De perfil 'não político', nova prefeita enfrenta os mesmos velhos problemas em Roma

Gaia Pianigiani

Em Roma (Itália)

  • Nadia Shira Cohen/The New York Times

Não foram nove meses fáceis para Virginia Raggi desde sua eleição como primeira prefeita de Roma, com a promessa de limpar a prefeitura e dar início a uma governança transparente. 

Um de seus principais assessores está na cadeia por acusações de corrupção. Outro está sob investigação por acusações de abuso de poder. Fotos dela se retirando para o telhado da Prefeitura para poder ter uma conversa privada foram publicadas em todos os jornais. Os promotores a interrogaram por oito horas para esclarecer sua relação com os dois assessores, provocando críticas de que ela é incapaz de escolher colaboradores honestos. 

Tudo isso fora a atual condição da cidade, onde as ruas ainda estão em más condições, o transporte público é lento e a coleta de lixo parece ocorrer com muito menos frequência do que a conversa sobre os mais recentes problemas de Raggi. 

Raggi deveria ser o principal exemplo do Movimento Cinco Estrelas anti-establishment de como um político não profissional poderia sacudir a política italiana. Em vez disso, os oponentes do movimento agora apontam para a administração de Raggi como prova de que o partido está mais capacitado a destruir um governo do que administrá-lo, e que a nova geração de políticos da Itália não é melhor que a antiga, não menos manchada pela corrupção, não menos ineficaz e não menos impopular. 

Em uma entrevista em uma sala com afrescos no palácio do Capitólio, Raggi, 38 anos, defendeu seus primeiros meses no cargo escolhendo uma metáfora, talvez infeliz, com a qual até mesmo seus críticos concordariam. Sua administração cavou um buraco, ela disse. Mas um bom buraco. 

"É como a construção de uma casa", ela explicou. "Antes que as paredes possam ser levantadas, é preciso cavar um buraco para fazer as fundações." Agora seu Gabinete está na fase de construção, ela disse. 

Os oponentes há muito pintam um retrato frágil de Raggi como refém de sua própria inexperiência (ela era uma advogada que começou a trabalhar na Prefeitura apenas em 2013) e das brigas e divisões dentro do Movimento Cinco Estrelas. O cofundador do partido, o humorista Beppe Grillo, está intervindo repetidamente em apoio a ela. 

Neste mês, uma pesquisa publicada no jornal "La Repubblica" apontou que 70% dos romanos desaprovam a administração de Raggi, assim como 40% daqueles que votaram nela. 

Mesmo com a ascensão do Movimento Cinco Estrelas, "a diferença entre certas atitudes e os velhos partidos políticos é pequena", disse Claudio Cerasa, editor do jornal italiano "Il Foglio". 

Mas não é assim em todas as cidades administradas pelo Movimento Cinco Estrelas. No norte, na bem administrada cidade de Turim, onde outra candidata do Movimento Cinco Estrelas, Chiara Appendino, 32 anos, também foi eleita no ano passado, as coisas estão transcorrendo mais serenamente. 

Mas esta é Roma. É uma medida da situação ruim em que a cidade se encontrava há anos o fato de Raggi e seus apoiadores argumentarem que sua administração ainda assim é melhor do que a de qualquer outro partido antes dela. Ela simplesmente conta com uma mão de cartas impossível, eles dizem. 

"Atualmente na Itália, a revolta vem antes de qualquer esperança de mudança", disse Marco Damilano, um comentarista político e vice-editor da revista "L'Espresso". "Não se trata do capital de confiança ter dissipado, mas sim da desconfiança permanecer intacta, especialmente em Roma." 

Ninguém, crítico ou apoiador, diria que administrar Roma é fácil. O tamanho da malversação na cidade foi amplamente exposto em 2014 pelo que passou a ser conhecida como investigação Máfia Capital, que mostrou a corrupção e licitações fraudadas em uma série de serviços municipais, incluindo abrigos para refugiados, saneamento e conjuntos habitacionais. 

