Discussão do Brexit começa em meio a incerteza sobre tamanho do impacto econômico

Peter S. Goodman

Em Londres (Reino Unido)

  • Kirsty Wigglesworth/ AFP

O mundo não acabou. Não houve recessão. Nove meses depois de o Reino Unido votar sua saída da União Europeia, desconsiderando advertências sobre duras consequências econômicas, um país famoso por agir com calma parece ter levado sua vida normalmente.

A primeira-ministra Theresa May iniciou oficialmente na quarta-feira (29) a saída do Reino Unido da Europa --Brexit, na gíria cotidiana--, e a ausência de desastre foi apontada pelos que conduzem a saída como um sinal de poucos problemas à frente.

"Houve previsões sobre o que aconteceria com a economia se o Reino Unido votasse pela saída", disse May ao Parlamento na quarta-feira. "Essas previsões não se concretizaram. Vemos uma economia forte."

Mas o discurso tranquilizador não levou em conta um detalhe importante: nada aconteceu ainda de verdade.

May apenas acionou o processo complexo e politicamente difícil pelo qual a Grã-Bretanha deverá acertar seus negócios com os 27 membros descartados da UE. O resultado quase certamente será custoso: o Reino Unido colocou em risco seu relacionamento comercial com a Europa, seu maior cliente de exportações, enquanto ameaçou a posição de Londres como banqueiro do planeta.

Os mercados basicamente encolheram os ombros. A medida era tão esperada quanto o próximo campeonato nacional de futebol. A libra esterlina caiu um pouco, assim como as ações na Bolsa de Londres.

O impacto imediato do ato de May foi iniciar as negociações sobre futuros acordos através do canal da Mancha. Essas negociações têm um prazo de dois anos. Se nenhum acordo for feito nesse tempo, o Reino Unido e a Europa mergulhariam em um estado de caótica incerteza.

O comércio reverteria às regras da Organização Mundial do Comércio, tornando as exportações britânicas para a Europa vulneráveis a tarifas e outras barreiras comerciais, inclusive regras de saúde e segurança.

Os banqueiros de Londres seriam efetivamente separados da Europa, e muitas transações para clientes sediados no continente se tornariam ilegais.

Até agora, tais questões se envolviam em camadas de hipóteses, com os detalhes deixados para um dia indeterminado, quando o governo britânico os tornasse reais. Esse dia chegou.

Embora a indústria financeira esteja se preparando para transferir empregos para outras capitais financeiras, antecipando-se a uma Brexit confusa, outros setores esperaram por esclarecimentos. Agora eles sentem pressão para agir --mudando algumas linhas de negócios para outras capitais europeias, talvez arquivando as expansões britânicas.

Bancos globais gigantes, como Citigroup, HSBC e JPMorgan Chase, poderão em breve implementar planos de mudar milhares de empregos para centros financeiros na UE. O Goldman Sachs recentemente confirmou que está retirando centenas de cargos de Londres, enquanto expande seus escritórios em Frankfurt e Paris.

A gigante das telecomunicações Vodafone disse depois do referendo que poderá mudar sua sede de Londres.

"O fato de colocar esse relógio em movimento é importante, porque para muitas empresas dois anos são um tempo suficiente para se adaptar, mas curto o bastante para que tenham de tomar decisões muito rapidamente", disse Nicolas Véron, um economista e membro sênior da instituição de pesquisas Bruegel, em Bruxelas. "Você começará a ver consequências muito concretas e visíveis do Brexit muito em breve."

Prever quantos empregos se mudarão tornou-se uma indústria paralela próspera. A consultoria global Oliver Wyman concluiu que se as transações para clientes europeus em Londres forem drasticamente reduzidas, como hoje parece provável, até 35 mil empregos britânicos poderão desaparecer, com cerca de 20 bilhões de libras (R$ 78 bilhões) em receitas.

Depois da votação do Brexit, May reuniu-se com o executivo-chefe da Nissan para oferecer garantias de que seu governo faria o que fosse necessário para manter a fabricante de carros competitiva. A Nissan disse que continuará fabricando SUVs em Sunderland, no norte da Inglaterra.

Os apoiadores do Brexit chamaram o resultado de um modelo de como um governo britânico pragmático evitaria que as empresas abandonem seu território --com cortes fiscais, regulamentação e acordos amigáveis. Mas se a Grã-Bretanha prometeu algo significativo para a Nissan provavelmente violou as regras da OMC. A Nissan disse mais tarde que continua avaliando as incertezas econômicas do Reino Unido. A Ford e a BMW também estão reavaliando suas fábricas britânicas.

Por enquanto, o Reino Unido conseguiu evitar as previsões econômicas mais assustadoras.

Antes do referendo em junho, o Tesouro britânico previu que uma votação pela saída poderia encolher a economia em até 6% anualmente pela primeira vez em dois anos.

A economia se expandiu 1,8% no ano passado. Os consumidores britânicos continuaram gastando. As fábricas britânicas continuaram produzindo carros, equipamentos médicos e peças de aviões, muitos deles destinados à Europa.

Neste mês, a Toyota anunciou planos de investir mais 240 milhões de libras (cerca de R$ 940 milhões) em uma fábrica em Derbyshire, mas deixou claro que exige acesso confiável à Europa. A Snap, companhia matriz da rede social Snapchat, que levantou US$ 3,4 bilhões (R$ 10,7 bilhões) em sua oferta pública inicial, recentemente escolheu Londres como sua sede internacional.

Mas o gasto do consumidor tem sido pago cada vez mais por dívidas. A libra britânica perdeu 17% de seu valor contra o dólar desde o referendo, aumentando o custo dos bens importados. O investimento está falhando.

Uma libra mais fraca ajuda as exportações, tornando os produtos britânicos mais baratos nos mercados mundiais. Mas as exportações também foram ajudadas pela própria coisa que o Reino Unido está tentando jogar fora --a inclusão na Europa.

Os defensores do Brexit tendem a desprezar a Europa como uma terra que só lidera no número de homens desempregados que voltam a morar com os pais. A próxima era do Reino Unido deverá se concentrar no comércio com países de crescimento mais rápido e inovadores como os EUA.

O Reino Unido e a Europa devem negociar um acordo comercial que impeça uma ruptura do comércio. Durante a campanha, os defensores do Brexit afirmavam que a Europa acabaria fazendo isso acontecer porque seu membro mais poderoso, a Alemanha, hoje envia um desfile de BMWs, Audis e Volkswagens à Grã-Bretanha.

Mas as negociações comerciais são vulneráveis às manipulações de indústrias protegidas politicamente. Esta parece especialmente inclinada à animosidade. Os líderes europeus enfrentam ameaças existenciais a sua união, com os partidos políticos de todo o continente hostis a seus poderes. Muitos estão decididos a usar o Reino Unido para ilustrar o que, segundo eles, acontece quando um país sai --nada de bom.

"É senso comum", disse o economista Véron. "Você não permite que alguém que sai do clube tenha condições melhores do que alguém que está no clube, ou o clube não significaria nada."

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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