Por que relaxar, para Trump, não é tarefa pequena ou simples

Glenn Thrush e Maggie Haberman

Em Washington (EUA)

  • Kevin Lamarque/ Reuters

O presidente Donald Trump é um homem seriamente suscetível a se emaranhar nas redes da obsessão. Nas últimas três semanas, nenhuma compulsão consumiu tanto sua psique, e sua conta no Twitter, quanto a ideia profundamente acalentada, mas de fontes rasas, de que o presidente Barack Obama grampeou seus telefones.

Por que ele simplesmente não consegue relaxar?

Primeiro porque Trump, que costuma dizer em público "Eu sou uma pessoa do tipo realmente inteligente", é dirigido, segundo assessores, pela necessidade de provar sua legitimidade como presidente aos muitos críticos que o consideram um vencedor indigno, eternamente diminuído pelos 3 milhões de votos populares a mais dados a Hillary Clinton.

"A investigação da Rússia está sendo usada por seus adversários políticos para deslegitimar toda a sua Presidência e deslegitimar sua agenda", disse Sam Nunberg, um antigo assessor de Trump que continua próximo dos assessores da Ala Oeste. "Ele revidará, e faz isso melhor que ninguém na Casa Branca, inclusive todos os caras do Comitê Nacional Republicano que ele contratou para defendê-lo."

Segundo, revidar --nesse caso, contra Obama, o diretor do FBI e membros de seu próprio partido que dizem que sua denúncia de grampos telefônicos é falsa-- é uma parte importante da autoimagem do presidente. Os dois modelos mais influentes da juventude de Trump foram homens que pregavam as filosofias gêmeas da incansável autopromoção e da guerra total contra qualquer pessoa percebida como ameaça.

Segundo um antigo assessor, Trump toca constantemente em sua cabeça uma trilha sonora que consiste em conselhos de seu pai, Fred, um empreiteiro esforçado que depositou o peso do sucesso da família nos ombros do filho. O outro mentor de Trump foi um cáustico e trapaceiro advogado da era McCarthy, Roy Cohn, que aconselhou Trump a nunca desistir ou admitir um erro.

A fixação de Trump em Obama e na investigação do FBI sobre a influência russa na eleição de 2016 ecoa seus atos em Nova York décadas atrás, quando ele se envolveu em duras batalhas pessoais com o prefeito Edward Koch e os vereadores de Atlantic City, em Nova Jersey. As batalhas com frequência prejudicaram os negócios imobiliários e os cassinos de Trump, segundo Tim O'Brien, autor de "TrumpNation", uma biografia de 2005 que documentou seus primeiros anos.

"Não acho que haja algo de novo em seu comportamento", disse O'Brien, hoje editor-executivo da Bloomberg View. "Ele tem feito esse tipo de coisa nos últimos 45 anos."

"Ele é profundamente inseguro sobre como é visto no mundo, sobre se é ou não competente e se merece o que tem", acrescentou. "Há uma sede insaciável de validação e amor. É por isso que ele não consegue ficar quieto, mesmo quando seria estratégica ou emocionalmente aconselhável conter-se."

Durante a campanha de 2016, Trump se fixou em praticamente todos os detalhes, especialmente na mídia noticiosa, e expulsou repórteres que o criticaram em seus comícios. Um dia depois de tomar posse como 45º presidente, ele acordou furioso porque os sites da web estavam publicando fotos lado a lado que mostravam a multidão em sua posse consideravelmente menor que na de Obama, em 2009.

Ele instruiu seu secretário de imprensa, Sean Spicer, para convocar a imprensa na Casa Branca para uma bronca sobre reportagens "tendenciosas" sobre o tamanho da multidão, o que deliciou o novo presidente, mas chocou quase todo mundo como uma reação exagerada e bizarra.

A hoje infame mensagem de Trump no Twitter em 4 de março representou uma declaração no tom de Queens, Nova York, de que ele não seria vítima de ninguém. "Como o presidente Obama foi baixo ao grampear meus telefones durante o sagrado processo eleitoral", escreveu Trump em um dos muitos rompantes naquela manhã. "Isto é Nixon/Watergate. Sujeito ruim (ou doente)!"

Dureza, mais que qualquer outro atributo, foi o que Trump tentou projetar durante sua curta e bem-sucedida carreira política --e ele acredita que seu comportamento o faz parecer mais duro, não importa o que pense a imprensa.

Como candidato presidencial, ele queria parecer severo, e vetou qualquer imagem de campanha que sugerisse fraqueza, segundo assessores. É por isso que toda foto escolhida por ele --até o olhar tenso e espremido em sua conta no Twitter-- representa um sujeito sério e preocupado. "Parecido com Churchill", é o que Trump dizia aos assessores quando perguntado sobre que visual buscava.

Terceiro, a distração é um motivo importante. Trump conseguiu mudar de assunto atacando Obama e propondo teorias sem fundamento.

Na época de sua tempestade no Twitter, no início de março, ele tentava desviar a atenção de um novo embaraço: o secretário de Justiça, Jeff Sessions, tinha deixado de revelar, durante as audiências de confirmação no Senado, que teve contatos com o embaixador da Rússia nos EUA.

"Em cada tuíte cáustico e sem revisão ele praticamente apaga uma história que seu governo quer contar", disse David Axelrod, um dos principais assessores de Obama. "Ele reage a cada afronta, real ou imaginária, à moda pavloviana. Ele espanca até a morte qualquer ameaça percebida e, mesmo quando ganha o ponto, continua batendo."

Finalmente, Trump não relaxou porque ninguém consegue detê-lo.

Na Casa Branca, assessores descrevem uma capacidade quase paralítica de dizer a Trump que ele errou ou foi longe demais no Twitter.

No dia em que Trump disparou sua mensagem sobre Obama grampear seus telefones, seu chefe de gabinete, Reince Priebus --inicialmente considerado por alguns no establishment republicano a melhor defesa contra o comportamento autoimolador de Trump--, disse que a Casa Branca estava convencida de que havia algo ali.

O problema é que os dois assessores com poder suficiente para tentar mudar o comportamento do presidente são geralmente contrários a isso. Seu principal estrategista, Stephen Bannon, também ele um atirador de bombas retóricas, aconselhou Trump a moderar seu comportamento no final da campanha --mas continua sendo o assessor da Ala Oeste que mais compartilha as opiniões do presidente sobre vigilância.

Uma das poucas pessoas que Trump considera um par é seu principal assessor econômico, Gary Cohn, mas ele prefere gastar seu capital em questões econômicas e mudança climática.

Em uma recente reunião no Salão Oval, Cohn falava quando Trump o interrompeu. "Deixe-me terminar", retrucou Cohn, segundo uma pessoa inteirada sobre o diálogo.

Trump, desacostumado a ceder terreno, deixou-o terminar sua fala.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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