Apetite dos Estados Unidos pelas drogas do México alimenta a imigração ilegal

Ron Nixon e Fernanda Santos

Em Lukeville (Arizona)

  • Sandy Huffaker/AFP

    Fronteira entre o México e os EUA em San Ysidro, Califórnia

    Fronteira entre o México e os EUA em San Ysidro, Califórnia

Todos os anos, os cartéis mexicanos do narcotráfico arrecadam bilhões de dólares com a venda da heroína, de metanfetaminas e outras drogas nos Estados Unidos. O dinheiro precisa chegar ao sul de alguma forma.

Embora os carteis às vezes contratem empresas legítimas para comprar bens como seda e cartuchos de tinta e exportá-los para o México, onde eles são vendidos por pesos, um método mais comum é simplesmente pagar a alguém para levar o dinheiro até o outro lado da fronteira.

O presidente Donald Trump falou frequentemente sobre os "bad hombres" que chegariam em grandes números do México. Mas é o fluxo de dinheiro que vai do norte ao sul —um produto do apetite voraz dos americanos por drogas ilícitas— que seria uma parte igual do problema, segundo autoridades.

"Foram o dinheiro e as armas que permitiram que os carteis obtivessem o poder que eles têm", disse em uma entrevista Scott Brown, agente especial encarregado das Investigações da Segurança Interna em Phoenix, parte da Immigration and Customs Enforcement (agência federal da imigração e alfândega). "Acredito piamente que se conseguirmos impedir que os carteis consigam seus lucros, com o tempo isso terá muito mais impacto do que a apreensão das drogas".

Algumas semanas atrás, agentes da alfândega, em diferentes operações, detiveram dois homens mexicanos que estavam a caminho do México com quase US$ 60 mil (R$ 185 mil) escondidos em compartimentos secretos dentro de seus carros. Alguns dias depois, eles detiveram uma mulher mexicana de 43 anos que ia para o México com vários rifles de assalto, um revólver, diversas revistas sobre munição, duas miras telescópicas e 6.000 balas.

"Eu gostaria de ter uma unidade dedicada a buscar armas e dinheiro inspecionando veículos que estão indo para o sul", disse em uma entrevista Pete Bachelier, um agente da U.S. Customs and Border Protection (agência federal de proteção de fronteira e imigração) encarregado da porta de entrada local. "Só não tenho o pessoal para isso".

Desde 2008, agentes da alfândega em portas de entrada ao longo da fronteira sul apreenderam cerca de US$ 300 milhões (R$ 927 milhões) em dinheiro vivo indo na direção do México em veículos comerciais e carros de passeio, de acordo com estatísticas da Customs and Border Protection.

Agentes da alfândega e da patrulha fronteiriça dizem que o dinheiro, que foi encontrado enquanto seguiam pistas ou em revistas aleatórias, representa uma fração do total atual. Até o momento este ano, segundo autoridades, as apreensões de dinheiro que iam para o sul chegaram a 48% em março: US$ 18,6 milhões, em comparação com os US$ 12,6 milhões ao longo do mesmo período no ano passado. As autoridades dizem que o aumento se deu provavelmente porque a agência conseguiu enviar mais agentes para procurar dinheiro e armas em meio a uma queda nas apreensões de imigrantes não autorizados na fronteira.

"Precisamos arrumar nossa própria casa", disse Michael Shifter, presidente da Inter-American Dialogue, um think tank sediado em Washington. "Nosso apetite por drogas no país está tendo um impacto sobre o sul e está expulsando pessoas desses países".

Até o momento, a resposta de Trump para a crise das drogas e da imigração teve um escopo restrito.

Além de sua ênfase em construir um muro de fronteira, ele prometeu contratar 15 mil agentes de fronteira e deportação a mais para deter e deportar imigrantes não autorizados que tentem entrar ou já tenham entrado nos Estados Unidos.

Para autoridades mexicanas, o fluxo de armas e dinheiro vindos do norte é uma queixa antiga.

Cerca de 70% das armas de fogo apreendidas no México entre 2009 e 2014 tiveram sua origem rastreada nos Estados Unidos, em um total de mais de 73 mil armas, de acordo com um relatório de 2016 da Agência de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos dos Estados Unidos.

E, de muitas formas, o dinheiro representa um problema maior do que as armas.

De acordo com o Departamento do Tesouro, estima-se que o tráfico de drogas gere US$ 64 bilhões (R$ 197 bilhões) anualmente em vendas nos Estados Unidos. Além de permitir que os carteis de drogas e gangues comprem armas, o dinheiro gerado com essa venda de drogas é usado para subornar e corromper policiais, juízes e agentes da imigração e da alfândega mexicanos e latino-americanos.

Oficiais da lei nos Estados Unidos não foram poupados quando centenas de oficiais estaduais e federais foram condenados por aceitar milhões em subornos de carteis de drogas e contrabandistas de pessoas.

"O que o grande público ouve de políticos e da mídia é: vamos acabar com as drogas, vamos acabar com o veneno que está matando nossos filhos", disse Doug Coleman, agente especial encarregado da Drug Enforcement Administration (DEA, agência de combate ao narcotráfico) em Phoenix. "Para a comunidade policial, o dinheiro e as drogas estão todos ligados".

O dinheiro viaja de muitas formas, inclusive por correio, em caixas cheias de ordens de pagamento no valor de centenas de milhares de dólares e em maços por estradas, enfiados em malas ou em compartimentos secretos, assim como as drogas que vêm para o norte. Às vezes, ele vai de um país para outro na forma de pagamentos e depósitos que seriam legítimos, exceto pelo fato de que eles são feitos com dinheiro proveniente de drogas.

Usar diferentes contas bancárias para depositar e depois sacar dinheiro proveniente de drogas é um esquema comum de lavagem de dinheiro, e é somente uma das formas como as organizações de tráfico de drogas movimentam seu dinheiro.

No entanto, a forma mais comum é através do comércio.

O México é o maior parceiro comercial do Arizona, então há muitas oportunidades. Muitas vezes um corretor de câmbio contratado pelos cartéis compra bens de uma exportadora sediada nos Estados Unidos que serão então enviados para o México, onde por fim serão vendidos legalmente.

Ao longo da fronteira, agentes da polícia federal, estadual e local trabalham juntos para tentar impedir que as drogas entrem e, às vezes, para impedir que dinheiro e armas entrem no México.

Um desses trabalhos entre diversas agências policiais, aqui em Lukeville, é a Operação Chainlink. O trabalho, liderado pelo Departamento de Segurança Interna, e que inclui guarda-parques e membros de agências policiais estaduais e locais, tem a tarefa de impedir que bens ilícitos, em sua maior parte dinheiro e armas, entrem no México.

Durante a operação que houve mais recentemente aqui, os policiais e agentes policiais pararam diversos veículos suspeitos e interrogaram os ocupantes, incluindo um homem que dirigia um Ford Escort, que agentes haviam visto jogando uma mala na beira da estrada. Eles revistaram seu carro mas não encontraram nada.

"Mas vamos ficar de olho nele e pará-lo se ele passar a pé ou dirigindo outro veículo", disse Bachelier, o diretor do posto alfandegário. "Sabemos que ele está aprontando, mas simplesmente não conseguimos pegá-lo com nada desta vez".

Tradutor: UOL

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