O que a intriga da Guerra Fria pode dizer da investigação sobre laços de Trump com a Rússia

James Risen

Em Washington (EUA)

  • Don Emmert e Natalia Kolesnikova/ AFP

Tudo começou com evidência de uma invasão aos computadores do Comitê Nacional Democrata (CND) e agora evoluiu em uma ampla investigação de contrainteligência, para determinar se houve alguma coordenação entre os membros da campanha presidencial de Donald Trump e o governo russo, talvez até mesmo influenciando a eleição de 2016.

Quando o diretor do FBI (Birô Federal de Investigação, a polícia federal americana), James B. Comey, compareceu no Congresso em 20 de março e confirmou a existência da investigação Trump-Rússia, isso lembrou as investigações da época da Guerra Fria nas quais o birô, juntamente com a CIA (Agência Central de Inteligência), procurava por agentes infiltrados no governo que espionavam para Moscou.

Olhar para esses casos da Guerra Fria pode revelar lições para os investigadores de hoje. Acima de tudo, esses casos do passado mostram que podem ser necessários anos até que a nova investigação revele qualquer resposta.

Caça a espiões geralmente começa com um incidente inexplicado

No caso Trump-Rússia, ocorreu o hackeamento dos computadores do CND. Em 1985, ocorreu uma prisão nas ruas de Moscou.

Em junho de 1985, Burton Gerber, o chefe da divisão Soviética-Leste Europeu da CIA, estava prestes a se sentar para jantar em sua casa, em Washington, quando recebeu uma notícia devastadora. Paul Stombaugh, um agente da CIA, tinha acabado de ser preso pela KGB (o serviço secreto soviético) em Moscou.

Stombaugh foi pego enquanto estava em uma missão clandestina para se encontrar com o mais importante espião russo da CIA, Adolf Tolkachev, um cientista de uma instalação militar secreta que fornecia aos americanos informação altamente confidencial sobre os sistemas de armas soviéticos. Gerber sabia que a prisão de Stombaugh significava que Tolkachev, um agente ao qual a CIA deu o codinome de GTVanquish, certamente também tinha sido preso.

A prisão e subsequente execução de Tolkachev foi a mais danosa de uma série de misteriosas perdas de espiões sofrida pela CIA em 1985. Na verdade, houve tanta atividade de espionagem entre a CIA e a KGB que veio à público em 1985 que ele se tornou conhecido como Ano do Espião.

Mas por quê?

Um debate esquentou dentro do mundo fechado da contrainteligência americana. Toda a perda de espiões seria por culpa da incompetência da CIA? Ou seria resultado de algo mais sinistro, como um agente russo infiltrado na agência?

Esse debate em 1985 de certa forma espelha o debate público sobre o hackeamento do CND durante a campanha presidencial de 2016. Algum hacker simplesmente tirou proveito da ciberincompetência do comitê ou o partido político americano foi um alvo específico e premeditado da inteligência russa?

Um mosaico de pistas cria um rastro

Foram precisos anos para as autoridades de contrainteligência da CIA e do FBI montarem as peças e finalmente resolverem o quebra-cabeça de 1985. Posteriormente, eles perceberam que foram confundidos devido às muitas linhas investigativas que tentaram seguir ao mesmo tempo. Por exemplo, em agosto de 1985, apenas dois meses após a prisão de Stombaugh, um oficial da KGB, Vitaly Yurchenko, desertou para os Estados Unidos e identificou um agente da CIA, Edward Lee Howard, como sendo um espião russo. Howard escapou para a Rússia e Yurchenko voltou atrás e retornou para Moscou.

As autoridades americanas passaram a se perguntar se Howard tinha sido responsável pela perda de espiões e se a deserção de Yurchenko foi genuína, ou se foi ordenada pela KGB para que Howard fosse apontado e, assim, confundisse os americanos.

No final, a CIA e o FBI descobriram que era difícil determinar o que estava causando todas as perdas porque os russos tinham mais de um agente infiltrado no governo americano. Tanto Aldrich Ames, um oficial de caso da CIA, quanto Robert Hanssen, um agente do FBI, passaram a espionar para os soviéticos em 1985. Ambos deram a Moscou nomes de soviéticos que trabalhavam para os Estados Unidos, mas Ames e Hanssen não deram aos russos exatamente a mesma informação.

Foi apenas após a prisão de Ames em 1994 que as autoridades de contrainteligência perceberam que havia outro infiltrado, porque Ames não tinha conhecimento de certas coisas que foram comprometidas, como a existência de uma investigação de espionagem envolvendo um funcionário do Departamento de Estado, Felix Bloch. Após a prisão de Ames, os Estados Unidos deram início a uma nova caçada a um infiltrado, que acabou levando à prisão de Hanssen em 2001.

