No interior da Amazônia, praia no Tapajós proporciona até a experiência de comer formigas

Simon Romero

Em Alter do Chão (Brasil)

  • Bryan Denton/The New York Times

Mesmo estando bem afastada do mar, em um canto remoto da selva amazônica, Alter do Chão deve estar entre as mais sedutoras cidades de praia do mundo.

Praias de areia branca ao longo do Rio Tapajós atraem visitantes que vêm dirigindo de pontos tão distantes quanto Cuiabá, uma cidade sem praia que fica a quase 1.600 km ao sul. As águas límpidas e cálidas atraem praticantes de snorkeling e de standup paddle.

Se quiser só relaxar, você pode se sentar em um café, tomar uma garrafa bem gelada de cerveja Tijuca e assistir o Sol se pôr atrás de serras cobertas de florestas, repletas de animais selvagens como preguiças e macacos bugios.

Durante uma viagem que fiz este ano para uma reportagem na Bacia Amazônica, dei uma escapada até Alter do Chão por alguns dias depois de ouvir histórias sobre sua beleza rústica. Em um país que conta com mais de 7.400 km de litoral, tentei imaginar se uma das melhores praias do Brasil poderia realmente estar situada nas profundezas do interior indomado da maior floresta tropical do mundo.

"Se você quer ter a experiência da verdadeira Alter, precisa comer formiga", explicou para mim Pitó, 55, um indígena cumaruara que guia visitantes em trilhas pela selva. Ele catou uma saúva do chão da floresta e me desafiou a comê-la. Era uma delícia, crocante como pipoca, com um sabor que lembra capim-limão.

Eu não poderia ter tido um guia melhor do que Pitó, cujo nome completo é Raimundo Gilmar Faria da Costa. Em um espaço de poucas horas, ele me mostrou como caçar com um arco, navegar uma canoa, pescar com um arpão, tirar seiva de uma seringueira e até mesmo falar algumas palavras de nheengatu, a língua franca indígena que persistiu por séculos em toda a Amazônia.

"Aposto que você não encontra nada assim em Ipanema", disse Pitó, fazendo piada com a lendária praia do Rio de Janeiro, a cidade litorânea onde vivo há seis anos.

É claro, Pitó tinha razão. Para uma vivência única em uma praia brasileira, você precisa viajar até Alter, que parece um oásis de tranquilidade em um país que hoje se encontra em um estado de tensão devido a uma crise econômica prolongada, enormes escândalos de corrupção e uma crescente polarização política.

Nem sempre Alter foi vista como uma cidade praiana de floresta tropical. Pedro Teixeira, um explorador português que conduziu expedições Amazônia adentro com o intuito de escravizar povos indígenas, estabeleceu um entreposto colonial aqui em 1626.

Mas, durante séculos, Alter continuou como um lugar isolado, com exceção de alguns residentes que atraía da cidade vizinha de Santarém e de algum aventureiro ocasional.

O naturalista britânico Henry Walter Bates chegou aqui nos anos 1850, e chamou Alter de "um lugar negligenciado e acometido pela pobreza".

"As casas no vilarejo fervilhavam de vermes, morcegos no telhado de palha, formigas- de-fogo sob o piso, baratas e aranhas nas paredes", ele escreveu.

Apesar de tais apreensões, esse lugar conquistou Bates, que deixava sua mente fluir nas praias de Alter depois de conduzir pesquisas na floresta sobre mimetismo animal que confirmavam a teoria da evolução de Charles Darwin.

"A luz suave", escreveu Bates em "Um Naturalista no Rio Amazonas", "que pousava sobre amplas praias arenosas e cabanas cobertas de folhas de palmeira, reproduzia o efeito de uma cena de solstício de inverno no norte gelado, quando uma camada de neve recobre a paisagem".

Inverno não foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando explorei a ensolarada Alter a pé.

No calor, as pessoas usam biquínis e calções, a mesma roupa de praia que prevalece no Rio. A arborizada praça central tinha um clima relaxado, com vendedores oferecendo tigelas de um açaí bem roxo salpicado de tapioca. Em cafés, os visitantes saboreavam pratos de peixe amazônico como pirarucu e tucunaré.

"Este lugar é tranquilo e mágico, diferente de onde viemos", disse Alexis Álvarez, 29, um tatuador da Venezuela que se mudou recentemente para cá juntamente com sua mulher, uma professora primária, e a filha de um ano do casal, buscando refúgio no Brasil depois de sofrer com a escassez de alimentos e remédios durante o turbilhão econômico da Venezuela.

"Nós nos sentimos em casa em Alter", disse Álvarez, explicando que ele e sua mulher ganhavam a vida vendendo as bijuterias que eles fazem. "Acho que viemos para ficar".

O escritor e explorador Alex Shoumatoff ficou fascinado por Alter quando visitou a vila em 1977, descrevendo-a como "o primeiro lugar para onde eu iria quando finalmente desistisse de tentar me encaixar no mundo moderno".

Mas as coisas mudam rápido na Amazônia. Com a conclusão de uma rodovia que atravessa a bacia fluvial, Shoumatoff voltou em 1984 e encontrou uma Alter irreconhecível, com adolescentes "bebendo Coca-Cola, fazendo esqui aquático, andando de jipes conversíveis e dançando o 'moonwalk' ao som de fitas do Michael Jackson".

Alter ainda fervilha com visitantes desordeiros de Santarém aos finais de semana. Algumas pessoas da cidade se queixam do aumento das tensões entre locais e forasteiros. Ouvi alertas sobre caminhadas na serra com vista para as praias de Alter, após o assassinato brutal de duas pessoas na trilha cometido alguns anos atrás.

"No dia em que cheguei aqui senti uma energia muito especial, e não consegui ir embora", disse Marcelo Freitas Gananca, 49, que se mudou de São Paulo para Alter em 1998. Ele é dono da Araribá, uma loja que vende uma coleção surpreendente de arte indígena, inclusive máscaras cerimoniais, bordunas, tambores e zarabatanas de 6 metros.

"Mas agora a vila está em um ponto crítico, podendo ir para uma direção ou outra", disse Gananca, citando desafios como falta de um sistema de esgoto, tensões com recém-chegados e a construção de novas pousadas espalhafatosas que refletem pouco das origens de Alter.

Diante de problemas como esses, tentei imaginar como Alter estará daqui a alguns anos. Juntamente com as queixas sobre os chamados barões da soja do Estado vizinho do Mato Grosso estarem construindo mansões aqui, algumas pessoas em Alter também insistem que eles poderiam criar um equilíbrio entre turismo e sustentabilidade.

"Talvez Alter seja um ponto de encontro onde possamos aprender uns com os outros", disse Pitó, o guia cumaruara. "O mundo não precisa de um lugar onde as pessoas possam diminuir o ritmo, colocar a mão na água e sentir o rio correr?"

Tradutor: UOL

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