"Estamos cozinhando com os ingredientes que temos", disse Raggi, referindo-se aos administradores da cidade, muitos dos quais estão trabalhando arduamente, ela foi rápida em acrescentar. 

"A máquina administrativa de Roma está emperrada ou funcionava segundo uma lógica falha conhecida de todos", disse Raggi, explicando que sua equipe está tentando, quase a partir do zero, restaurar um sistema baseado na lei para licitações públicas e outros serviços municipais. "Legalidade necessita de tempo." 

Raggi conquistou 67% dos votos no ano passado, obtendo apoio por todo o espectro político. Mesmo agora que ela está no poder, seu outrora movimento de protesto permanece difícil de categorizar. Nem Raggi e nem seu partido se encaixam nas categorias tradicionais esquerda-direita, um fato que provoca tanto críticas quanto confusão. 

Em particular, dizem os analistas, Raggi mostrou a inclinação persistente de seu partido por protestar, por explorar a revolta popular e paparicar eleitorados chave, sejam da direita ou esquerda. 

"De certo modo, o Movimento Cinco Estrelas é um imenso sindicato daqueles que foram excluídos", disse Damilano, o comentarista político. "É a retórica desses excluídos, misturada com ideologias esquerdistas e direitistas." 

Maurizio Martelli, 72 anos, que fez campanha por Raggi no 5º Distrito Municipal no nordeste de Roma, diz estar convencido de que a prefeita não poderia fazer muito melhor com a situação que herdou. 

"Está vendo aqueles arquivos?" perguntou Martelli, apontando para dezenas de pastas coloridas espalhadas, metade no chão e metade em uma mesa, em uma sala no segundo andar de um prédio municipal em uma manhã recente. 

"Este pessoal nem mesmo sabe onde procurar por um documento, tamanha a bagunça deixada pelos antecessores", ele disse. 

Catello Conte, um inspetor de polícia aposentado de 92 anos que votou em Raggi, concordou, até certo ponto. "O problema é que esta cidade é pura anarquia", ele disse. 

Mas até ele reconheceu que há problemas pelos quais nem o passado e nem a imprensa podem ser responsabilizados, e que parte dos problemas de Raggi foram causados por ela própria. 

Recentemente, por exemplo, Raggi se juntou a um protesto de taxistas no centro de Roma contra o Uber e serviços de aluguel de carros, mesmo enquanto os manifestantes entravam em choque com a polícia e atiravam bombas. 

Após críticas de que era temerário a mais alta autoridade municipal parecer fomentar agitação, Raggi condenou a violência. 

Naquela tarde, Raggi visitou um teatro na região central de Roma que sua administração começou a restaurar. Ele seria privatizado e depois foi abandonado, mas após ser ocupado por atores e grupos de artistas, se transformou em um potente símbolo da esquerda. 

Ações como essas deixaram Raggi e o Movimento Cinco Estrelas abertos a críticas de que são mais aptos a protestos de rua do que ao poder. 

"Ela perdeu o juízo quando saiu para incitar os taxistas no outro dia, que em vez de protestarem pacificamente, incendiaram o centro?" perguntou Conte. "Como prefeita, ela representa toda a comunidade, como ela disse após ser eleita. Ela não é mais confiável, nem o movimento." 

Raggi rejeita as críticas e diz que se distanciou dos indivíduos que antes escolheu e que deixaram sua administração. 

Como outros líderes de movimentos populistas que se sentem incompreendidos em ambos os lados do Atlântico, ela culpa a mídia por sabotá-la com ataques indevidos. Segundo ela, em alguns meses a mídia de notícias italiana fala mais dela do que do primeiro-ministro. 

"Roma nunca será como Amsterdã, cheia de bicicletas, ou Paris, cheia de linhas de metrô", ela disse. "Mas pode melhorar e nós a melhoraremos. As pessoas precisam ser pacientes."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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