Escândalo sobre escola de direita no Japão envolve mulheres ligadas ao premiê

Motoko Rich

Em Tóquio (Japão)

  • Jeremie Souteyrat/The New York Times

    A primeira-dama do Japão, Akie Abe (centro), em um evento de arrecadação de recursos para a Asian University for Women, em Tóquio

    A primeira-dama do Japão, Akie Abe (centro), em um evento de arrecadação de recursos para a Asian University for Women, em Tóquio

O primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, dedicou uma parte significativa de sua agenda de governo a planos para dar mais poder às mulheres. Mas um escândalo sobre alegações de que um grupo de educação de direita recebeu favores políticos inadequados envolveu duas das mulheres mais proeminentes na vida de Abe: sua própria mulher, Akie Abe, e sua ministra da Defesa, Tomomi Inada.

O escândalo prejudicou a popularidade de Abe, e suas credenciais feministas foram especialmente atingidas.

Enquanto o escândalo começava a dominar as manchetes, no mês passado, Akie Abe renunciou à diretoria honorária de uma nova escola planejada pelo grupo de direita Moritomo Gakuen em Osaka. O grupo promove elementos patrióticos do Japão do currículo escolar anterior à guerra e comprou terrenos do governo por um preço com desconto.

Na semana passada, o líder do grupo disse que Akie Abe lhe deu um envelope com dinheiro dois anos atrás como doação do primeiro-ministro, afirmação que Shinzo Abe negou com veemência.

Inada, a segunda mulher ministra da Defesa do Japão, que Abe vem treinando para sucedê-lo, combate pedidos de sua renúncia depois que ela desmentiu uma declaração de que nunca representou o grupo escolar em um processo legal. Na verdade, ela depôs em um julgamento a favor dele em 2004. Ela disse que tinha esquecido inicialmente e pediu desculpas ao Parlamento.

Mulheres de perfil destacado costumam ser analisadas de perto no Japão, que se classifica no lugar mais baixo entre os países industrializados em representação feminina no Parlamento.

Mas a emergência de Akie Abe e de Inada como figuras chaves no escândalo escolar reforçou os críticos que há muito as retratavam como defensoras problemáticas dos direitos das mulheres.

O feminismo de Akie Abe "é muito raso", disse Jiro Yamaguchi, professor de ciência política na Universidade Hosei. Ele acrescentou que embora Akie Abe aparecesse ocasionalmente em campanhas pelas mulheres na agricultura ou inovação no equilíbrio entre vida e trabalho das mulheres, a primeira-dama não é considerada comprometida com uma mudança real e sistemática.

Akie Abe, que não respondeu a pedidos de comentários, apoiou causas femininas no Irã e é patronesse da Universidade Asiática para Mulheres, uma escola em Bangladesh cuja missão é fornecer educação superior a mulheres de origem pobre. Em seu livro de memórias, "Eu Vivo Minha Própria Vida", Akie Abe diz que apoiou os esforços de seu marido para criar uma sociedade em que "as mulheres podem brilhar" e que "as mulheres não precisam trabalhar exatamente como os homens".

A mídia noticiosa do Japão às vezes descreve Akie Abe como o "partido de oposição em casa" do primeiro-ministro, porque ela expressou opiniões mais progressistas sobre questões como os direitos LGBT e a energia nuclear, além de apoiar as causas feministas.

Mas a revelação de seus laços com o grupo escolar de direita minou essa reputação.

O grupo Moritomo Gakuen já opera um jardim de infância que exige que os alunos recitem a Prescrição Imperial sobre Educação, um decreto real do século 19 que diz que os súditos devem "ser sempre unidos em lealdade e piedade filial" e que "maridos e mulheres sejam harmoniosos". Seu líder, Yasunori Kagoike, foi acusado de preconceito contra chineses e coreanos.

Em resposta a perguntas a Akie Abe, o gabinete do primeiro-ministro se referiu a seus comentários no Parlamento na sexta-feira (17), quando ele defendeu sua mulher, dizendo que ela nunca deu dinheiro ao grupo escolar e que nenhum deles se envolveu na venda de terrenos públicos à escola proposta.

O grupo decidiu não construir a escola e recebeu ordem de devolver o terreno ao governo. Kagoike deverá depor no Parlamento nesta quinta-feira (23).

As mulheres que querem ver maior representação feminina em cargos de poder dizem que estão ainda mais decepcionadas com Inada.

"Inada é antifeminista", disse Mari Miura, uma professora de ciência política na Universidade de Sophia, apontando a afiliação da ministra da Defesa a um grupo ativista ultraconservador que acredita que as mulheres devem ficar em casa. Ela acrescentou que Inada resistiu a pedidos para promover leis que permitiriam que mulheres casadas usassem sobrenome diferente do de seus maridos, uma causa importante para as feministas japonesas.

Miura disse que Shinzo Abe escolheu Inada porque ela compartilha sua opinião revisionista de que o Japão foi acusado injustamente de atrocidades na Segunda Guerra Mundial. "As mulheres escolhidas por ele são apenas simbólicas, ou uma maneira cosmética de demonstrar o progresso das mulheres", disse Miura. "E isso não empodera as mulheres nem um pouco."

Inada foi uma das três mulheres que assumiram cargos de liderança política no Japão no último verão, mas desde o momento em que ela foi nomeada os críticos questionaram suas qualificações.

Mesmo em seu partido, o Liberal Democrata, alguns legisladores perguntaram por que uma advogada que nunca foi vice-ministra da Defesa ou das Relações Exteriores foi escolhida para um cargo tão importante, especialmente enquanto as tensões na região aumentam, com a Coreia do Norte desenvolvendo mísseis nucleares e a China mantendo reivindicações territoriais.

As perguntas sobre a competência de Inada se intensificaram depois de revelações de que a Força de Autodefesa em Terra, o Exército japonês, ocultou relatórios sobre as atividades de manutenção da paz no Sudão do Sul.

Embora Inada e Shinzo Abe tenham pintado a operação como segura, os relatórios, que surgiram na mídia japonesa no mês passado, descreveram vários incidentes de "combate" entre facções em guerra no Sudão do Sul. A lei proíbe que tropas japonesas participem de missões que envolvem conflitos ativos.

Em uma declaração enviada por fax, Inada disse que não vê o líder do grupo Moritomo Gakuen há dez anos. E disse que ordenou uma investigação especial dos relatórios do Sudão do Sul. Se surgirem problemas, escreveu ela, "tentarei melhorá-los sob a responsabilidade do ministro da Defesa".

Mas analistas dizem que se oficiais do Exército ou burocratas esconderam os relatórios dela isso demonstra sua falta de poder no ministério.

"É difícil ver como ela vai ganhar alguma autoridade ou confiança do público, quanto mais das pessoas sobre as quais tem autoridade", disse Jeffrey Hornung, um bolsista no Programa de Segurança e Relações Exteriores na Fundação Sasakawa para a Paz EUA, um instituto de pesquisa sediado em Washington.

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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