Opinião: Trump mente como nenhum político dos EUA jamais fez

David Leonhardt

  • Bill Pugliano/Getty Images/AFP

A nona semana da Presidência de Donald Trump começou com o diretor do FBI a chamá-lo de mentiroso.

O diretor, o muito complicado James Comey, não usou exatamente essa palavra em seu depoimento ao Congresso na segunda-feira (20). Mas o que ele quis dizer ficou o mais claro possível. Trump repetidamente acusou Barack Obama de grampear seus telefones, e Comey explicou que "não há informação que sustente" essa denúncia.

Eu afirmei anteriormente que nem toda inverdade merece ser rotulada de mentira, porque esta implica intenção, e alguém pode declarar uma inverdade sem o fazer propositalmente. George W. Bush não mentiu quando disse que o Iraque tinha armas de destruição em massa, e Obama não mentiu quando disse que as pessoas que gostavam de seu seguro-saúde atual poderiam conservá-lo. Eles fizeram declarações descuidadas que se mostraram falsas (e mereceram grande parte das críticas que receberam).

Mas o atual presidente dos EUA mente. Ele mente de maneiras que nenhum político americano mentiu antes. Ele mentiu, entre muitas outras coisas, sobre o local de nascimento de Obama, o assassinato de John Kennedy, o 11 de Setembro, a guerra do Iraque, o Estado Islâmico, a Otan, os militares veteranos, os imigrantes mexicanos, os imigrantes muçulmanos, os ataques contra semitas, o índice de desemprego, o índice de assassinatos, o Colégio Eleitoral, a fraude eleitoral e seu assédio a mulheres.

Ele conta tantas inverdades que está na hora de deixar de lado a análise textual de quais foram ditas sem querer e quais foram deliberadas --assim como a ideia condescendente de que a maioria dos apoiadores de Trump aprecia suas mentiras.

Trump está decidido a iludir as pessoas. Como ele disse: "Eu jogo com as fantasias das pessoas".

Aviso ao público: quando Donald Trump diz que uma coisa aconteceu, não deve mudar a estimativa de ninguém sobre se ela realmente aconteceu. Talvez tenha acontecido, talvez não. Sua afirmação não altera a probabilidade.

O que nos leva à Rússia.

A interferência da Rússia na campanha presidencial de 2016 foi um ataque aos EUA. É o tipo de problema de segurança nacional que um presidente e os congressistas, quando assumem seus cargos, juram que tratarão com a maior seriedade. Mas agora tornou-se o tema de uma série crescente de mentiras do presidente e das pessoas que trabalham para ele.

Enquanto Comey reconhecia na segunda-feira que o FBI estava investigando uma possível conivência entre a Rússia e a campanha de Trump, Trump mentia a esse respeito. Tanto em sua conta pessoal no Twitter quanto na conta da Casa Branca, ele disse inverdades.

Algumas horas depois, seu secretário de imprensa, Sean Spicer, apareceu diante das câmeras e mentiu sobre a proximidade entre Trump e vários assessores que documentaram as ligações com a Rússia. Lembra-se de Paul Manafort, o presidente da campanha de Trump, que dirigiu a crucial operação de contagem de delegados? Spicer disse que Manafort teve um "papel muito limitado" na campanha.

A grande pergunta agora não é o que Trump e a Casa Branca estão dizendo sobre a história da Rússia. Eles evidentemente dirão qualquer coisa. As questões são o que realmente aconteceu e quem pode descobrir a verdade.

A Câmara dos Deputados, infelizmente, não o fará. O que mais me entristeceu durante o depoimento de Comey não foi a reação da Casa Branca, que eu já esperava, mas o questionamento que lhe fizeram os deputados republicanos.

Eles são membros de um ramo do governo que a Constituição considera equivalente à Presidência, mas agiram como membros da equipe de Trump, lamentando os vazamentos sobre o ataque da Rússia, mais que o ataque em si. O equivalente no Watergate é afirmar que a Garganta Profunda foi pior que Haldeman, Ehrlichman e Nixon.

Coube a Adam Schiff, um deputado democrata do sul da Califórnia, expor as ligações suspeitas entre Trump e a Rússia (enquanto sugeria que não podia dar alguns detalhes secretos). Schiff fez isso em um calmo monólogo de nove minutos que vale a pena assistir. Ele discorreu sobre os pagamentos pró-Putin a Michael Flynn, sobre a notícia antecipada dada por outro assessor de Trump do e-mail hackeado de John Podesta e sobre a misteriosa luta quanto à plataforma do Partido Republicano em relação à Ucrânia.

"É possível que todos esses fatos e relatos sejam completamente desvinculados, e nada mais que uma coincidência totalmente infeliz? Sim, é possível", disse Schiff. "Mas também é possível, talvez mais que possível, que não sejam coincidência, nem desconectados, nem desvinculados, e que os russos tenham usado nos EUA as mesmas técnicas para corromper pessoas que empregaram na Europa e em outros lugares. Simplesmente não sabemos, ainda não, e devemos ao país descobrir tudo."

Comey, por mais que os liberais possam detestá-lo por sua incompetência em 2016, parece ser uma das poucas autoridades públicas com capacidade e disposição para procurar a verdade. Eu espero profundamente que os senadores republicanos sejam patriotas o suficiente para também o fazer.

Nosso presidente é um mentiroso, e precisamos descobrir quão sérias são suas últimas mentiras.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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