Primeiras quíntulas do mundo tentam evitar venda de área de "zoo humano" em que eram exibidas

Ian Austen

Em North Bay (Canadá)

  • Ernie Sisto/The New York Times

    As quíntuplas Dianne, Yvonne, Cecile e Marie, na primeira fila, e Emilie e Annette acima, observam bebê prematuro em hospital nos EUA em 1950

    As quíntuplas Dianne, Yvonne, Cecile e Marie, na primeira fila, e Emilie e Annette acima, observam bebê prematuro em hospital nos EUA em 1950

A minúscula casa de madeira ao longo da Rodovia Trans-Canadá é fácil de passar desapercebida entre os centros comerciais, restaurantes de fast food e revendas de carros. Mas há 83 anos, ela esteve no centro de um furacão de publicidade, devido a um evento um em um bilhão: o nascimento de cinco meninas idênticas.

As quíntuplas Dionne, as primeiras a sobreviverem que se tem conhecimento, foram um instante de notícia milagrosa feliz em meio à Grande Depressão. Jornalistas vieram a North Bay, Ontário, para torná-las os bebês mais famosos do planeta. Então, exibiam as crianças três vezes por dia em um zoológico humano chamado Quintland, criadas como uma espécie de experimento científico. Três milhões de visitantes vieram nos anos 30.

Agora, a cidade que elas colocaram no mapa está prestes a promover outro insulto às Dionnes, ao se livrar da casa delas. A cidade planeja entregá-la a uma feira em um vilarejo a cerca de 70 km estrada adiante, sem nenhuma conexão com a história delas e nem contando com recursos financeiros para mantê-la como museu. Um comitê da Câmara Municipal deverá discutir o assunto.

As duas irmãs sobreviventes, Annette e Cécile, reapareceram relutantemente em público para protestar, concedendo uma rara entrevista.

"É muito difícil de aceitar", disse Cécile em uma sala semiprivada em um centro de tratamento em Montreal, onde está se recuperando de um ferimento nas costelas.

"Quero que todos os problemas e guerras fiquem para trás", disse Annette sobre a casa. "Ela deveria se tornar um símbolo de paz, felicidade e respeito."

Cécile acrescentou: "Especialmente respeito".

Ao longo de grande parte de suas vidas, o respeito foi escasso. Um fundo que deveria sustentá-las na velhice foi esgotado. Quando posteriormente foram devolvidas aos seus pais, as meninas foram maltratadas e, segundo elas, foram sexualmente abusadas pelo pai, Oliva. Como adultas idosas, elas processaram a província exigindo uma indenização por tê-las explorado e perdido o dinheiro delas. Quando finalmente foram pagas, a parte de uma das irmãs foi roubada pelo filho, que desapareceu.

Para North Bay, população de 54 mil habitantes, as quíntuplas trouxeram salvação econômica nos anos 30. Mas fora a casa de toras de madeira, um visitante procurará em vão por qualquer homenagem às quíntuplas, nem mesmo uma placa em parque.

A casa, assim como seus moradores, passou por muita coisa. Um dono de hotel a comprou em 1962 e a transferiu das terras da família, perto de Corbeil, um vilarejo fora de North Bay, para um ponto na estrada no extremo sul da cidade, onde foi aberta como museu. Quando foi ameaçada de venda em 1985, a pressão popular fez com que a cidade a comprasse a transferisse de novo, para um local operado pela Câmara de Comércio com um escritório para turistas e um lugar para trailers despejarem esgoto.

Há dois anos, a câmara disse à prefeitura que não tinha mais interesse em operar o local. A prefeitura fechou a casa e encontrou um comprador para as terras. Agora, sem interesse em usar dinheiro dos impostos para pagar por um museu, ela deseja se desfazer da casa.

"Acho que olhando para todas as coisas, incluindo o simples custo, porque nos custaria... nosso pessoal estimou que nos custaria 150 mil dólares (canadenses) por ano", disse o prefeito Al McDonald.

Ele acrescentou que quase ninguém notou quando o museu fechou em outubro de 2015. "Ninguém telefonou para dizer: 'Ei, por que não é mais possível entrar na casa?'" disse McDonald.

Ele disse que a prefeitura fez um pedido nacional para que grupos interessados assumissem o museu, mas apenas um se apresentou: uma sociedade agrícola que promove uma feira de outono em Sundridge, Ontário, população 961 habitantes. Assim, a prefeitura começou a trabalhar em um plano para transferir a casa para lá, doou os documentos nela para uma universidade local e enviou outros artefatos para um museu na antiga casa de Allan Roy Dafoe, o médico de Callender, Ontário, que fez o parto das quíntuplas e compartilhou a celebridade delas.

"Fiquei vendo isso e pensando: 'Isso é loucura, não pode acontecer, estão se livrando dela", disse Jeff Fournier, um colecionador de souvenires canadenses. "As pessoas achavam que a câmara cuidaria do assunto."

O debate dividiu a cidade. Miles Peters, que leu o apelo de Annette e Cécile Dionne ao conselho, era um amigo próximo de Mark King, o chefe do comitê que está decidindo o destino da casa, que é veemente que a cidade não tem como arcar com ela. Ambos dizem que a questão arruinou a amizade deles.

Peters me conduziu recentemente até as ruínas de Quintland para uma visita, a primeira dele. Temendo sequestradores, a província montava guarda em peso na instalação nos anos 30, e sua cerca de segurança ainda está lá, apesar do arame farpado no alto ter sido levado.

Descendo um barranco, coberto com tapumes de alumínio empenados e com parte de sua estrutura de madeira apodrecendo, fica o Hospital Dafoe, o berçário que foi lar das irmãs pelos primeiros nove anos de suas vidas. Pouco restou do playground onde as "Quints" eram exibidas para milhares de visitantes pagantes, que espiavam pelo alambrado de passarelas elevadas.

Apesar de ainda se ressentirem da forma como o governo as explorou, Annette e Cécile sorriem com a menção da Quintland.

"O paraíso", disse Annette sobre a instalação.

"Com certeza", concordou Cécile.

A malha do alambrado impedia que elas vissem os espectadores, mas ambas disseram que podiam ouvi-los e com frequência faziam graça para o público.

"Não era bom para as crianças serem exibidas daquela forma, brincando naturalmente e cientes de que outras pessoas estavam olhando", disse Cécile. "Era como se algo estivesse sendo roubado de nós."

A vida em Quintland era um tipo peculiar de paraíso. Um importante médico de um hospital pediátrico de Toronto dirigia o Dafoe e sua equipe criou as meninas de acordo com suas teorias rígidas. Apesar da família falar francês, elas foram criadas em inglês e não lhes era permitido quase nenhum contato com outras crianças, incluindo seus irmãos mais velhos e mais novos. Todo tipo de atividades comuns era transformado em eventos promocionais. Certo dia, disseram as irmãs, elas vestiram uniformes de bandeirantes, como se fossem se juntar à tropa, mas assim que foram fotografadas, os uniformes foram retirados.

Subindo o morro do berçário em ruínas fica uma imponente casa de tijolos amarela, atualmente usada como asilo para idosos. Os pais das Dionnes a construíram após recuperarem a custódia das quíntuplas quando tinham 9 anos, após uma longa batalha pública.

As irmãs não têm boas lembranças do lugar: a família delas, elas disseram, foi transformada pela repentina riqueza.

"Eles não nos tratavam como crianças. Éramos...", disse Annette. "Suas servas, escravas, não era humano", Cécile concluiu a sentença.

Quando chegaram aos 18 anos, a cinco irmãs foram estudar em Québec e se estabeleceram ali, ansiando por privacidade, mas ainda atraindo multidões em público e lutando para superar sua infância isolada e exibida.

Em 1998, duas das quíntuplas já tinham morrido, Émilie e Marie, e as três restantes, Annette, Cécile e Yvonne, estavam em grandes dificuldades financeiras. Elas processaram a província exigindo indenização. As autoridades inicialmente rejeitaram a reivindicação, mas após revolta da população, as irmãs receberam 4 milhões de dólares canadenses (cerca de US$ 3 milhões). Um dos filhos de Cécile pegou a parte dela e desapareceu do Canadá, sendo que ainda não foi encontrado. Yvonne morreu em 2001.

Cécile e Annette parecem resignadas com a possibilidade de a vida lhes dar mais uma decepção. Mas Annette disse que ainda espera que a casa possa servir como um alerta público.

"Acho que a permanência do museu em North Bay ajudará a evitar a tomada de decisões estúpidas, como a que fizeram conosco", ela disse. "Para que nunca mais se repita."

Olhando para ela, Cécile perguntou: "Você acredita nisso?"

"Oh, sim."

"Que bom para você", Cécile disse firmemente, olhando para baixo. "Não estou tão certa disso."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos