Como funcionará a investigação do FBI sobre as ligações de Trump com a Rússia?

Michael S. Schmidt e Matt Apuzzo

Em Washington (EUA)

  • Bill Pugliano/Getty Images/AFP

Investigação de contrainteligência. Grampos. Revelação não autorizada de segredos de segurança nacional confidenciais.

Essas frases pontuaram na segunda-feira o depoimento no Congresso do diretor do FBI (Birô Federal de Investigação, a polícia federal americana), James B. Comey, no qual este disse publicamente pela primeira vez que o birô está investigando se membros da campanha presidencial de Trump trabalharam com a Rússia para influenciar a eleição de 2016. Os comentários de Comey introduziram novos conceitos que a maioria das pessoas raramente escuta.

A comunidade de inteligência concluiu que o governo russo empregou uma série de táticas, incluindo o hackeamento e divulgação de e-mails dos democratas, para influenciar a eleição contra Hillary Clinton.

Aqui estão algumas das respostas às perguntas feitas durante o depoimento de Comey:

O que é uma investigação de contrainteligência?

Diferente de uma investigação criminal típica envolvendo crime organizado ou tráfico de drogas, um caso de contrainteligência geralmente não é focado em processar alguém. Trata-se mais de espionagem do que manutenção da lei. Todo dia, equipes de agentes do FBI ouvem escutas de autoridades estrangeiras e realizam vigilância de pessoas suspeitas de serem agentes estrangeiros em cidades por todo o país. Mas assim que sabem que uma pessoa é espiã, elas não necessariamente correm para algemá-la. No mundo da contrainteligência, com frequência é mais valioso observar essas pessoas, às vezes por anos, e descobrir com quem falam, qual é sua missão e como operam.

Contrainteligência trata de descobrir como os adversários estrangeiros dos Estados Unidos estão conduzindo sua espionagem e impedi-la. Apesar de casos de contrainteligência raramente receberem atenção, a questão é considerada uma alta prioridade do FBI depois do contraterrorismo.

Se esses casos não visam processar os envolvidos, alguém pode ser indiciado por espionagem?

Com frequência não, mas há exceções. O Departamento de Justiça é agressivo nos processos de pessoas que roubam segredos comerciais. E vira-casacas como Aldrich Ames da CIA (Agência Central de Inteligência) e Robert Hanssen do FBI estão cumprindo penas de prisão perpétua por espionarem para a Rússia.

Neste caso, o FBI está investigando a questão muito ampla da interferência russa na eleição de 2016. Geralmente, a meta nesse caso seria um amplo entendimento do que aconteceu e impedir que possa acontecer de novo. Mas Comey acrescentou que como parte da investigação, agentes estão perguntando se a campanha de Trump agiu em conluio com a Rússia. Isso abre a possibilidade de indiciamento criminal.

Quanto tempo levará essa investigação?

Os casos de contrainteligência estão entre as investigações mais difíceis e demoradas realizadas pelo FBI. Não é incomum uma investigação levar anos. Os obstáculos costumam ser enormes, incluindo o fato de os Estados Unidos não poderem conduzir abertamente coleta de inteligência em países estrangeiros. Na audiência, Comey pareceu reconhecer isso. "A investigação teve início no final de julho, de modo que para uma investigação de contrainteligência, isso é um período razoavelmente curto", ele disse.

Compare isso à última investigação de segurança nacional de destaque, com grande peso político, realizada pelo FBI: a das contas particulares de e-mail de Hillary Clinton. A essa altura naquela investigação (já tinham se passado oito meses) os agentes do FBI estavam confiantes de que tinham um amplo entendimento das evidências e podiam prever que a investigação estava próxima da conclusão. Esse não é o caso aqui.

O FBI não investigaria assessores de Trump sem evidência de conduta ilegal, não é?

Sim e não. O FBI tem autoridade para investigar crimes, mas o mero fato de os agentes estarem investigando assessores de Trump não significa que podem provar uma conduta ilegal. De fato, as autoridades americanas disseram não haver provas de conluio entre a Rússia e a campanha de Trump. Mesmo assim, atuais e ex-autoridades disseram ter descoberto evidências de que associados de Trump estiveram em repetidos contatos com os russos. O FBI está investigando esses contatos.

Que tipo de medidas o FBI tomará durante sua investigação?

É difícil dizer, pois quase tudo o que os agentes de contrainteligência fazem é confidencial. Até mesmo seus métodos de investigação são considerados secretos demais para se tornarem de conhecimento público. O "New York Times" noticiou que parte das evidências descobertas até o momento veio da interceptação de conversas entre autoridades dentro do Kremlin, que discutiam seus encontros com associados de Trump. Os Estados Unidos, assim como outros países, também contam com uma rede mundial de informantes remunerados que fornecem informação sobre as atividades internas de governos estrangeiros. E o FBI tem acesso a um grande número de relatórios de outras agências de inteligência e aliados estrangeiros.

Trump disse que foi grampeado. Como isso se encaixa nisso tudo?

Na verdade, não se encaixa. Em uma enxurrada de tweets neste mês, Trump acusou o presidente Barack Obama de tê-lo grampeado na Trump Tower durante a campanha. Essa alegação já foi rejeitada por Obama e todos os cantos do governo federal. Comey e o diretor da Agência de Segurança Nacional, o almirante Michael S. Rogers, disseram de forma definitiva na segunda-feira que não há evidência de que tal grampo ocorreu.

Seja de forma deliberada ou não, as postagens de Trump no Twitter serviram para distrair a discussão sobre a interferência russa. Apesar das alegações terem sido amplamente rejeitadas até mesmo pelas próprias autoridades de segurança nacional de Trump, a Casa Branca continua insistindo nelas e acredita que será provado que o presidente está correto. Mas alguns membros dos comitês de inteligência da Câmara e do Senado de ambos os partidos indicaram que não existem evidências, e que se concentrarão nas questões da interferência russa na eleição.

E quanto aos pedidos dos legisladores republicanos para que FBI combata os vazamentos de segurança nacional? Comey se recusou a dizer se o birô está realizando qualquer investigação de vazamentos. Mas ele falou repetidas vezes sobre a gravidade de atos desse tipo, dando a impressão de que o FBI os investigará.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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