Forças de paz da ONU enfrentam mudanças com ameaça dos EUA de cortar fundos

Somini Sengupta

  • Ariana Cubillos/AP

    26.mar.2006 - Soldados uruguaios da força de paz da ONU no Haiti marcham durante cerimônia em base em Forte-Liberte

    26.mar.2006 - Soldados uruguaios da força de paz da ONU no Haiti marcham durante cerimônia em base em Forte-Liberte

Eles são a face ubíqua do sistema das Organização das Nações Unidas: as forças de paz com capacetes azuis espalhadas pelas zonas de guerra do mundo.

Mas com a ameaça do governo Trump de cortar fundos para a ONU e repensar a própria utilidade das forças de paz, os capacetes azuis estão enfrentando uma reforma significativa, que poderia afetar as vidas de civis e, no final, a reputação da organização.

A embaixadora americana na ONU, Nikki R. Haley, prometeu realizar uma análise das forças de paz missão por missão, como parte de sua abordagem de endurecimento na diplomacia internacional. Enquanto isso, o secretário-geral da ONU, António Guterres, está lutando para reduzir as operações, em um esforço de impedir que os Estados Unidos cada vez mais isolacionistas eviscerem totalmente a organização.

Haley deseja que seus pares do Conselho de Segurança debatam no início do mês que vem se as forças de paz ainda são "aptas para seu propósito", segundo uma nota de seu gabinete aos demais membros do Conselho.

A nota, vista pelo "New York Times", coloca questões existenciais que estão provocando preocupações entre as potências mundiais, como a França, que defendem operações robustas de forças de paz. "Os membros do Conselho são encorajados a rever as missões e identificar as áreas onde os mandatos não mais atendem às realidades políticas", ela diz.

As forças de paz são o empreendimento mais caro da organização, mas ainda assim relativamente baratas para os Estados Unidos. Custa US$ 7,87 bilhões para financiar 16 missões de força de paz em todo o mundo, de Chipre a Mali até uma minúscula missão de observação na Caxemira. Os contribuintes americanos pagam cerca de 28% desse orçamento, ou cerca de US$ 2,2 bilhões, o equivalente ao custo de dois bombardeiros B-2. (A Força Aérea americana tem 20.)

Em 2015, os Estados Unidos eram o país com mais contratos públicos para o sistema de forças de paz da ONU, com US$ 1,6 bilhão em bens e serviços.

Entre os quase 92 mil membros uniformizados, há menos de 70 soldados e policiais americanos. O maior número vem da Etiópia, Índia e Paquistão, e diplomatas da ONU dizem que alguns países que contribuem com tropas, que no final têm um incentivo financeiro para manter o status quo, reagirão se sentirem que Guterres está recuando visando agradar o governo Trump.

O esforço para reformar as forças de paz representa a primeira incursão de Haley nas mudanças que ela diz desejar na ONU. Sua primeira batalha, que se desenrolará nos próximos dias, é sobre como lidar com a maior missão da ONU: as 18.700 tropas e policiais na República Democrática do Congo.

Haley está pressionando para uma rápida redução da missão. A França alerta contra a realização de cortes profundos agora, com a aproximação das eleições no Congo no fim do ano e civis ainda sujeitos a assassinatos e estupros. Encerrar a missão agora, disse nesta semana o embaixador francês na ONU, François Delattre, representaria "brincar com fogo".

Delattre disse ser a favor de tornar as operações mais eficientes, mas não em detrimento da proteção aos civis.

"Queremos reduzir as operações de forças de paz da ONU para que não possam mais reagir em caso de massacres ou quando terroristas ameaçam a existência de Estados frágeis e até nossa própria segurança?" ele disse.

"Ou queremos que as operações de força de paz da ONU sejam mais eficientes e do tamanho adequado, para que possam estabilizar os países e proteger os civis quando estes correm risco real? Para a França, só há uma opção."

