Remuneração igual para homens e mulheres? A Islândia quer que os empregadores provem

Liz Alderman

Em Reykjavík (Islândia)

  • Bara Kristinsdottir/The New York Times

    O departamento de impostos da Alfândega islandesa, onde a maioria dos empregados é do sexo feminino, em Reykjavik

    O departamento de impostos da Alfândega islandesa, onde a maioria dos empregados é do sexo feminino, em Reykjavik

Em uma fria tarde de outubro, Frida Ros Valdimarsdottir, uma ex-funcionária de cuidados domiciliares que virou defensora dos direitos da mulher, deixou seu escritório exatamente às 14h38 e seguiu para a praça principal de Reykjavík, onde um grande número de mulheres formava uma multidão ruidosa. Era a hora, aproximadamente duas horas e meia antes do fim do expediente de trabalho, em que muitas manifestantes avaliaram que deixavam de ser pagas por trabalho igual.

A manifestação fazia parte de um movimento por igualdade de renda que mobilizou dezenas de milhares de mulheres por toda esta minúscula ilha-nação, onde protestos com frequência resultam em mudança.

"Por décadas, dissemos que corrigiríamos isto", disse Valdimarsdottir, a presidente da Associação Islandesa de Direitos da Mulher e uma organizadora da manifestação. "Mas as mulheres continuam recebendo salários mais baixos, o que é insano."

O governo deseja mudar essa dinâmica. Na terça-feira, a Islândia se tornou o primeiro país a introduzir legislação exigindo que os empregadores provem que estão pagando homens e mulheres de forma igual.

A Islândia tem há meio século leis de remuneração igual, pressionando empresas e o governo a reduzirem de modo gradual a desigualdade salarial. Mas o pensamento por trás da nova legislação é de que a menos que as leis sejam aplicadas com mais vigor, o desequilíbrio poderá nunca desaparecer.

"Queremos derrubar a última barreira de gênero no local de trabalho", disse Thorsteinn Viglundsson, o ministro de Assuntos Sociais e Igualdade da Islândia. "A história mostra que se deseja progresso, é preciso obrigar o cumprimento."

A Islândia, com uma população de 330 mil habitantes, está na dianteira da promoção da igualdade de gênero. Os países nórdicos estão à frente da maioria dos demais países em políticas de igualdade, que incluem cotas em conselhos diretores e licenças maternidade e paternidade generosas, e a Islândia aparece consistentemente no topo ou próximo dele nos rankings internacionais de igualdade.

Mas igualdade salarial e inclusão nos altos escalões dos locais de trabalho ainda deixam a desejar. As mulheres na Islândia ainda ganham entre 14% a 20% menos do que os homens, segundo o governo.

A Islândia deseja corrigir essa desigualdade em até cinco anos, uma ação que o governo argumenta que poderá acelerar o progresso em outras áreas. A desigualdade global de gênero não será superada em até 70 anos a menos que haja uma aceleração dos esforços, segundo a Organização Internacional do Trabalho.

A legislação proposta segue um programa piloto de remuneração igual, no qual empresas e órgãos do governo identificam os obstáculos crônicos que impedem as mulheres de obter empregos de maior remuneração: as mulheres ocupam profissões diferentes que os homens e menos posições de alto nível, contribuindo para a remuneração menor. Alguns empregadores no programa agora estão buscando contratar mais mulheres para empregos tradicionalmente ocupados por homens.

Valdimarsdottir, a defensora dos direitos da mulher, deixou seu emprego de cuidados domiciliares pela municipalidade de Reykjavík.

Ela descobriu que um contador da municipalidade ganhava quatro vezes mais que ela por seu trabalho administrativo, supervisionando uma equipe de 10 pessoas que prestavam cuidados domiciliares, a maioria mulheres. Posteriormente, a municipalidade ajustou o salário, quase o equiparando ao do contador, e elevou os salários das outras funcionárias.

Bara Kristinsdottir/The New York Times
Anna Kristin Kristjansdottir, dona da agência de publicidade White House, em Reykjavik


Muitas empresas islandesas já abraçam um padrão voluntário de remuneração igual elaborado por entidades patronais e sindicatos trabalhistas. Mas os grupos empresariais dizem que não deve ser imposto, particularmente dado o fardo administrativo do cumprimento, especialmente para empresas pequenas.

"As empresas devem fazer isso em benefício próprio e em benefício de seus funcionários", disse Halldor Thorbergsson, diretor geral da Confederação dos Empregadores Islandeses. "Mas não deve ser transformado em lei."

As empresas em outros países também desconfiam de uma intervenção do governo, incluindo o Reino Unido, que recentemente passou a exigir que empresas com 250 funcionários ou mais relatem publicamente suas desigualdades salariais por gênero. A Áustria e a Bélgica têm regras semelhantes. Nos Estados Unidos e Suíça, empresas com contratos federais devem relatar ao governo informação salarial por gênero.

