Em um reduto de classe trabalhadora, o desejo pela independência da Escócia

Katrin Bennhold

Em Paisley (Escócia)

  • Kieran Dodds/The New York Times

    13.mar.2017 - Ativistas do Partido Nacional Escocês colocam propaganda de referendo pela independência da Escócia, em Paisley

    13.mar.2017 - Ativistas do Partido Nacional Escocês colocam propaganda de referendo pela independência da Escócia, em Paisley

Entre uma igreja batista palaciana, a maior da Europa, e um mosteiro do século 12, há cinco brechós, quatro lojas de penhores e uma dúzia de lojas fechadas com tábuas de madeira tampando suas fachadas.

O McDonald's ainda está aberto, mas acabou de anunciar que também fechará. A uma distância média: uma chaminé do século 19 da qual nunca sai fumaça.

A rua principal de Paisley parece a de qualquer cidade pós-industrial em dificuldades ao sul da fronteira com a Inglaterra. Mas enquanto as cidades inglesas de classe trabalhadora como Sunderland e Stoke-on-Trent votaram pela saída da União Europeia, esta cidade escocesa, mais conhecida por dar à estampa Paisley (antes Cashmere) seu nome, votou pela permanência no bloco e pela saída do Reino Unido.

A campanha pela independência escocesa fracassou três anos atrás, apesar do apoio de comunidades de classe trabalhadora como Paisley. Mas nesta semana, a líder da Escócia, Nicola Sturgeon, disse que convocará um novo referendo. E após a decisão do Reino Unido de sair da União Europeia, a qual 62% dos escoceses se opuseram, muitos aqui parecem mais determinados do que nunca em colocar um fim à união de 310 anos com a Inglaterra.

"Não queremos mais ser governados por outro país, não queremos ser retirados da Europa", disse George McGrattan, 83 anos, um operário de fábrica aposentado. "É hora de a Escócia andar com seus próprios pés."

A linguagem da identidade e nação repercute aqui tanto quanto no restante do Reino Unido de classe trabalhadora, mas a conversa é totalmente diferente.

Enquanto a Inglaterra pende para a direita e o nacionalismo inglês tende a ser do tipo nostálgico, mesclado com retórica anti-imigrante, a Escócia se inclina para a esquerda e abraçou um nacionalismo de estilo cívico, acolhendo todos que desejam viver e trabalhar no país.

Há imigração suficiente em Paisley para apoiar uma seção polonesa na biblioteca pública e pelo menos uma mercearia polonesa. O gerente, Marcin Sutkowski, planeja votar pela independência escocesa, principalmente por temer por seu direito de permanecer no país após o Reino Unido deixar a União Europeia.

"Estamos apavorados com a Brexit", ele disse, referindo-se à saída da UE. "O povo escocês nos respeita."

Sutkowski, 28 anos, falou sobre os imigrantes poloneses na Inglaterra e de como o humor mudou desde a votação pela saída da União Europeia. Ofensas racistas se tornaram mais comuns. Os poloneses agora se veem com frequência acusados de roubar empregos e benefícios.

Em um pub local, um grupo de "colegas" (a forma como os moradores chamam a si mesmos) de meia-idade de Paisley atribuiu a culpa pela falta de empregos decentes e serviços públicos deficientes não aos imigrantes, mas a "Westminster", que significa o impopular governo conservador em Londres, e passou a meia hora seguinte discutindo opções de moeda para uma Escócia independente.

"O euro não tem remédio, veja a Grécia", ridicularizou um homem.

"Sim, mas não podemos manter a libra caso a Inglaterra esteja fora da Europa, não é?" respondeu seu amigo.

Kieran Dodds/The New York Times
Mercado polonês em Paisley


"A Escócia precisa de uma moeda própria", concluiu um terceiro, provocando uma conversa mais animada sobre quem deveria estar estampado nas notas.

William Wallace, o mais célebre combatente da liberdade da Escócia, que nasceu nos arredores de Paisley e foi enforcado, estripado e esquartejado pelo rei Eduardo 1º da Inglaterra, em 1305, é um claro favorito, seguido por Maria Stuart, decapitada pela rainha Elizabeth 1ª três séculos depois.

No segundo andar do Museu de Paisley, Dan Coughlan, o curador de têxteis, é mais cético a respeito da secessão. Folheando um livro de padrões do século 18, Coughlan contou a história de como Paisley se beneficiou com a união de 1707 com a Inglaterra, que deu a seus tecelões e moinhos de algodão acesso aos mercados, ideias e tecnologias estrangeiras, a tornando uma das cidades mais produtivas do Império Britânico.

"Paisley estava na fronteira da globalização antes do termo 'globalização' ser cunhado", disse Coughlan. Ele apoiou a independência em 2014. Mas agora que o Reino Unido está saindo da UE, ele não tem tanta certeza.

"Quem sabe se a União Europeia ainda existirá daqui alguns anos?" ele disse. "A Escócia pode se ver por conta própria, fora do Reino Unido e da Europa."

Ciente desses temores, a primeira-ministra Theresa May reiterou na quinta-feira sua intenção de reter a aprovação para realização de uma votação legalmente vinculante da secessão na Escócia até depois de o Reino Unido deixar a UE.

"A esta altura, todas as nossas energias devem se concentrar em nossas negociações com a União Europeia a respeito de nosso futuro relacionamento", disse May. "Falar sobre um referendo de independência tornará mais difícil para nós podermos fechar o acordo certo para a Escócia e o acordo certo para o Reino Unido."