A decisão dos Estados Unidos ocorre em um momento em que a China aumentou seu apoio às forças de paz, posicionando um batalhão de infantaria no Sudão do Sul, por exemplo, e prometendo formar uma força de prontidão de 8 mil tropas. E contrasta enormemente da abordagem do governo Obama: há dois anos, o presidente Barack Obama passou a contar com outros países para envio de suas tropas para missões de força de paz e, por sua vez, prometeu maior apoio logístico americano, incluindo capacidade aérea e marítima.

Para a ONU, o que está em jogo não é apenas dinheiro.

Por reconhecimento da própria organização mundial, as forças de paz nem sempre são eficazes na proteção de civis. Casos de abuso sexual mancharam a reputação da organização, assim como as forças da ONU são acusadas de ter levado cólera ao Haiti e contribuído pouco na ajuda aos haitianos. Mesmo assim, a redução das forças em zonas de conflito traz riscos enormes, pois paira a lembrança de Ruanda, onde um genocídio ocorreu após a retirada das forças de paz da ONU.

A nota preparada pelo gabinete de Haley faz perguntas fundamentais sobre o valor das operações de força de paz. Ela pergunta se é "aconselhável" enviar tropas a um país onde o governo não as deseja. Isso remete aos argumentos de soberania nacional que a China e a Rússia fazem com frequência visando minimizar o envolvimento da ONU nos assuntos de outros países.

Em caso de um colapso nas negociações políticas em um país em conflito, ela prossegue, por quanto tempo uma missão da ONU deve permanecer? Isso poderia se aplicar a uma missão como Darfur, a área devastada no oeste do Sudão onde as atrocidades contra civis continuam, com poucas chances de um acordo político entre o governo e os rebeldes locais.

E mesmo se as forças de paz "exercem um papel valioso de proteção", acrescenta a nota de Haley, por quanto tempo uma missão deve continuar? A missão que prossegue nas Colinas de Golã, por exemplo, foi estabelecida em 1974.

As missões de força de paz da ONU foram criadas originalmente para assegurar que as partes em guerra mantivessem uma paz negociada. Esse é cada vez menos o caso. Agora elas estão cada vez mais engajadas em zonas de conflito ativas e, e alguns lugares, como no norte de Mali, se veem presas de terroristas.

As forças de paz estão enfrentando uma crise de identidade nos últimos dois anos, com uma série de painéis de revisão emitindo uma variedade de recomendações sobre como reformá-las para a era moderna. Agora, a pressão por parte do governo Trump pode promover as mudanças mais radicais, incluindo, potencialmente, uma grande redução de seu orçamento.

Guterres, que assumiu a ONU em janeiro, se apresenta como sendo um secretário-geral reformista e a pressão do governo Trump pode lhe dar a força que precisa para promover cortes e reformas nas forças de paz.

José Ramos-Horta, o timorense ganhador do Prêmio Nobel da Paz que no ano passado liderou um painel de alto nível para melhorias nas forças de paz, reconheceu em um e-mail nesta semana que algumas operações precisam ser repensadas mais cuidadosamente. Algumas missões são grandes demais, ele disse, enquanto outras precisam de mais aviões para chegar aos territórios afetados mais rapidamente, enquanto outras precisam de uma estratégia política que justifique o envio das tropas.

"Números por si só não garantem eficiência e sucesso", ele disse.

As autoridades disseram já estar planejando a redução de várias missões: na Libéria, na Costa do Marfim e no Haiti, onde apenas poucas centenas de policiais deverão permanecer.

A missão em Darfur, com mais de 17 mil soldados e policiais, é um dos principais alvos de cortes. O governo em Cartum é acusado de atrocidades contra seu próprio povo nas áreas mantidas pelos rebeldes, e a ONU, que diz ser com frequência impedida pelo governo de circular livremente pelo país, está fazendo pouco para proteger essas pessoas.

E há o Sudão do Sul, onde a ONU alerta sobre riscos de genocídio e fome. Mais de 200 mil civis estão abrigados em bases da ONU no país.

Não está claro o que Haley tem em mente para o Sudão do Sul, exceto questionar, publicamente, como uma missão pode operar em um país onde o governo não deseja a presença das forças de paz.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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