As mulheres islandesas há muito argumentam que a igualdade necessita de um empurrão nacional.

Em 1974, 90% das mulheres cruzaram os braços em seus empregos e seus lares para mostrar como a sociedade seria afetada se não trabalhassem. O momento divisor de águas logo levou à primeira mulher eleita democraticamente presidente no mundo, Vigdis Finnbogadottir, em 1980.

Hoje, cerca da metade dos parlamentares na Islândia é mulher. Quase 80% das mulheres trabalham e, com uma cota de gênero em vigor, quase metade dos membros dos conselhos diretores das empresas é mulher.

Mas muitas mulheres ainda têm menos poder econômico do que os homens. Os postos administrativos de alto e médio escalão são ocupados em sua maioria por homens e a desigualdade salarial é especialmente persistente entre as mães que trabalham e mulheres em campos dominados por estas.

As novas regras exigiriam que as maiores empresas e órgãos do governo se submetessem a auditorias, a partir de 2018, e a obterem uma certificação de cumprimento das regras de remuneração igual. Empresas com mais de 25 funcionários teriam que cumprir as regras até 2022.

Os empregadores devem avaliar cada vaga de trabalho, de faxineiro a executivo sênior, para identificar a corrigir diferenças salariais de mais de 5%.

Bara Kristinsdottir/The New York Times
Thorsteinn Viglundsson, ministro de Assuntos Sociais e Igualdade da Islândia


Apesar de o processo exigir tempo e dinheiro, Arni Kristinsson, diretor administrativo da BSI Iceland, uma empresa de auditoria que realiza algumas dos levantamentos de remuneração justa, disse que esses custos não são altos demais.

"A pergunta é, as empresas estão comprometidas?", ele disse. "Nas firmas que estão, já vemos uma redução da desigualdade salarial" para apenas 3%.

As auditorias revelaram outras desigualdades no trabalho associadas à remuneração. Na Alfândega islandesa, que participou do programa piloto, as autoridades descobriram que os salários eram mais baixos quando as mulheres eram empregadas como um grupo maior.

Cerca de 80% dos agentes alfandegários uniformizados da Islândia são homens, um grupo que recebe 30% a mais do que os coletores de impostos alfandegários, cuja maioria é mulher.

Os agentes trabalham mais horas e enfrentam riscos, como inspeção de carga à procura de drogas, de modo que a análise apontou que o sistema de pagamento era justificado, disse Snorri Olsen, o diretor da Alfândega islandesa. Mas a revisão também levou a uma reavaliação da distribuição de gênero em cada grupo.

A agência agora está tentando recrutar mais homens para o trabalho em escritório e mais mulheres para os empregos de agente mais bem remunerados, em parte reduzindo os turnos para acomodar as mulheres que precisam cuidar dos filhos, disse Olsen.

"Há uma tendência de olhar para trabalho geralmente feito por homens como sendo mais valioso", ele disse. "Tecnicamente, essa é a discussão da remuneração igual, mas é realmente uma questão sobre igualdade em nossa sociedade."

As auditorias ajudam a promover uma autorreflexão, mesmo entre as mulheres administradoras, sobre o potencial de uma predisposição inconsciente em qualquer lugar.

Em uma agência de publicidade com sede em Reykjavík, chamada White House, Anna Kristin Kristjansdottir, que é membro do conselho e proprietária, disse que as auditorias sobre remuneração igual revelaram inclinações na força de trabalho de 45 pessoas, incluindo a proporção de empregos de nível mais alto ocupados por homens.

Assim como a Alfândega, ela está buscando equilibrar os percentuais, especialmente no alto escalão, onde ela busca atingir paridade de gênero.

Se esses ajustes funcionam é motivo de debate. Alguns estudos mostram que as desigualdades salariais entre homens e mulheres existem em parte nas mesmas ocupações, não entre elas.

Igualmente perturbador para Kristjansdottir é que as mulheres negociam salários mais baixos que os homens. Em geral, os homens apresentam uma probabilidade quatro vezes maior de pedir aumento, e quando as mulheres pedem, elas buscam em média 30% menos.

"Você está lá realizando a entrevista e elas pedem menos", disse Kristjansdottir. "A auditoria mostrou que essa era uma falha em nosso recrutamento e permitíamos que isso acontecesse, sem percebermos."

Para Viglundsson, o ministra do governo, o fato de questões maiores de igualdade surgirem no debate em torno da remuneração igual justifica a proposta legislativa.

"Quando se trata do local de trabalho, os homens desfrutaram por muito tempo de certo nível de privilégio", ele disse. "Mas se você olhar para o interesse da sociedade em eliminar a discriminação contra as mulheres, isso supera em muito qualquer fardo regulatório."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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