Alemanha debate se o posto de primeira-dama ainda é necessário

Anna Sauerbrey*

  • Xinhua/Imago/ZUMAPRESS

    Elke Büdenbender e Frank Walter Steinmeier, a primeira-dama e o presidente da Alemanha

    Elke Büdenbender e Frank Walter Steinmeier, a primeira-dama e o presidente da Alemanha

De certa maneira, Elke Büdenbender é exatamente o oposto de Melania Trump. Casada com Frank-Walter Steinmeier, o novo chefe de Estado alemão, ela deixou o emprego de juíza no Tribunal Administrativo de Berlim para se dedicar integralmente ao trabalho de primeira-dama. Melania Trump, por sua vez, recusa-se a ser primeira-dama para, bem, continuar sem fazer muita coisa.

Por mais diferentes que as duas sejam, porém, a Alemanha está tendo a mesma discussão que os EUA: ainda precisamos de uma primeira-dama no século 21? Uma primeira dona de casa ainda é uma representante apropriada do país que somos? E ela representa o país que gostaríamos de ser?

Quanto ao país que gostaríamos de ser, a resposta alemã é bem simples: não, ela não representa. A maioria dos alemães gosta de pensar na igualdade das mulheres como uma missão cumprida, e provavelmente concordaria que o modelo que continua vivo no Schloss Bellevue, a residência presidencial, está ultrapassado.

A Alemanha nunca teve uma mulher presidente, e talvez seja por isso que não modernizou o papel de seu primeiro-casal. No Schloss Bellevue, os anos 1950 sobreviveram, transformando-o em um museu de história social, uma caricatura do passado doméstico patriarcal, só que mais rica e menos elegante, exalando o odor de um assado de domingo que esfriou esperando que papai voltasse ao lar familial.

A primeira-dama alemã, assim como sua colega americana, é a mulher "ao lado dele", como muitos canais de mídia gostam de dizer. Ela é ativa, mas de uma maneira que a Alemanha do pós-guerra também teria aprovado. Tradicionalmente, ela e a patronesse do Müttergenesungswerk, uma organização beneficente fundada por Elly Heuss-Knapp, a primeira primeira-dama da Alemanha, que é dedicado à saúde materna. Horst Köhler, o presidente de 2004 a 2010, e sua mulher, Eva Luise, por exemplo, iniciaram uma fundação para doenças raras. A primeira-dama é encarregada de organizar a recepção de Ano Novo do presidente e outras tarefas relativas às exigências tradicionais do papel feminino, como cuidados da casa, alimentação e hospedagem.

Tudo isso se baseia em mera convenção. A primeira-dama não tem um papel constitucional. O fato de ela atuar como uma autoridade estatal, dotada de escritório, secretária e estafeta, poderia levantar algumas perguntas jurídicas difíceis, como notou recentemente Sophie Schönberger, professora de direito constitucional na Universidade de Constança, no jornal "Süddeutsche Zeitung", aproveitando a pergunta levantada nos EUA sobre se Melanie Trump deve ser remunerada. Ou, como colocou o presidente do Parlamento alemão, Norbert Lammert, durante a posse de Steinmeier, dirigindo-se a Büdenbender: "Seu cargo é algo que, segundo a nossa Constituição, não existe". É como se tentássemos espremer a história das mulheres em uma sentença: as mulheres sempre administraram sem ter um cargo, agiram sem reconhecimento, trabalharam sem pagamento, existiram fora do texto.

Existe um amplo consenso na Alemanha de que isso deve parar --apesar de recentes tentativas de populistas de desacreditar a agenda feminista. Na última década, os governos e a sociedade civil alemães investiram energia e dinheiro consideráveis para promover a participação das mulheres no mercado de trabalho e sua visibilidade na esfera pública. Mas toda a energia política investida em definir quotas e todo o dinheiro despejado em creches e licença-paternidade compartilhada não mudaram muita coisa, realmente.

O que me leva de volta a se o cargo oficioso de primeira-dama representa a Alemanha como é. A resposta é claramente sim.

As mulheres na Alemanha são extremamente instruídas. Mas quando nasce o primeiro filho elas tendem a se rebaixar, e nunca voltam realmente ao seu lugar. A Alemanha é hoje governada por uma chanceler, além de seis ministros mulheres e nove homens. Mas a onipresença televisiva de mulheres políticas poderosas é enganosa. Somente 6,7% de todos os membros de conselhos de companhias listadas nas grandes Bolsas alemãs são mulheres.

Nas fileiras mais baixas, é o mesmo quadro. Somos um país de mães que ficam em casa e mães em meio período, especialmente em comparação com nossos vizinhos na Europa do Norte e do Leste. Números divulgados pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômicos) em março mostram que mais de um quinto de todas as mulheres alemãs entre 25 e 40 anos com pelo menos um filho ficam em casa; outro terço trabalha menos de 30 horas por semana. Em apenas 10% de todos os casais nessa faixa etária os dois trabalham em período integral.

A carreira da mulher alemã típica ainda é esta: ser educada para um emprego mal remunerado no setor social, médico ou educacional, tirar tempo para os filhos, voltar ao trabalho em meio período (em mais horas do que realmente lhe pagam, mas recebendo menos reconhecimento que seus colegas em período integral), tirar tempo para cuidar de pais idosos, voltar ao trabalho em meio período e então, quando se aposenta, cuidar do marido doente e dos netos estressados, o tempo todo vivendo com uma aposentadoria modesta.

É claro que não é isso que Büdenbender representa pessoalmente: ela é uma mulher que criou um filho e teve uma carreira notável, apesar de um marido frequentemente ausente (e que, segundo pessoas que a conhecem, deixa seu emprego com relutância). Mas é o que representa seu novo papel de primeira-dama: estar "ao lado dele", em vez de apenas ser ela. Ser uma gerente sem cargo, agir sem reconhecimento, trabalhar sem remuneração, ausente do livro da história.

A opção de Büdenbender por ser primeira-dama lembra-nos dolorosamente dos fracassos e das contradições da emancipação na Alemanha, da grande lacuna entre o discurso público e a realidade social, que tem a largura de pelo menos um quarto de século. Será extremamente interessante ver se Büdenbender irá reinterpretar o papel que herdou da desigualdade para reduzir um pouco essa brecha --pelo menos a brecha entre o que ela realmente é e o que é a primeira-dama.

*Anna Sauerbrey é editora de opinião no jornal "Der Tagesspiegel" e colabora com editoriais.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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