Nacionalismo de Trump atrai admiração de chineses devotos de Mao Tse-tung

Chris Buckley

Em Pequim (China)*

  • AFP PHOTO / GREG BAKER

    Revista chinesa dedica capa a Trump na semana da visita de Xi Jinping aos EUA

    Revista chinesa dedica capa a Trump na semana da visita de Xi Jinping aos EUA

Eles protestam, fazem piquetes e cantam em defesa da memória de Mao Tse-tung, desejando que o Oriente seja vermelho de novo. Mas ultimamente alguns maoístas chineses estão encontrando inspiração em um rebelde improvável no Ocidente: Donald Trump.

Trump "rasgou as velhas regras das elites dominantes, não apenas do Ocidente capitalista", disse Zhang Hongliang, um polemicista que é o mais firme defensor do que poderia se chamar liberalmente de "maoístas por Trump". Em um ensaio recente, Zhang elogiou o presidente americano como o único líder nacional que ousa "promover abertamente as ideias políticas do presidente Mao".

O presidente chinês, Xi Jinping, estará avaliando Trump durante uma visita nesta semana a Mar-a-Lago, a propriedade deste na Flórida, na primeira reunião de cúpula dos dois líderes. Enquanto isso, muitos chineses comuns também têm tirado as medidas do novo presidente americano e ficaram atônitos, furiosos e, às vezes, inspirados.

A onda global de sentimento nacionalista e anti-establishment que levou Trump ao poder chegou às praias chinesas, incentivando uma faixa da esquerda dura que é hostil ao capitalismo e à influência ocidental, e que o Partido Comunista há muito desejava cultivar --e conter.

Os maoístas da China são uma pequena minoria; a maioria dos chineses não deseja reviver a política impiedosa e tumultuada da era Mao. Mas a crescente assertividade dos maoístas, que se reflete em sua aprovação a aspectos da agenda de Trump, poderia ajudar a levar o país em uma direção mais autoritária.

Eles também complicam os esforços de Xi para tocar os dois lados de uma divisão ideológica: como firme defensor do legado de Mao, mas também um proponente da liberalização do mercado e até um defensor da globalização na era Trump.

É um paradoxo que esses admiradores de Mao, um revolucionário marxista que condenou o imperialismo americano, tenham encontrado pontos positivos neste presidente americano, um magnata dos imóveis com um gabinete cheio de milionários. Mas eles querem que Xi pegue uma página do roteiro "a América primeiro" de Trump e proteja os trabalhadores chineses de demissões e privatizações e da concorrência estrangeira.

"Trump se opõe à globalização, e o mesmo deve fazer a China", disse um artigo em Utopia, um popular site maoísta. "A ideologia de Trump é orientada para a China, e ele está aprendendo com a China", disse outro site chinês de esquerda radical.

Os neomaoístas da China, como são às vezes chamados, são unidos de modo geral pelas demandas por rígida igualdade econômica, nacionalismo zeloso e um desprezo pelo Ocidente capitalista e a democracia liberal.

"Muitas dessas ideias que hoje animam o movimento populista global são símbolos do movimento neomaoísta há mais de uma década", disse Jude Blanchette, um pesquisador em Pequim que está escrevendo um livro sobre o movimento.

"Os neomaoístas também se beneficiaram claramente da ascensão de Xi Jinping, que fez um grande chamado na sua direção", acrescentou Blanchette.

Muitos na extrema-esquerda chinesa consideram Trump um inimigo perigoso que questionou a política estabelecida dos EUA para Taiwan, prometeu confrontar o poder de Pequim no disputado mar do Sul da China e ameaçou cortar as exportações chinesas para os EUA.

Mas alguns maoístas dizem que Trump também oferece um modelo. Eles acham que ele liderou uma revolta populista que humilhou um meio político corrupto não diferente do que eles veem na China. Eles aplaudem suas táticas incendiárias, às vezes comparando-as aos métodos de Mao. E ouvem em seus comentários um eco de sua própria decepção com a democracia ocidental, o intervencionismo e os valores políticos liberais dos EUA.

As reuniões e sites maoístas recorrem a uma série de inimigos, incluindo a CIA e os EUA em geral, colheitas geneticamente modificadas e defensores da privatização de empresas estatais. Mas eles reservam um veneno especial para os intelectuais liberais e celebridades chinesas que condenaram Mao.

No Ocidente, afirmou Zhang, os nacionalistas estão na direita, enquanto a esquerda geralmente apoia o internacionalismo. "Mas na China é o contrário", disse ele. "Os direitistas chineses são os traidores, enquanto os esquerdistas são os patriotas."

Sob Xi, os maoístas tornaram-se mais ousados para ir às ruas e organizar campanhas online. Uma decisão judicial no ano passado e legislação aprovada em março protegendo os heróis comunistas os animou ainda mais.

Ninguém espera que os maoístas tomem o poder em Pequim. Eles são desprezados pela classe média e mantidos à distância pelas autoridades do partido. Em toda a China talvez haja alguns milhares de defensores ativos de grupos e causas maoístas, e seus abaixo-assinados online contra intelectuais liberais reuniram dezenas de milhares de assinaturas, segundo o pesquisador Blanchette.

Mas a mensagem maior da esquerda chinesa de nacionalismo forte e suas críticas à crescente desigualdade repercutiram especialmente entre os aposentados, trabalhadores e ex-autoridades do partido decepcionadas pela riqueza extravagante e a corrupção. Trump e o surto global de nacionalismo e populismo acrescentaram lenha à fogueira.

Dai Jianzhong, um sociólogo em Pequim, disse que os maoístas poderão ganhar seguidores se uma recessão econômica causar demissões em massa, ou se as tensões com os EUA escalarem até um confronto.

"Foi um grande choque para a China ver a classe média americana dominada por essa maré de populismo", disse Dai. "A sociedade chinesa é diferente, mas se a economia estagnar e os trabalhadores se sentirem muito abandonados, o populismo ganhará influência. A influência dos maoístas e esquerdistas radicais se espalharia."

Muitos maoístas veem Xi como um companheiro de viagem que está levando a China na direção certa ao restabelecer o respeito por Mao e Marx. Mas outros dizem em particular que mesmo Xi talvez não seja um aliado confiável. Eles indicam que ele se promoveu no exterior defendendo a expansão do comércio global e como amigo das corporações multinacionais, traçando um contraste implícito com Trump.

He Weifang, um professor de direito na Universidade de Pequim que muitas vezes é rejeitado pela extrema-esquerda chinesa, disse que Xi está fazendo um jogo perigoso ao permitir que os populistas maoístas calem as vozes liberais, e se arrisca a acender fogos políticos que ele não pode controlar facilmente.

"Se as correntes políticas na China convergirem cada vez mais com o populismo, teriam um efeito poderoso no futuro da China", acrescentou He. 

*Adam Wu colaborou na pesquisa

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos