, uma nonagenária, a viajar para Los Angeles quase uma dúzia de vezes.

"Não sabemos o que faremos", ela acrescentou. "Minha mãe é velha. Ela morrerá em breve. Pode ser que ele nunca mais veja minha filha de novo e isso a matará. Esta deveria ser uma época de celebração, mas estou apreensiva demais."

Angie Smith/The New York Times
Flores enviadas antes do Nowruz, o Ano Novo Persa, no mercado de Tochal, em Los Angeles


A região de Los Angeles conta com a maior diáspora iraniana no mundo, com uma população de dezenas de milhares. Com placas em farsi em quase toda fachada de loja, um trecho do Westwood Boulevard é oficialmente considerado Persian Square (Largo Persa) e os moradores às vezes chamam a cidade de Teerangeles.

As famílias são unidas e representam um setor poderoso política e economicamente. Eles representam um dos grupos de imigrantes com maior escolaridade, com muitos trabalhando no meio acadêmico, medicina, imóveis e tecnologia. A população é diversa e complexa; apesar de a maioria ser democrata, há um segmento significativo de judeus que apoiou Donald Trump, acreditando que ele adotaria uma abordagem mais linha-dura em relação ao governo iraniano.

Enquanto os iraniano-americanos se preparam para celebrar o Nowruz, um feriado secular ancestral amplamente comemorado que marca o equinócio de primavera, com mesas servidas com sete pratos que começam com a letra sîn (Haft-sîn), a conversa se concentrou menos nas receitas e mais nas histórias sobre planos de viagem frustrados e parentes presos no limbo.

Muitos fugiram do Irã após a revolução, que deu origem à República Islâmica, ou durante a guerra de oito anos com o Iraque que se seguiu. E para eles, a proibição de viagem é um lembrete assustador do governo religioso autoritário que deixaram para trás.

"Esta é a América, para onde viemos em busca de liberdade", disse Yousefi. "Temos mulás no Irã. Não precisamos disso aqui."

Uma piada circulando entre os iranianos daqui é que quando chegaram aos Estados Unidos, eles não desfaziam suas malas, pois planejavam voltar, acreditando que o governo religioso se tornaria moderado. Mas muitos já estão criando uma terceira geração de crianças nascidas americanas, e a proibição parece uma dura repreensão.

Apesar de a viagem ao Irã ser cara, muitos iranianos nos Estados Unidos se consideram obrigados a fazê-la, não apenas para visitar parentes, mas também para manter seus filhos conectados à cultura persa.

Angie Smith/The New York Times
Farideh Farrohi desistiu de viajar para Teerã depois da ordem executiva de Trump, em Los Angeles


Nos últimos dois meses, clientes procuravam perturbados por Farhad Besharati, que é dono da agência de viagens ATT Vacation na Persian Square há 25 anos. A maioria de seus clientes é de detentores idosos do "green card" ("visto de residência permanente") que ficaram horrorizados ao verem pessoas como eles detidas por dias nos aeroportos, ele disse.

Cerca de 70% dos voos que ele tinha reservado para este mês foram cancelados, ele disse. Temeroso de perder clientes regulares e sentindo-se culpado pelos voos não serem reembolsáveis, Besharati devolveu o dinheiro aos clientes assim mesmo, perdendo mais de US$ 100 mil, ele disse.

"Todos estão assustados", disse Besharati. "Eles não querem ficar retidos. Eles não querem seus parentes presos aqui."

Ele esta tentando assegurar aos clientes de que é seguro viajar. Mas seu conselho tem feito pouco para apaziguar seus temores.

"Mesmo se você estiver acompanhando o noticiário, não dá para entender o que está acontecendo", ele disse. "Todos temem não mais poderem rever seus familiares, seus lares."

Talvez, disse Besharati, tudo acalmará até o verão, outro período de pico de viagens ao Irã.

Mas nem todos estão otimistas.

Geralmente, pelo menos metade dos quase 250 estudantes iranianos de pós-graduação na Universidade da Califórnia, em Irvine, voltam para casa para o Nowruz, mas neste ano nenhum deles arriscou deixar o campus, disse Touraj Daryaee, um professor que dirige o Centro para Estudos Persas dali.

Ele está organizando uma conferência internacional na faculdade marcada para o ano que vem. Mas muitos dos acadêmicos, inclusive iranianos que vivem em outros países, disseram não estar dispostos a correr o risco de viajar para os Estados Unidos. Ele está considerando transferir o evento para o Canadá.

"As pessoas estão todas horrorizadas e desanimadas, pois achávamos que as relações estavam melhorando", disse Daryaee. "Em vez disso, todos estamos paranoicos e apavorados. Os vistos de estudante não vêm com qualquer promessa de obtê-los novamente."

Até mesmo cidadãos nascidos nos Estados Unidos estão preocupados. Farideh Farrohi, 69 anos, planejava ir para Teerã com seu filho neste mês. Mas ela e seu filho, que nasceu em Los Angeles e é estudante de medicina, cancelaram seus planos porque ele estava preocupado com o clima atual. Farrohi disse que irá com ou sem ele no verão.

"O que poderá acontecer de pior para mim, me insultarem?" ela disse durante o almoço em um café persa. "Eles já insultaram todos nós com essas regras absurdas."

A mudança nas leis de imigração e vistos alterou as celebrações do Nowruz também de formas mais sutis. Sahinaz Safari frequenta há anos os eventos do feriado na Associação dos Ex-Alunos Persas da Universidade de Stanford, onde geralmente há palestras de empreendedores bem-sucedidos e especialistas em cultura.

Neste ano, os participantes ouviram um diretor-executivo da divisão do Norte da Califórnia da União Americana pelas Liberdades Civis e estandes de informação com advogados de imigração foram montados.

"Não se trata apenas de cultura", disse Safari, um estudante de pós-graduação iraniano-canadense. "Isso agora nos faz pensar o que podemos fazer como uma comunidade, o que deveríamos fazer para correr o risco e contra-atacar."

Shaya Tayefe Mohajer contribuiu com reportagem adicional.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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