Com múltiplas denúncias de assédio sexual, estrela da Fox News perde anunciantes

Emily Steel e Michael S. Schmidt

Em Nova York

  • Robert Wright/The New York Times

    18.dez.2012 - Bill O'Reilly em seu estúdio na Fox News em Nova York

    18.dez.2012 - Bill O'Reilly em seu estúdio na Fox News em Nova York

O escândalo envolvendo assédio sexual que dominou Fox News no ano passado e levou à saída de seu presidente, Roger Ailes, continuou a desgastar a rede na segunda-feira (4), com uma nova ação judicial descrevendo investidas sexuais indesejadas por parte de Ailes e dois grandes anunciantes retirando suas propagandas do programa de seu apresentador de maior audiência, Bill O'Reilly.

A Mercedez-Benz e a Hyundai disseram que retirariam seus anúncios do programa de horário nobre de O'Reilly, "The O'Reilly Factor", depois que o "The New York Times" publicou uma reportagem neste final de semana sobre cinco mulheres que alegaram ter sofrido assédio sexual ou comportamento inapropriado por parte dele. Essas cinco mulheres fecharam acordos em um total de aproximadamente US$ 13 milhões (R$ 40 milhões), segundo o "Times".

Na terça-feira (4), a eles se somaram a BMW da América do Norte, GlaxoSmithKline, Allstate, Constant Contact, Untuckit, e Sanofi Consumer HealthCare, num total de oito anunciantes.

Juntos, os dois acontecimentos retratam uma rede abalroada por alegações em diversas frentes, ainda que esteja obtendo índices recordes de audiência com uma programação simpatizante ao presidente Donald Trump. Funcionários do canal continuam ansiosos, disseram alguns na segunda-feira, a respeito de questionamentos sobre sua cultura de local de trabalho e suas prioridades.

Se mais anunciantes abandonarem o programa de O'Reilly, será um baque para a Fox News, que rende bilhões de dólares em receitas a cada ano à sua empresa-mãe, a 21st Century Fox. O'Reilly há muito tempo é o rosto briguento de uma programação de horário nobre que dita o tom para comentários conservadores. Seu programa atrai quase 4 milhões de espectadores por noite, e de 2014 a 2016 ele gerou mais de US$ 446 milhões (R$ 1,38 bilhões) em receita publicitária, de acordo com a empresa de pesquisas Kantar Media.

"Dada a importância das mulheres em todos os aspectos de nossa empresa, não sentimos que este seja um bom ambiente no qual anunciar nossos produtos neste momento", escreveu por e-mail Donna Boland, gerente de comunicação corporativa para a Mercedes-Benz. Estima-se que a Mercedes-Benz tenha gasto cerca de US$ 1,9 milhão em anúncios no "The O'Reilly Factor" ano passado, de acordo com a iSpot.tv, a empresa de análise publicitária de TV.

A Hyundai citou "as alegações perturbadoras recentes" ao anunciar que estava retirando seus anúncios do programa de O'Reilly. "Tínhamos anúncios previstos para o programa, mas estamos realocando-os", disse a Hyundai em um comunicado por e-mail.

Christina Gandolfo/The New York Times
Wendy Walsh, ex-convidada regular do programa "The O'Reilly Factor", em sua casa na Califórnia

"Como uma empresa, buscamos fazer parcerias com empresas e uma programação que compartilhe de nossos valores de inclusão e de diversidade", dizia o comunicado. "Continuaremos a monitorar e avaliar a situação enquanto planejamos futuras decisões a respeito de anúncios."

"Vamos continuar a revisar nossa publicidade para ter certeza de que é conduzida de maneira responsável e alinhada com nossos valores", afirmou Sarah Spencer, porta-voz da GlaxoSmithKline.

Apesar do histórico de acordos feitos por O'Reilly e da série de alegações contra ele, a empresa estendeu seu contrato, que deveria vencer este ano, de acordo com pessoas a par da questão. O'Reilly ganha cerca de US$18 milhões por ano. Quando a empresa estendeu o contrato, ela sabia de diversos acordos que ele havia feito com mulheres que haviam se queixado de seu comportamento.

A empresa diz que discutiu a questão com O'Reilly. Ela acredita que seu novo contrato lhe dá mais poder de influência sobre ele no que diz respeito a seu comportamento, de acordo com duas pessoas cientes da questão. O'Reilly disse que as alegações não têm fundamento. Ele não mencionou a controvérsia em seu programa na segunda-feira à noite.

Mais cedo, na segunda-feira, Julie Roginsky, atual colaboradora da Fox News, entrou com uma ação judicial contra Ailes, a Fox News e Bill Shine, o co-presidente do canal, afirmando que ela vinha enfrentando retaliação por recusar as investidas sexuais de Ailes e por se recusar a falar mal de Gretchen Carlson, a ex-apresentadora da Fox News que processou Ailes no verão passado.