Nesta semana, havia pouco sinal de que manobras desse tipo conteriam o movimento pró-independência. Em questão de minutos após Sturgeon convocar uma nova votação, os nacionalistas estavam colocando faixas nas cores nacionais azul e branco da Escócia.

May não é a primeira líder britânica a ficar alarmada com o que acontece ao norte da fronteira inglesa. Um primeiro-ministro do século 19, Benjamin Disraeli, já escreveu em um romance: "Mantenha seus olhos em Paisley". Um de seus personagens, um dono fictício de moinho de algodão, temia sobre a possibilidade dos trabalhadores iniciarem uma revolução.

A rebelião está tramada na história de Paisley como um fio vermelho, começando com Wallace.

Kieran Dodds/The New York Times
Lojas fechadas em rua central de Paisley


Os tecelões radicais sobre os quais Disreali alertava ainda são celebrados todo mês de julho no festival Sma' Shot, onde os moradores batem em um tambor e queimam uma imagem de um dono de fábrica (no ano passado, ele se parecia muito com Nigel Farage, o então líder do Partido da Independência do Reino Unido, pró-Brexit e anti-imigrante, que não conseguiu conquistar nenhuma cadeira na Escócia).

Quando Glasgow proibiu bandas punk nos anos 70, Paisley as acolheu. Dois anos atrás, a cidade elegeu Mhairi Black, uma inflamada jovem nacionalista de 20 anos que ainda nem tinha concluído suas provas universitárias, a tornando a mais jovem membro do Parlamento britânico em pelo menos 185 anos.

Isso também a transformou no rosto da revolta anti-establishment da Escócia, uma que colocou fim a décadas de governo do Partido Trabalhista e colocou os nacionalistas no comando.

"Paisley é meio que sinônimo de Escócia", disse Black, que reconheceu recentemente que considerou o Parlamento em Londres "deprimente" e que estava pensando em renunciar. "Havia falta de confiança, mas isso está mudando."

Paisley já foi uma das cidades mais ricas da Escócia, exportando xales tecidos de forma elaborada com o padrão que leva seu nome e que entraram na moda por meio da jovem rainha Vitória (e muito depois, pelos Beatles e por Jimi Hendrix, que conta com um mural próprio em Paisley). Também foi lar do império Coats de fabricação de linhas, que a certa altura produzia 90% dos fios de costura do mundo.

Monumentos à sua riqueza passada pontilham a cidade. Com apenas 76 mil habitantes, Paisley tem a maior densidade de prédios listados como tendo importância história e arquitetônica na Escócia, fora Edimburgo.

Eles incluem a igreja batista, um observatório vitoriano com domo, uma imponente prefeitura neoclássica e o mosteiro, o berço da Casa Real de Stewart. O pintor e dramaturgo John Byrne é natural de Paisley, assim como o ator Gerard Butler e o cantor Paolo Nutini, "a melhor voz desde Otis Redding", na opinião de um morador local.

Mas a meros cinco minutos de carro de distância fica Ferguslie Park, um notório conjunto habitacional, que figura no extremo inferior do Índice de Privação Múltipla escocês. A pobreza infantil é elevada e brigas com faca não são incomuns.

Anunciados no painel no centro comunitário: uma reunião da Narcóticos Anônimos e um café vespertino com a Chest, Heart and Stroke Scotland (uma entidade que combate doenças de coração, pulmão e acidentes vasculares).

Nos anos 60, as pessoas ainda tinham abundância de trabalho nos moinhos de algodão, em uma grande fábrica de tapetes e em uma fábrica da Chrysler, entre outros lugares. Mas desde o fechamento das fábricas, o trabalho com frequência não exige qualificação e é mal remunerado.

Uma mãe de dois contou sobre como trabalhava em três empregos de meio expediente e mesmo assim só contava com o equivalente a pouco mais de US$ 100 (cerca de R$ 313) por mês para gastar, após pagar o aluguel e a conta de luz.

Descendo a Gauze Street, passando pela Silk Street e subindo a Mill Street, Mark Macmillan mora em um antigo moinho de algodão que agora é um prédio de apartamentos. Líder da câmara municipal e membro do Partido Trabalhista em dificuldades, Macmillan renunciou antes das eleições locais em maio, que, se as pesquisas estiverem certas, também serão vencidas pelos nacionalistas escoceses.

Um marmorista que virou político, Macmillan não é fã do nacionalismo, nem mesmo do tipo "fofinho" escocês, ele diz. Ele cita Jeremy Corbyn, o líder trabalhista: "Não dá para comer uma bandeira".

Desde o último referendo, as receitas escocesas de petróleo e gás caíram acentuadamente, assim como o crescimento. Mas se o argumento econômico em prol da independência enfraqueceu, para muitos aqui o argumento político e emocional está mais forte.

George Adam, que representa Paisley no Parlamento escocês em Edimburgo, veste apenas gravatas com a estampa Paisley, ou as cores preto e branco do clube de futebol local.

Ele se juntou aos nacionalistas em 1987, em um momento em que Margaret Thatcher, a então primeira-ministra conservadora, deixou sua marca na Escócia com impostos regressivos e políticas anti-sindicais, apesar de poucos escoceses terem votado nela.

"A Escócia parecia um país diferente na época", ele lembrou. "Hoje, mais do que nunca."

Há uma coisa que Paisley tem em comum com Stoke-on-Trent e Sunderland: elas todas estão competindo para se tornar a Cidade da Cultura do Reino Unido em 2021. A designação pode reforçar o orgulho e confiança locais, dizem as autoridades. Mas até lá, a Escócia pode vir a ser um país independente.

Adam riu, acrescentando: "Poderíamos ser a primeira Cidade da Cultura de uma Escócia recém-independente".

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos