Antes na obscuridade, os neofascistas da Europa estão reemergindo

Rick Lyman

Em Cakajovce (Eslováquia)

  • Akos Stiller/The New York Times

    Robert Svec, líder do Movimento de Renascimento Eslovaco, segura retrato de líder fascista Josef Tizo, em Cakajovce, na Eslováquia

    Robert Svec, líder do Movimento de Renascimento Eslovaco, segura retrato de líder fascista Josef Tizo, em Cakajovce, na Eslováquia

Abaixando a cabeça em reverência, Robert Svec colocou um buquê de flores vermelho-sangue gentilmente aos pés da única estátua de que se tem conhecimento de Jozef Tiso, o líder fascista da Eslováquia nos tempos da guerra, em um parque cheio de ervas daninhas conhecido como o Panteão das Figuras Históricas Eslovacas.

Durante anos, a organização cultural neofascista eslovaca de Svec, o Movimento de Renascimento Eslovaco, foi um pequeno grupo secundário. Mas agora suas plateias estão crescendo, visto que recentemente 200 pessoas se reuniram com ele para celebrar o passado fascista do país e conclamar saudações da era fascista, como "Na Straz!" ou "Em guarda!".

 Svec está tão encorajado que está transformando seu movimento em um partido político, com planos de concorrer ao Parlamento.

"Você é nosso, e nós seremos seus para sempre", disse Svec ao pé da estátua, tendo declarado este o Ano de Jozef Tiso, dedicado a reabilitar a imagem do ex-padre e colaborador nazista, que foi enforcado como criminoso de guerra em 1947.

Antes na obscuridade, os neofascistas europeus estão voltando a se mostrar, mais de 45 anos depois que os nazistas pisaram na Europa Central, e duas décadas desde que um ressurgimento neonazista de skinheads e supremacistas brancos perturbou a transição para uma democracia.

Na Eslováquia, neofascistas estão conquistando cargos regionais e cadeiras no Parlamento multipartidário que eles esperam substituir com um governo autoritário.

Eles ainda estão à margem da política europeia, mas são mais um lembrete de como a política se tornou turbulenta. Assim como a ascensão de partidos da extrema-direita está forçando muitos políticos tradicionais a se voltarem mais para a direita, o clima populista também energizou os grupos de direita mais extremistas, aqueles que flertam com ou até mesmo adotam políticas fascistas da época da Segunda Guerra Mundial.

"Antes, os sentimentos pró-fascistas eram escondidos", disse Gabriel Sipos, diretor da Transparência Internacional Eslováquia. "Os pais diziam aos filhos, 'Você não pode dizer isso na escola'. Agora você pode dizer certas coisas no espaço público que antes não podia".

Akos Stiller/The New York Times
Evento realizado pelo Movimento de Renascimento Eslovaco Josef Tizo, de extrema-direita, em Cakajovce, na Eslováquia

Embora partidos nacionalistas tenham prosperado em toda a Europa nos últimos anos, somente alguns poucos —como o Aurora Dourada na Grécia e o Partido Nacional Democrático na Alemanha, para citar dois— adotam visões neofascistas. Alguns, como o Jobbik na Hungria, são extremistas em suas visões de extrema-direita mas não chegam a adotar um fascismo completo.

Na verdade o efeito mais amplo desses grupos foi medido em como eles levaram partidos tradicionais a uma direção mais firmemente nacionalista, especialmente quanto à imigração, para conter a deserção de eleitores.

"Agora os extremistas e os fascistas são parte do sistema", disse Grigorij Meseznikov, presidente do Institute for Public Affairs, um grupo de pesquisas progressista.

Na Eslováquia, o neofascismo estabeleceu uma espécie de posição vantajosa. Svec está entrando em um campo político onde um partido com um neofascista estabelecido, Marian Kotleba, demonstrou uma força surpreendente nas eleições parlamentares do ano passado, conquistando 14 cadeiras na câmara de 150 lugares.

Pesquisas pré-eleições mostravam que seu partido tinha menos de 3% das intenções de voto, mas seu resultado de 8% se construiu em um forte apoio de jovens e outros eleitores de primeira viagem. Pesquisas mais recentes mostram que o apoio a ele se aproxima dos 13%. Ele já havia surpreendido a Eslováquia em 2013 ao ser eleito governador de Banska Bystrica, uma das oito regiões da Eslováquia.

Kotleba, 39, que recentemente renomeou seu partido como Kotleba-Partido Popular Nossa Eslováquia, costumava aparecer de uniformes que lembram aqueles usados no Estado Eslovaco dos tempos de guerra. Uma vez que ele e seu partido entraram no Parlamento, os uniformes desapareceram e ele transferiu seus ataques contra judeus para os imigrantes e para a minoria cigana do país.

"Eles costumavam aparecer em paradas gay, dar demonstrações de força, provocar", disse Michal Havran, um apresentador de talk-show e comentarista político. "Agora eles não vão mais, estão preocupados com sua imagem."

Mas a mensagem subjacente de grupos como os de Kotlbea e de Svec não mudou: a Eslováquia estava melhor com um governo fascista.

"Algo muito sinistro e perturbador está voltando do passado", disse Havran. "Eles sentem que estão lutando por algo muito puro, algo muito antigo e sagrado. Alguns anos atrás, eles tinham vergonha de falar a respeito. Agora eles têm orgulho."

Akos Stiller/The New York Times
Rua em Banska Bystrica, Eslováquia

Em Banska Bystrica, os poderes de Kotleba como governador incluem a supervisão de escolas, instituições culturais e alguns projetos de infraestrutura.

"Se você for um homem branco e heterossexual, provavelmente não percebeu nenhuma diferença de se viver em um lugar onde Kotleba é governador", disse Rado Sloboda, 26, integrante de um grupo de ativistas de Banska Bystrica que se opõem a Kotleba através da bandeira "Não em Nossa Cidade".

"Se você faz parte de alguma minoria, como um cigano, você sente isso de forma mais intensa. Existe um sentimento de que eles são cada vez menos bem-vindos no centro da cidade."

O musculoso recepcionista do lado de fora do escritório de Kotleba disse este mês que não era a permitida a entrada de ninguém sem um horário marcado, embora o governador raramente conceda entrevistas. Quando lhe disse que havia feito várias ligações sem receber um retorno, ele perguntou o nome do jornal. "Ah", ele disse. "Isso explica o porquê."

O partido de Kotleba foi especialmente eficiente nas mídias sociais, com mais de 140 páginas do Facebook interconectadas. Quando um aposentado local, Jan Bencik, 68, começou a postar em seu blog para expor os neofascistas do país, seu nome apareceu em uma lista de "opositores do Estado".

"Eles me chamaram de judeu, disseram que eu devia morrer, morrer, morrer", disse Bencik. "Eles disseram que gente como eu sofreria as medidas necessárias no futuro."

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Jan Bencik, cujo nome apareceu em uma lista de "opositores do Estado" depois que ele começou um blog expondo os neo-fascistas da Eslováquia, em Ruzomberok

Uma das ironias a respeito de Kotleba assumir o poder em Banska Bystrica é o fato de que esse foi o centro da Revolta Nacional Eslovaca anti-fascista durante a guerra e é lar do museu nacional que relembra esse acontecimento.

Stanislav Micev, diretor do museu, disse que a mensagem de Kotleba era um "fascismo com elementos de nazismo", misturando o comando autoritário de Mussolini com a demonização das minorias por parte de Hitler.

"Eles são contra americanos, húngaros, judeus, negros e amarelos", disse Micev. "Suas posições atuais estão bem no limite da legalidade."

Como recém-chegado no cenário político neofascista, Svec vê Kotleba como um rival em potencial pelos mesmos votos raivosos. Na cerimônia em homenagem a Jozef Tiso, os dirigentes do movimento de Svec usavam ternos escuros iguais com camisa branca e gravata vermelha.

Em uma mesa no fundo da sala, se encontravam à venda artigos do Movimento de Renascimento Eslovaco, como distintivos, chaveiros, adesivos, calendários, biscoitos e garrafas de vinho (somente branco) com o rótulo "Ano de Jozef Tiso".

"As pessoas que estão no poder querem que os eslovacos tenham vergonha de sua história", disse Martin Lacko, um historiador e partidário de Svec. "Eles querem que continuem pedindo desculpas. É por isso ficam falando em deportações de judeus durante a guerra e outras coisas negativas."

Um grupo de cantores grisalhos de roupas tradicionais, acompanhados por uma clarineta e um acordeão, entoavam uma série de sucessos patrióticos. "Mães eslovacas, vocês têm filhos lindos", cantavam.

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Stanislav Micev, diretor do Museu do Renascimento Nacional Eslovaco, em Banska Bystrica, Eslováquia

Dois estudantes universitários de cabelo escorrido e jeans, sentados em um canto no fundo, cochichavam durante os discursos e roubavam docinhos de uma mesa durante os intervalos. Ambos disseram se considerar devotos e conservadores, e não acreditavam que Svec e Kotleba eram extremistas de nenhuma forma. Eles também disseram que a eleição de Donald Trump era algo bom.

"Devo dizer que os resultados das eleições americanas me deixaram extremamente feliz", disse Martin Bornik, 23.

Em uma entrevista após a cerimônia, Svec rejeitou a ideia de que seu grupo seja neonazista.

"Quando americanos levam suas bandeiras para parques ou eventos públicos, ninguém fala nada", disse Svec. "Quando fazemos isso, eles nos chamam de neonazistas. Sabe, rotular alguém é muito fácil."

Tradutor: UOL

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