E uma ex-convidada regular do programa de O'Reilly, Wendy Walsh, que contou suas alegações contra ele ao "Times", realizou uma entrevista coletiva junto com sua advogada para discutir essas alegações e para pedir por uma investigação independente sobre assédio sexual dentro da rede.

Além disso, o gabinete do procurador da República em Manhattan está investigando a Fox News, inclusive a forma como ela estruturou os acordos.

Christopher Gregory/The New York Times
Andrea Mackris, ex-produtora do "The O'Reilly Factor", em sua casa em St Louis

Na segunda-feira, a Fox News tomou a iniciativa de tentar conter os efeitos colaterais dos desdobramentos do fim de semana, pedindo a seus funcionários em um memorando interno que denunciem comportamentos inadequados ao departamento de recursos humanos ou outros executivos da rede.

"Especialmente à luz de alguns dos relatos publicados nos últimos dias, eu gostaria de re-enfatizar a mensagem que temos passado em nossos treinamentos há vários meses", disse Kevin Lord, o novo diretor de recursos humanos da rede, que foi contratado após o escândalo de Ailes.

Irena Briganti, uma porta-voz da Fox News, se negou a comentar as decisões sobre os anúncios, o processo de Roginsky ou a coletiva de imprensa de Walsh.

Walsh, a partir de Los Angeles, repetiu o relato que concedeu ao "Times". Ela disse que O'Reilly não cumpriu um acordo verbal pelo qual a tornaria colaboradora de seu programa depois que ela recusou um convite para ir até seu quarto de hotel após um jantar em Los Angeles, no ano de 2013, que foi marcado por sua secretária. Ela não recebeu nenhuma quantia proveniente de acordo e diz que não quer dinheiro. Ela afirma que não relatou suas queixas à Fox News na época porque não queria colocar em risco suas perspectivas de carreira.

"Outras mulheres que estão proibidas pela Justiça de falar sobre o caso, que não podem falar, foram silenciadas", disse Walsh, sentada ao lado de sua advogada Lisa Bloom. "Tive de ser a voz delas."

Walsh está contando suas experiências publicamente apesar de ter recebido um alerta no sábado do advogado de O'Reilly, Fredric S. Newman, exigindo que ela se retratasse das declarações dadas ao "Times". A carta, obtida pelo "Times", dizia que suas afirmações eram "obviamente falsas e altamente difamatórias" e mandava "cessar e parar com qualquer difamação do caráter do sr. O'Reilly".

"Seu segmento era um fracasso", escreveu Newman. "Isso ficou estabelecido como fato inegável através da análise minuto a minuto de seu segmento, que mostrou que o segmento era um fracasso."

Os problemas da Fox News continuaram quando Roginsky submeteu sua ação ao Supremo Tribunal do Estado de Nova York. A ação repete as queixas que outras mulheres fizeram a respeito de Ailes e da cultura na rede, onde mulheres dizem ter sofrido assédio e temiam denunciá-lo. A advogada de Roginsky é Nancy Erika Smith, a mesma advogada que representou Carlson, que recebeu uma quantia de US$20 milhões em um acordo depois de deixar a rede.

Roginsky, que foi uma colaboradora paga da Fox News desde 2011, declarou em sua queixa que Ailes fazia comentários sexistas e investidas sexuais indesejadas contra ela durante reuniões entre os dois no escritório dele, incluindo pedidos para que ela "se abaixasse para cumprimentá-lo com um beijo" enquanto ele se sentava em uma poltrona baixa e falas suas de que eles "se encrencariam muito" se ele a levasse "para tomar um drink".

Ailes também teria lhe dito que ela deveria "ter relações sexuais com 'homens mais velhos, casados e conservadores'", segundo a ação judicial.

Roginsky afimou na ação judicial que ela vinha enfrentando retaliação por rejeitar os avanços de Ailes. Ela disse que lhe foi negado um cargo como apresentadora do programa "The Five" e raramente tinha a permissão de apresentar seus próprios segmentos no programa "Outnumbered", diferentemente de outros apresentadores. Ela também afirmou que foi punida por não entrar no "Team Roger" quando Carlson entrou com sua ação no verão passado—uma suposta referência a um grupo de funcionários da Fox News que apoiavam Ailes publicamente.

Susan R. Estrich, uma das advogadas de Ailes, disse que ele "nega veementemente" as alegações na ação de Roginsky. Ela disse que as declarações são "bobagem" e disse que a ação era uma "queixa imitadora".

"Suas interações com Ailes não chegavam nem perto da versão fictícia na qual ela quer que as pessoas acreditem agora", disse Estrich em um comunicado.

Os acontecimentos levantaram novas questões sobre a investigação interna na Fox News que foi iniciada depois que as alegações sobre Ailes vieram a público pela primeira vez. Na ação, Roginsky também afirmou que ela discutiu sobre suas queixas com Shine e outro importante executivo da rede durante uma reunião em novembro, meses depois que Ailes foi dispensado, em julho.

Tradutor: UOL

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