Moradores de bairro lutam contra a gentrificação em Berlim

Charly Wilder

Em Berlim

  • Gordon Welters/The New York Times

    Cruzamento na região de Friedrichshain-Kreuzberg, em Berlim, onde os aluguéis estão subindo

    Cruzamento na região de Friedrichshain-Kreuzberg, em Berlim, onde os aluguéis estão subindo

Quando visitantes querem vivenciar a tão celebrada cultura "alternativa" desta cidade, muitas vezes eles vão até a Heinrichplatz, uma praça coberta de grafites no bairro de Kreuzberg que há décadas tem sido um centro de artes independentes, vida noturna alternativa e política radical.

Mas em uma tarde recente de sábado, os costumeiros grupinhos de turistas tirando selfies e clientes de cafés foram recebidos por centenas de manifestantes carregando cartazes escritos "Vamos todos ficar" ou "Diga não ao deslocamento", protestando contra os aumentos de aluguéis, os despejos forçados e uma especulação imobiliária desenfreada.

"Está havendo um deslocamento em massa, a ponto de muita gente não conseguir pagar o aluguel ou ter seus contratos de locação cancelados por qualquer trivialidade", disse Sara Walther, uma das organizadoras, enquanto apagava um cigarro enrolado à mão. "As pessoas finalmente estão começando a se defender".

Ao longo da última década, as pessoas chegaram aos montes em Berlim, atraídas por seu custo de vida relativamente baixo, por sua riqueza cultural e por seu espírito de liberdade. Mas agora a cidade está tentando regular o que em outros lugares se provou impossível de se deter: a gentrificação.

Pressionadas por um movimento popular crescente, autoridades da prefeitura implementaram diversas medidas, incluindo tetos de aluguel, uma proibição parcial sobre aluguéis de turismo, zonas livres de construções e maiores subsídios para moradia social. O objetivo é conter o obstinado mercado imobiliário e preservar o caráter social e cultural diversificado do centro da cidade.

"O problema da alta dos aluguéis e da falta de espaços de moradia é uma das mais importantes questões em Berlim", disse Petra Rohland, uma porta-voz para o Departamento de Desenvolvimento Urbano e Moradia da prefeitura.

Até pouco tempo atrás, esses problemas teriam sido impensáveis. Com a reunificação da Alemanha em 1990, essa cidade era repleta de prédios inabitáveis e grandes áreas de terras valiosas mas fora de uso junto à faixa onde ficava o Muro de Berlim.

Para incentivar o desenvolvimento, autoridades municipais venderam as terras e mais de 110 mil apartamentos de propriedade do governo para investidores estrangeiros, enquanto também financiava campanhas de renovação urbana.

Gordon Welters/The New York Times

Ao mesmo tempo, foi extinto um programa governamental que subsidiava alguns apartamentos, o que significa que enquanto Berlim se tornava um destino popular no final dos anos 2000, ela virou um terreno fértil para aumentos galopantes de aluguéis.

No ano passado, mais de 60 mil pessoas chegaram a Berlim, um ritmo similar ao de cidades muito maiores. Os preços dispararam em bairros da moda como Friedrichshain-Kreuzberg, onde os alugueis aumentaram mais de 80% na última década, de acordo com dados do Empirica Institute, que monitora preços de imóveis.

Mas as rendas em Berlim permaneceram relativamente baixas, com mais da metade da população tendo direito à moradia pública, o que significa que muitos residentes antigos e outras pessoas de baixa renda não estão mais conseguindo pagar os aluguéis.

"As pessoas viveram e trabalharam aqui por muito tempo, e mesmo que elas não estejam ganhando muito dinheiro, elas são parte da cidade", disse Malte Voss, uma videasta que faz parte de um coletivo de inquilinos que ocupa o Lausitzer 10-11, um complexo que abriga estúdios de artistas, oficinas e ONGs de esquerda. "Elas são a razão de Kreuzberg ser o que é."

No final do ano passado, o coletivo de inquilinos descobriu que o senhorio deles, a incorporadora Taekker, pretendia vender o prédio para investidores privados que planejavam convertê-lo em lofts de luxo.

Os inquilinos montaram uma equipe de publicidade e, com apoio informal da prefeitura, começaram as negociações com a Taekker.

"Há cada vez mais inquilinos se organizando", disse Wibke Werner, vice-diretor da Associação de Inquilinos de Berlim. "Não se via uma energia como essa desde o movimento de ocupações dos anos 1970 e 1980".

Hoje, as ruas de Kreuzberg estão tomadas por adesivos, folhetos e grafites manifestando apoio por essas coalizões de base. Um grupo, o Bizim Kiez, se uniu em 2015 em defesa de uma mercearia de uma família turca que estava sendo ameaçada de despejo.

