Alunos descobrem currículo falso de futura diretora ao escrever reportagem para jornal escolar

Christopher Mele

  • Emily Smith/Pittsburg High School - Reprodução/NYT

Quatro dias depois que alunos de um jornal de escola no Kansas publicaram um artigo que questionava as qualificações de uma diretora que havia sido contratada recentemente, ela renunciou.

O episódio, que se desenrolou em uma escola de Ensino Médio em Pittsburg, no Kansas, cerca de 200 km ao sul de Kansas City, recebeu cobertura da mídia e atraiu elogios de organizações jornalísticas pelo trabalho de reportagem investigativa realizado pelos alunos jornalistas.

A história começou a germinar no dia 6 de março, quando o distrito escolar Pittsburg Community Schools anunciou ter contratado Amy Robertson como diretora da escola.

O comunicado dizia que sua "extensa e diversificada experiência impressionou funcionários e lideranças do distrito e a lançou repetidamente para o topo" da lista de candidatos. Ela tinha "décadas de experiência em educação" e era presidente de uma empresa que dava consultoria a empresas a respeito de educação, de acordo com o comunicado.

Maddie Baden, uma aluna de 17 anos do segundo ano e membro da equipe do jornal feito pelos alunos "The Booster Redux", se pôs a redigir seu perfil. Emily Smith, uma professora e conselheira do "The Redux", disse que não esperava que a reportagem levasse a questionamentos sobre as qualificações de Robertson.

"Somos do meio-oeste", ela disse. "Quando alguém coloca algo no papel, pensamos que estão sendo sinceros sobre o que estão dizendo".

Mas nas diversas entrevistas que concedeu ao longo de vários dias, Robertson forneceu detalhes sobre seu histórico que não se sustentavam, disse Smith.

Então Robertson foi se tornando cada vez mais evasiva.

"Fizemos a ela perguntas diretas", disse Smith. "Ela não conseguia dar respostas diretas".

Smith orientou os alunos a pressionarem por respostas mais claras, levando-os a serem mais assertivos com uma adulta em posição de autoridade do que eles estavam acostumados.

Os alunos questionaram a legitimidade da Universidade de Corllins, uma instituição onde Robertson disse ter obtido seus títulos de mestrado e de doutorado. A universidade não fornece um endereço físico em seu site e foi alvo de reclamações de consumidores e alertas sobre sua falta de qualificação. O perfil de Robertson no LinkedIn, o site de networking profissional, não identificava onde ela havia obtido seu mestrado e doutorado, listando somente um "N/A" ("indisponível"/"não se aplica").

Detalhes menores também despertaram a curiosidade dos estudantes. Por exemplo, Robertson disse que havia se formado em belas-artes pela Universidade de Tulsa, mas quando os alunos foram verificar, descobriram que a faculdade não ministrava esse tipo de curso, disse Smith.

Os alunos e Smith se encontraram com o superintendente da escola, Destry Brown, para comunicar suas preocupações, e ele foi "solidário e aberto", segundo ela. Eles continuaram investigando e "escrevendo até 5 minutos antes de ir para prelo", ela disse.

O "The Redux", um jornal mensal em formato standard publicado 10 vezes por ano, chegou às bancas de jornais com uma história de capa intitulada "Distrito Contrata Nova Diretora" e, tendo como subtítulo, "Currículo questionado com o surgimento de discrepâncias".

O comitê de educação se reuniu e anunciou que Robertson havia renunciado. "À luz das questões que vieram à tona" ela sentiu que seria melhor para o distrito, dizia o comunicado do comitê.

Robertson, que assumiria um cargo com salário anual de US$ 93 mil (R$ 290 mil) a partir de 1º de julho, não pôde ser imediatamente contatada para comentar o caso.

Robertson, que vivia em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, era a diretora da Escola Científica Americana de Dubai, e teve sua licença temporariamente suspensa pelas autoridades da educação de lá, como relatou o "The Gulf News". Problemas com a imigração impediram que ela obtivesse as licenças necessárias, segundo o "The News".

Brown elogiou os alunos por sua persistência, mas reconheceu que sentiu uma pontada de decepção sobre como a história se desdobrou. Ele disse que a contratação de Robertson dependia de uma verificação de histórico e do fornecimento da documentação necessária. Ele disse que os detalhes teriam vindo à tona em algum momento, mas que o trabalho dos alunos acelerou as coisas.

"Acredito veementemente que nossas crianças devam questionar tudo e que não devam acreditar em tudo só porque um adulto lhes disse", ele falou. "Tive um pouco de azia em torno de toda a questão do artigo. Eu não ia parar aquilo porque acredito na Primeira Emenda".

Grupos de jornalismo também se derramaram em elogios.

Tom Rosenstiel, diretor-executivo do American Press Institute, um grupo de pesquisa e treinamento em jornalismo, disse que sua organização havia visto trabalhos excepcionais feitos por universitários em conjunto com jornalistas profissionais em investigações, mas disse que o que os alunos do ensino médio fizeram "realmente se destacou".

Em tempos de cortes de recursos nas redações, os estudantes estão ajudando a preencher lacunas no jornalismo, ele disse, acrescentando: "Existe um sentimento de que investigações jornalísticas significativas podem vir de qualquer lugar hoje em dia".

Jornalistas estudantes costumam ser subestimados por aqueles que ocupam posições de autoridade, disse Frank LoMonte, diretor-executivo do Student Press Law Center. Os alunos o consultaram a respeito da reportagem que fizeram para o artigo.

O artigo poderia nunca ter aparecido se não fosse pelo Kansas Student Publications Act (lei de publicações estudantis do Kansas), que concede aos alunos um controle independente sobre seu conteúdo editorial, incluindo material que poderia retratar a escola de uma forma desfavorável, ele disse. Uma decisão de 1998 do Supremo Tribunal deu aos administradores a autoridade de censurar o conteúdo de jornalistas estudantes.

Dez Estados, incluindo o Kansas, aprovaram leis que dão aos estudantes um controle independente, embora os administradores ainda possam remover material que seja obsceno, difamatório ou represente um risco à escola. Projetos de leis similares estão pendentes em nove outros Estados, segundo LoMonte.

"Se essa mesma situação acontecesse no Texas, em Nova York ou na Flórida, essa história não teria vindo à tona", ele disse.

Ele deu o crédito aos administradores da escola por assumirem uma abordagem de não-intervenção e permitir que os alunos prosseguissem com a investigação.

"Espero que isso realmente encoraje os jovens a assumirem matérias substanciais ainda que tenham medo de censura administrativa", ele disse. "Essa história prova que você pode efetuar mudanças positivas em sua comunidade através do jornalismo".
 

Tradutor: UOL

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