Assim, as investigações de contrainteligência a respeito das perdas de espiões de 1985 duraram 16 anos.

Assim como seus antecessores na Guerra Fria, os investigadores de contrainteligência americanos enfrentam hoje a tarefa intimidante de tentar desemaranhar uma miríade de conexões pessoais e de negócios entre o governo russo e outras entidades e pessoas russas associadas à campanha de Trump. Com certeza levará tempo para que as autoridades possam determinar quais conexões são as mais importantes para sua investigação.

Disputas territoriais

As investigações de contrainteligência são conduzidas em conjunto pela CIA e pelo FBI, com apoio de outras agências, como a Agência de Segurança Nacional. Hoje, a nova investigação Trump-Rússia está sendo conduzida por uma força-tarefa conjunta interagências, assim como a caça aos espiões da Guerra Fria.

Mas as operações de contrainteligência interagências costumam ser atrapalhadas por disputas em torno de jurisdição, que podem levar a demoras burocráticas frustrantes e, às vezes, oportunidades perdidas.

Disputas territoriais atrasaram terrivelmente a investigação de Hanssen e permitiram que ele continuasse espionando até muito depois do fim da Guerra Fria.

Por anos, o FBI estava convencido de que o agente que estava caçando era outro agente da CIA, como Ames, e se recusava a acreditar na possibilidade de que um agente do FBI fosse um traidor.

Desertores exercem um papel crucial

Quase todo grande caso de espionagem é finalmente resolvido graças a desertores do outro lado. A longa investigação de contrainteligência de Ames foi auxiliada por um espião russo, codinome Vingador, que forneceu informação fundamental que apontava para Ames. O caso Hanssen também foi finalmente resolvido com a ajuda de um espião russo, que trouxe arquivos da KGB que ajudaram a identificá-lo.

A CIA e o FBI não gostam de reconhecer que dependem tanto de desertores para solução de seus casos. Mas é possível que o caso Trump-Rússia possa não ser solucionado até que a CIA ou o FBI consigam persuadir um agente da inteligência russa a mudar de lado e fornecer informação incriminadora.

Mas em um caso tão politizado com potencial de mudar a história, um desertor russo seria recebido com enorme ceticismo, até mesmo dentro do mundo da contrainteligência.

Provavelmente o paralelo mais próximo na Guerra Fria seja o caso amargo de Yuri Nosenko.

Nosenko foi um agente da KGB que desertou para a CIA em 1964 e trouxe consigo a resposta para um dos maiores mistérios dos tempos modernos: a União Soviética foi responsável pelo assassinato do presidente John F. Kennedy? Na época, a CIA não tinha certeza, já que Lee Harvey Oswald tinha desertado para a Rússia e depois voltado para os Estados Unidos antes de matar Kennedy.

Nosenko disse à CIA que a KGB não esteve por trás do assassinato de Kennedy. Na verdade, ele disse que a KGB ficou tão alarmada após o assassinato de Kennedy que revirou seus próprios arquivos e não conseguiu encontrar qualquer evidência de que Oswald já tinha trabalhado para ela.

Mas as autoridades da CIA, lideradas pelo chefe de contrainteligência James Jesus Angleton, estavam convencidas de que Nosenko era um agente duplo enviado por Moscou para confundir as coisas. Um desertor anterior da KGB, Anatoliy Golitsyn, tinha convencido Angleton de que todo desertor da KGB depois dele seria um agente duplo. Como resultado, Nosenko foi mantido incomunicável por três anos em uma prisão secreta no centro de treinamento da CIA, no Campo Peary, perto de Williamsburg, Virgínia. Depois que a CIA finalmente percebeu que Nosenko estava dizendo a verdade, ele foi solto em 1967, recebeu US$ 80 mil da CIA e foi reassentado com um novo nome.

Termina com avaliação dos danos, pose política e segredos não revelados.

Mesmo após uma prisão ser efetuada, as autoridades de contrainteligência podem passar vários anos a mais tentando determinar exatamente quanto dano foi infligido. Com frequência a avaliação dos danos ganha uma conotação política, porque as autoridades desejam aumentar ou minimizar os estragos dependendo de que autoridade, agência ou departamento sairá ganhando ou perdendo. Isso quase certamente ocorrerá na investigação Rússia-Trump.

Com frequência, os relatórios de avaliação de danos permanecem confidenciais e o público americano nunca saberá como a história realmente termina.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos