Como um sonolento subúrbio alemão explica a ascensão da extrema-direita na Europa

Amanda Taub

Em Buch (Alemanha)

  • Gordon Welters/The New York Times

Uma pequena comunidade nos arredores de Berlim, Buch parece à primeira vista o tipo de lugar em que Cachinhos Dourados diria "simplesmente certo". Não é muito rico nem muito pobre, nem caro demais nem feio demais, nem tão perto do centro da cidade mas nem tão longe que coloque suas ruas bordejadas de árvores ou seus apartamentos ordenados além de um trajeto razoável no transporte público.

Provavelmente não é o tipo de lugar que as pessoas imaginam quando pensam na onda de populismo de extrema-direita que invade a Europa. Abaixo da superfície, entretanto, o bairro simpático e seguro é totalmente diferente das zonas pós-industriais deprimidas que geralmente são retratadas como a fonte original populista, e é emblemático das forças que ameaçam derrubar a política ocidental a que estamos habituados.

Nesse aparente enclave de vida normal, o partido populista de extrema-direita Alternativa para a Alemanha recebeu mais de 22% dos votos na eleição local de 2016 --mais que qualquer outro partido.

Fui até Buch para entender melhor como o populismo de direita se enraizou em grande parte da Europa. Encontrei sinais de forças sutis que, segundo antigas teorias das ciências sociais, poderiam estar conduzindo o surto populista nas sociedades ocidentais.

"Tomem cuidado"

As ruas estavam cobertas por vários centímetros de neve no dia em que visitei a cidade, em janeiro, dando um tom pitoresco à área comercial com prédios de tijolos no centro de Buch. Uma lanchonete brilhava de modo convidativo, sua placa anunciando hambúrguer e saladas, assim como pratos árabes: falafel e doner kebab.

Mahmoud Ceylan, cujo primo é dono do restaurante, estava atrás do balcão. Os partidos de extrema-direita às vezes acusam os imigrantes turcos como ele de serem incapazes de se assimilar à sociedade alemã. Indagado se havia sofrido algum tipo de assédio, ele resmungou.

Acontece o tempo todo, disse. As pessoas lhe dizem coisas no trem e na rua.

"As pessoas olham para você e não sabem se você está aqui há quase 25 anos", explicou. "Não sabem que você trabalha."

Perguntado sobre a Alternativa para a Alemanha, porém, ele encolheu os ombros. Apesar de a ascensão do partido ter chocado grande parte da Europa, para Mahmoud é a mesma Alemanha que ele conhecia.

Enquanto falávamos, um cliente de meia idade que estava conversando animadamente no balcão, Jakob Raff, ficou em silêncio. Ele se inclinou e deu um conselho: "Há radicais de direita aqui", disse. "Você deve tomar cuidado ao fazer essas perguntas."

O efeito halo

Na superfície, Buch parece ser uma fonte improvável de ódio contra os imigrantes.

Primeiro porque há poucos imigrantes aqui. Enquanto muitas áreas de Berlim são extremamente diversificadas, cheias de refugiados e outros imigrantes do mundo todo, Buch continuou majoritariamente branca, apesar da presença de um pequeno centro de refugiados no centro.

Os cientistas sociais chamam isso de "efeito halo": um fenômeno, repetido por toda a Europa, em que as pessoas têm maior probabilidade de votar em políticos de extrema-direita quando vivem perto de áreas diversificadas, mas não realmente dentro delas.

Jens Rydgren e Patrick Ruth, sociólogos na Universidade de Estocolmo, escreveram em 2011 que as pessoas nessas comunidades podem estar perto o suficiente de imigrantes para se sentirem ameaçadas, mas longe demais para terem interações regulares e amistosas que afastariam seus temores.

Eric Kaufmann, um cientista político no Birkbeck College em Londres, concluiu que o aumento da diversidade pode empurrar o "halo" para fora. O leste de Londres foi um centro de atividade de extrema-direita nos anos 1970, mas conforme os bairros de lá se diversificaram o apoio à extrema-direita caiu. No entanto, cresceu nos subúrbios mais brancos além deles.
Buch parece se enquadrar nesse padrão. Apesar da chegada de alguns refugiados, há tão poucos muçulmanos que o supermercado nem sequer oferece comida halal [de acordo com a lei religiosa islâmica]. Mas ele fica em um distrito vizinho a Wedding, uma das partes mais diversificadas de Berlim.

Os moradores brancos de Buch, segundo essa teoria, não são temerosos porque sua vida ou seu emprego foram abalados pela migração, mas porque veem isso acontecer em áreas como Wedding e temem ser os próximos.

Identidade negativa

Do outro lado da cidade, seguindo uma rua cercada por prédios de apartamentos da era comunista, cheguei à igreja onde Cornelia Reuter e seu marido, Hagen Kuehne, vivem e trabalham como pastores.

Reuter disse que alguns de seus paroquianos estão preocupados que mais refugiados sejam enviados a Buch.

Ela e seu marido atribuíram esse medo, em parte, a um problema mais profundo: muitos em sua comunidade, segundo disseram, anseiam por um sentido mais definido de identidade e pertencimento, mas têm dificuldade para encontrá-lo.

Depois da Segunda Guerra Mundial, comemorar ou mesmo definir a identidade alemã tornou-se um tabu, muitas vezes considerado um passo em direção ao nacionalismo que permitiu a ascensão dos nazistas. A atitude mudou um pouco com a Copa do Mundo de 2006, quando os anfitriões alemães hastearam sua bandeira sem temor e comemoraram o orgulho nacional.

Mas ainda há um grande espaço que deixa as pessoas com um "vazio interior", disse Reuter. Essa lacuna de autodefinição as deixou sem um modo de expressar sua identidade, exceto pelo que elas não são, o que às vezes é chamado de "identidade negativa".

"Você pode dizer 'não sou muçulmano', mas a maioria das pessoas não pode dizer 'eu sou cristão'", ou articular de alguma maneira uma identidade positiva, explicou ela. "Existe um vazio. E eu acho que é em toda a sociedade. Não é apenas um grupo. É um problema muito amplo."

Tomando o controle

O tabu de identidade na Alemanha não é novo. Mas fatos recentes podem ter tornado o sentimento mais doloroso.

Immo Fritsche, um cientista político na Universidade de Leipzig, descobriu que quando as pessoas sentem que perderam o controle elas buscam uma identidade forte que as faça sentir-se parte de um grupo poderoso.

Identificar-se com algo poderoso e capaz de provocar mudanças, como um país forte, torna-se muito atraente, segundo ele.

Reuter disse que muitas pessoas em Buch sentem que perderam o controle. A crise dos refugiados foi percebida como um sinal de que as fronteiras da Alemanha se tornaram território sem lei. E a presença do centro de refugiados local, embora abrigue apenas algumas centenas de pessoas, trouxe uma sensação de maior urgência.

Muitos de seus paroquianos idosos, disse ela, dizem que não podem acreditar no que os jovens têm de enfrentar. "E são pessoas que cresceram durante a Segunda Guerra Mundial! Que foram bombardeadas e experimentaram a guerra!"

Mas elas se sentem felizes por terem experimentado uma espécie de agência e identidade que foi negada aos jovens de hoje, segundo Reuter.

"'Pelo menos naquela época eu podia fazer alguma coisa'", ela contou que eles disseram. "'Pelo menos naquela altura eu fazia parte disso.'"

Essa situação deixou uma porta aberta para a Alternativa para a Alemanha (AfD na sigla original), que promete restaurar o patriotismo alemão. Segundo Reuter, políticos de extrema-direita como Bjorn Hoecke, da AfD, sabem explorar esse tabu de identidade. "Pessoas como Hoecke estão forçando contra isso", disse ela. "Ele sabe colocar suas palavras no lugar certo."

Em uma entrevista, Hoecke disse-me acreditar que a identidade é "a questão principal" para a Alemanha hoje.

Minutos depois, ele disse a uma plateia de centenas de apoiadores que os alemães são "o único povo no mundo que implantou um monumento à vergonha no centro de sua capital", referindo-se ao memorial aos judeus assassinados no Holocausto.

"A Alemanha precisa de uma relação positiva com nossa identidade", disse-me ele, "porque na base da capacidade de avançar está a identidade. A fundação de nossa unidade é a identidade."

Conforto no contato

Quando você se aproxima do centro de refugiados em Buch, os sinais da hostilidade contra os imigrantes ficam mais evidentes. Cartazes da AfD, rasgados e espalhados pela rua, mostram homens morenos sorridentes, segurando punhados de euros.

Também aumenta o clima de perigo. Um dos prédios do centro de refugiados está marcado com sinais de um recente ataque incendiário.

Juliane Willuhn, a diretora do centro, disse que o crime não foi solucionado. Ninguém se feriu no incêndio, mas o ataque parecia destinado a causar medo: os investigadores concluíram que o fogo foi ateado intencionalmente, em uma sala que continha carrinhos de bebê. Nada restou deles além de cinzas e algumas rodas calcinadas.

Mas vários moradores de Buch que moram perto do centro manifestaram otimismo sobre seus vizinhos refugiados. Eles citaram o lado reverso de teorias como a do efeito halo: o contato com pessoas diferentes diminui os temores que podem provocar reações populistas.

Martin Orthman caminhava com seu cachorro, Sunny, no parque perto do centro de refugiados. Orthman disse que desenvolveu uma opinião positiva sobre os refugiados depois que se tornou guarda de segurança em um centro de refugiados numa cidade vizinha.

Do outro lado da rua, Elena Salow, que vive a poucas quadras do centro de refugiados, ia para casa com sua filha, ainda criança. Ela disse que não tinha "sentimentos diretos" sobre o asilo ou a AfD, mas que teve boas experiências com os refugiados.

"Às vezes nos encontramos no playground e as crianças brincam juntas", disse Salow.

Essas entrevistas apontaram para algo chamado teoria do contato intergrupos. Segundo estudos, quando as pessoas têm contato direto com membros de um determinado grupo étnico ou nacional, elas tendem a se tornar mais tolerantes sobre o grupo como um todo.

Isso sugere que o contato regular com imigrantes reduz o apoio a partidos populistas de extrema-direita, ao remover a sensação de medo que os alimenta.

Caso seja verdade, isso sugere que a influência da AfD em Buch pode ser mais fraca do que indica seu recente sucesso eleitoral. Mas esse tipo de contato demora para fazer efeito, enquanto o partido já desfrutou de uma ascensão meteórica.

O apoio à extrema-direita poderá eventualmente diminuir. Enquanto isso, porém, deixará os migrantes na Alemanha, e a política europeia, sob uma tremenda tensão.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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