O despejo por fim foi cancelado devido a uma forte pressão pública, mas no ano passado seu proprietário foi obrigado a abrir mão da loja, a Bizim Bakkal, devido a problemas de saúde que, segundo ele, haviam se originado da briga com o senhorio.

A frase "Bizim bleibt", ou "Bizim fica", se tornou um grito de guerra para um movimento mais amplo e deu origem à organização Bizim Kiez, que está lutando para manter a diversidade no bairro.

Depois de protestos dos inquilinos, a prefeitura também salvou pelo menos dois  prédios de apartamentos em Freidrichshain-Kreuzberg de serem vendidos, usando uma ferramenta jurídica conhecida como "direito de preferência", que permite que autoridades intervenham caso eles consigam encontrar financiamento para a compra.

Em outro caso, a prefeitura interveio recentemente e comprou uma grande estação de carga fora de uso no distrito de Kopenick, na zona leste, que ela pretende transformar em moradias acessíveis.

Mas assim como a regra do "direito de preferência", que depende de abundante financiamento do Estado, muitas das medidas anti-gentrificação têm suas limitações. O sistema do teto dos aluguéis, que proíbe que senhorios cobrem mais do que 10% acima da média do bairro para um novo contrato de locação, tem muitas exceções e brechas. Muitas vezes os senhorios simplesmente o ignoram.

Gordon Welters/The New York Times
Prédio que abriga artistas de tendência esquerdista e pequenos negócios na região de Friedrichshain-Kreuzberg, em Berlim

"As pessoas ficam felizes se encontram um apartamento na cidade pelo qual elas possam pagar", disse Werner, da associação de inquilinos. "Não é a primeira coisa que elas fazem, entrar em um conflito com seu senhorio."

Mais eficazes são as leis milieuschutz, traduzidas como "proteção ambiental social", que pretendem impedir que senhorios imponham renovações caras que na prática expulsariam os inquilinos atuais. Hoje existem mais de 30 zonas milieuschutz em Berlim, com uma expectativa de ampliação, embora as proteções não sejam rígidas.

Essas zonas impedem que os senhorios convertam apartamentos de locação em condomínios para proprietários, a menos que eles prometam vender somente para inquilinos atuais por um período de sete anos.

"Mas então é muito provável que o senhorio tente expulsar os inquilinos e vender os condomínios por muito dinheiro", disse Werner. "Achamos que a transição de apartamentos de locação para condomínios deveria ser totalmente proibida."

Em meio a tanta resistência popular, há preocupações de que toda essa nova regulação vá criar um fardo indevido sobre os proprietários de imóveis e afugentem investidores em potencial.

"Essas medidas levam a uma restrição significativa de investimentos imobiliários", disse Carsten Bruckner, presidente da associação de proprietários de imóveis alemães Haus & Grund. "Todos têm o direito de morar em qualquer lugar. O fato de que essa possibilidade também dependa do desempenho financeiro do indivíduo não deveria nos surpreender".

Ele disse ainda que os tetos para os aluguéis e as leis milieuschutz, combinados, tornam a modernização difícil, se não impossível, levando à "deterioração do portfólio imobiliário".

Contudo, também há preocupações de que o mercado imobiliário em alta não seja sustentável. Números divulgados recentemente pela Federação Imobiliária Alemã mostram que os preços de venda de imóveis residenciais em Berlim subiram 94% entre 2010 e 2016, enquanto os aluguéis subiram somente 40%.

Essa diferença parece estar se ampliando, segundo o relatório, "o que em geral desperta o temor de uma bolha imobiliária".

Johannes Novy, um proeminente urbanista alemão, disse que a acessibilidade de Berlim, o caráter social diversificado e o espírito de experimentação "são o que a tornaram atraente em primeiro lugar". A regulação recente e as organizações populares são passos positivos, ele disse, "mas muitas dessas medidas chegaram tarde demais, e a essa altura é muito difícil segurar a tendência".

Muitos dizem que o que está em jogo no debate atual é a própria alma da cidade.

"Em uma cidade tipicamente capitalista, a gentrificação e as expulsões pela queda do poder aquisitivo são normais", diz David Schuster, um dos organizadores da manifestação em Kreuzberg, que acabou atraindo mais de mil pessoas, muito mais que o esperado. "Mas não é isso que queremos".

Manuel Kony, um gerente de vendas de 28 anos que assistia à manifestação da calçada, diz que o objetivo deveria ser o equilíbrio. "Acho que você precisa encontrar um equilíbrio, onde as pessoas possam encontrar aluguéis razoáveis, mas a cidade ainda possa se desenvolver mais", ele diz.

"Do contrário, você acaba com uma espécie de situação de banlieue", ele acrescentou, referindo-se aos distritos periurbanos dominados pela criminalidade que colecionaram tantas manchetes na França. "Será que realmente queremos o que aconteceu em Paris?"

Tradutor: UOL

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