Empregos no setor de carvão que Trump prometeu salvar não existem mais

Hiroko Tabuchi

  • Jason Cohn/Reuters

Em Decatur, no Estado de Illinois, longe das minas de carvão de Appalachia, engenheiros da Caterpillar estão trabalhando no futuro da mineração: caminhões de mineração gigantes que se dirigem sozinhos.

Os caminhões não têm motoristas, nem mesmo operadores remotos. Os veículos de mais de 38 toneladas dependem de tecnologia de direção autônoma, os mais recentes de uma linha autônoma de caminhões e perfuradores que está tirando parte do elemento humano da mineração de carvão.

Quando o presidente Donald Trump tomou a iniciativa na terça-feira de revogar as políticas para a mudança climática do governo Obama, ele prometeu que traria de volta aos Estados Unidos os empregos em mineração de carvão. Mas os empregos aos quais ele se referiu, de mineiros durões em túneis labirínticos com picaretas e pás, foram aos poucos se tornando vestígios do passado.

Pressionado pelo gás natural, que é barato e abundante, o carvão se encontra em um íngreme declínio, correspondendo hoje a somente um terço da geração de energia nos Estados Unidos. As energias renováveis estão rapidamente se tornando competitivas em relação ao carvão no que diz respeito ao preço. As vendas de eletricidade estão caindo e as exportações de carvão estão em queda.

Já há algum tempo a indústria do carvão tem substituído trabalhadores por máquinas e explosivos. Especialistas em energia e em trabalho dizem que ninguém, inclusive Trump, pode trazê-los de volta.

"As pessoas pensam na mineração de carvão como algo dos anos 1890, como uma atividade de exploração pitoresca que envolve muitas pessoas, mas é muito melhor pensar nela como uma indústria de alta tecnologia com muito menos mineradores e mais engenheiros e programadores", disse Mark Muro, membro sênior do Programa de Políticas Metropolitanas da Brookings Institution.

"O peso das mudanças na regulação é insignificante diante dessas mudanças tecnológicas, sem mencionar o preço do gás natural ou das energias renováveis", disse Muro. "Ainda que você volte a ter uma demanda por carvão, não precisará do mesmo número de trabalhadores".

Estimar os ganhos e as perdas ambientais decorrentes de iniciativas para regular as emissões de efeito estufa se tornou um exercício político.

A Câmara de Comércio Americana, que se opôs às regulações do carbono, alertou que a assinatura do Plano de Energia Limpa por parte do ex-presidente Barack Obama levaria a uma perda média de mais de 200 mil empregos nos Estados Unidos a cada ano até 2030, uma projeção totalmente superestimada, de acordo com especialistas em energias e trabalho.

O plano da era Obama, que Trump prometeu revogar, teria fechado centenas de usinas movidas a carvão, congelado a construção de novas fábricas e as substituído por amplas usinas eólicas e solares. Obama havia prometido, como parte do acordo climático de Paris, que até 2025 os Estados Unidos cortariam suas emissões em cerca de 26%, partindo dos níveis de 2005, e executar o Plano de Energia Limpa seria essencial para atingir essa meta.

Grupos ambientalistas deram suas próprias estimativas, argumentando que o número de empregos ligados à energia limpa e à eficiência energética aumentaria com o plano, em até 274 mil até 2020, de acordo com o Conselho de Defesa de Recursos Naturais.

Enquanto isso, a Agência de Proteção Ambiental estimou que o plano levaria a um aumento de 80 mil empregos até 2020.

Nenhuma dessas estimativas sequer começou a ser testada. O plano energético do governo Obama não entrou em vigor porque foi suspenso pelo Supremo Tribunal.

Parte da dificuldade em prever as consequências sobre o emprego está nas muitas variáveis envolvidas, como preços do carvão e do gás, projeção de crescimento e custo das energias renováveis, e empregos gerados pela eficiência energética.

Mesmo os executivos do setor de carvão não têm manifestado seu otimismo a respeito da revogação do Plano de Energia Limpa, que, segundo eles, está longe de devolver o carvão a seu lugar dominante nos mercados de energia e de dar emprego a dezenas de milhares de mineradores.

E tem a tecnologia.

Os caminhões autônomos da Caterpillar já estão sendo usados em minas na Austrália Ocidental. "Um caminhão autônomo não precisa parar para almoçar ou trocar de turno", disse a Caterpillar em uma página promocional de seu site. E ela está passando para os perfuradores semiautônomos, incluindo um sistema que permite que um trabalhador controle três perfuradores de uma só vez.

Além disso, o fato de terem passado das minas de carvão subterrâneas para as minas de superfície, que envolve a abertura de montanhas com explosões controladas e depois o uso de maquinário pesado para minerar o carvão, também levou a uma queda no número de empregos em mineração.

Em 1980, a indústria empregava cerca de 242 mil pessoas. Em 2015, esse número havia caído 60%, para menos de 100 mil, ainda que a produção de carvão tivesse subido 8%. Com ajuda da automação, a produtividade dos trabalhadores mais do que triplicou nesse mesmo período, de acordo com dados da Administração de Informações de Energia dos EUA e da Brookings Institution.

E um estudo recente feito pelo Instituto Internacional de Desenvolvimento Sustentável e pelo Centro para Investimentos Sustentáveis de Columbia previu que a automação provavelmente substituiria de 40% a 80% dos trabalhadores de minas.

A automação torna as minas mais "seguras, eficientes e produtivas", disse Corrie Scott, uma porta-voz da Caterpillar. "Embora as minas não precisem mais de tantos motoristas, elas precisarão de mais pessoas que usem e entendam as tecnologias mais modernas", ela disse.

"Não importa o que você faça, o gás e as energias renováveis vão substituir o carvão", disse Nicolas Maennling, pesquisador sênior em economia e políticas da Universidade de Columbia e autor de um estudo sobre automação.

"E para continuar sendo competitivo, o carvão terá de aumentar o uso da automação", ele disse. "A iniciativa de Trump não fará muita diferença".

Tradutor: UOL

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