O magnata imobiliário bilionário chinês que gosta do Twitter e de Mar-a-Lago

Michael Forsythe

  • Andrew Testa/The New York Times

Ele é um bilionário que fez sua fortuna em imóveis. Costuma ser chamado de narcisista. Posta no Twitter (incessantemente) sobre política e suas batalhas contra a mídia. Ultimamente, tem passado tempo em um resort na Flórida chamado Mar-a-Lago.

Seu nome?

Guo Wengui.

Guo é um magnata imobiliário chinês que vive fora do país há mais de dois anos. Nas últimas semanas, ele lançou uma ofensiva, em entrevistas para a televisão e pelo Twitter, criticando a eficácia da luta do Partido Comunista contra a corrupção, mas da segurança de capitais financeiras como Londres e Nova York. Ele também é sócio do resort de Donald Trump em Palm Beach, Flórida, e postou fotos de si mesmo ali no mês passado ao lado do diretor administrativo de Mar-a-Lago.

O novo perfil público de Guo, mais semelhante a um oligarca russo dissidente e altamente incomum na política chinesa, ocorre em um momento incômodo, pouco antes do primeiro encontro de cúpula entre o presidente da China, Xi Jinping, e Trump no resort. Os laços do bilionário chinês com o clube são um novo exemplo de como os interesses de negócios de Trump podem complicar a diplomacia, neste caso naquele que talvez seja o relacionamento bilateral mais importante do mundo.

Em Mar-a-Lago, negócios, socialização e estadismo convergiram em fevereiro, quando Shinzo Abe, o primeiro-ministro do Japão, discutiu com Trump um teste de mísseis norte-coreana à plena vista dos associados do clube. A entrada em Mar-a-Lago será mais rígida desta vez do que durante a visita de Abe, disse um funcionário americano com conhecimento dos preparativos para o encontro, que estava ciente dos comentários de Guo, mas não pôde oferecer detalhes sobre os protocolos de segurança.

No mínimo, seria embaraçoso se Guo, que também é conhecido como Miles Kwok, aparecesse no resort à beira-mar durante a cúpula de quinta e sexta-feira. O pior cenário seria a presença de Guo irritar Xi e a delegação chinesa. Guo deixou a China durante um escândalo de corrupção ligado à prisão de seu patrono político, uma importante autoridade de segurança. Guo disse que seus ativos na China (ele coloca o número em mais de US$ 17 bilhões) foram confiscados.

"Guo certamente seria uma incógnita desestabilizadora em Mar-a-Lago", disse Christopher K. Johnson, um ex-analista sênior para a China da Agência Central de Inteligência (CIA), que agora está no Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington. Johnson disse em uma entrevista que a China considera Guo um criminoso e deseja seu retorno, apesar de não haver registro público dele ter sido indiciado por algum crime.

Durante a visita de Abe, os sócios do clube e convidados foram autorizados a entrar sem passar por todos os protocolos rígidos de segurança impostos na Casa Branca. O funcionário americano, que não estava autorizado a falar à mídia de notícias e pediu anonimato, não sabia dizer se os sócios seriam impedidos de entrar durante o encontro entre Xi e Trump.

Quando perguntado, Guo não soube dizer se pretendia comparecer à cúpula. Mesmo se for mantido de fora, a triagem de hóspedes pagantes do presidente antes de um grande encontro de cúpula representaria um desafio que nenhum governo anterior já enfrentou. Estar lado a lado com os ricos e poderosos é um dos atrativos de Mar-a-Lago, que recentemente dobrou sua taxa de adesão para US$ 200 mil. Trump chama a propriedade de "Casa Branca do Sul".

O fato de Guo ser sócio poderia ser especialmente sensível, dado o quão longe os líderes da China vão para acabar com qualquer discussão política que se desvie da linha do Partido Comunista, particularmente os comentários sobre a riqueza dos altos líderes. Guo tem feito acusações específicas contra um ex-alto líder do partido.

Em duas recentes entrevistas em língua chinesa e pelo Twitter, Guo, apesar de altamente críticos em relação a muitos dos atuais e ex-líderes chineses, tem elogiado Xi, ou ao menos tem evitado criticá-lo diretamente.

"Rezo para que a visita do presidente Xi seja tranquila, para que as relações entre os povos dos Estados Unidos e da China deem início a uma grande nova era", disse Guo em uma mensagem de texto em resposta às perguntas do "New York Times".

Guo não é o primeiro magnata chinês a deixar o país cercado de controvérsia e se estabelecer nos Estados Unidos ou em outro país ocidental. Johnson disse que ele é provavelmente o segundo em uma lista de empresários proeminentes que Pequim deseja repatriar, atrás do irmão mais novo de uma importante autoridade, que ocupava um posto equivalente ao de chefe de Gabinete da Casa Branca. Esse homem, Ling Wancheng, partiu da China para os Estados Unidos cerca de três anos atrás, antes da prisão de seu irmão, que agora está cumprindo pena de prisão perpétua por corrupção.

Mas Ling tem permanecido em silêncio e mantido seu paradeiro em segredo.

Durante os dois primeiros anos de seu exílio, Guo fez o mesmo.

Mas isso mudou no final de janeiro, quando ativou sua conta no Twitter e deu a primeira de duas longas entrevistas ao Mirror Media Group, uma empresa de notícias em língua chinesa com sede em Long Island, Nova York.

Ele está em uma longa batalha pública com o mais proeminente jornalista da China, Hu Shuli, cuja revista de notícias, "Caixin", noticiou em 2015 que Guo fez uso de seus laços com Ma Jian, um ex-vice-ministro da agência de espionagem do país, para promoção de seus negócios. Ma foi expulso do Partido Comunista e está sendo processado por corrupção. Guo acusou a esposa de Hu Shuli de ser corrupta e trabalhar "nos bastidores" para uma pessoa influente. A "Caixin" processou Guo, dizendo que ele difamou a esposa de Hu.

Guo alega ter sido vítima de uma corrupção que vai até o mais alto escalão da política chinesa, o comitê permanente do Politburo do Partido Comunista, mas que a autoridade em questão, agora aposentada, não foi processada. A Mirror Media diz que seu público chinês chega a centenas de milhões, tornando as afirmações de Guo particularmente sensíveis para Xi, que está tentando consolidar o poder antes de uma importante reunião da liderança do Partido Comunista neste ano.

"Todos nós fomos usados como instrumentos", disse Guo em uma entrevista em 8 de março.

Guo citou nomes. Sua declaração mais chamativa é de que seu ex-sócio nos negócios, atualmente na prisão, era apoiado pelo filho de um ex-alto funcionário disciplinar do Partido Comunista, He Guoqiang. Ele também descreveu uma gravação em áudio que obteve, detalhando as ameaças que seus outrora parceiros nos negócios estavam planejando. "Eles dizem que espancariam Guo Wengui até a morte, que matariam Guo Wengui", disse Guo durante a entrevista à Mirror Media.

Em março, Guo esteve em Mar-a-Lago, posando para fotos. Ele postou fotos de si mesmo com Bernd Lembcke, o diretor administrativo do clube. Durante sua estada, ele também visitou Bethesda-by-the-Sea, uma igreja episcopal que os Trumps frequentam, e passou algum tempo em uma elegante casa à beira-mar, decorada com motivos asiáticos e exibida na revista "Architectural Digest", que agora é de propriedade de uma empresa ligada a Victor Vargas, um banqueiro venezuelano.

Postando em chinês no Twitter, Guo disse que realizou negócios no clube, convocando uma reunião de sua empresa ali. Em uma mensagem pelo Twitter ao "New York Times", Guo disse ser um associado, o que foi confirmado por uma pessoa informada sobre o assunto.

"Ao longo dos anos, ocorreram muitos momentos memoráveis aqui", escreveu Guo sobre Mar-a-Lago. "Sinto muitas emoções. Nos últimos meses, um empresário controverso se tornou o presidente americano. Não entendo por que ele quis se tornar presidente. Mas admiro seu caráter persistente. Não desista!"

Mark Landler contribui com reportagem e Kiki Zao contribuiu com pesquisa.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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