Coração de Trump falou mais alto sobre ataque na Síria

Mark Landler

Em Palm Beach (Flórida, EUA)

  • Casa Branca

    7.abr.2017 - O presidente Donald Trump se reúne com seu gabinete de segurança em Mar-a-Lago, na Flórida

    7.abr.2017 - O presidente Donald Trump se reúne com seu gabinete de segurança em Mar-a-Lago, na Flórida

As imagens eram de partir o coração: crianças sufocadas, lutando para respirar, as bocas espumando. Um pai dominado pela dor abraçando os corpos de dois filhos, enrolados em cobertores brancos. Mas elas também eram conhecidas, um retorno aterrorizante a 2013, quando o governo sírio desferiu o último grande ataque com gás tóxico contra sua própria população.
Desta vez, porém, um novo presidente americano estava vendo as imagens e absorvendo o horror.

O presidente Donald Trump sempre se orgulhou de sua rapidez para agir sob instinto, fosse nos negócios ou na TV-realidade. Na quinta-feira (6), um Trump emocionado assumiu o maior risco de sua jovem Presidência e ordenou um ataque retaliatório de mísseis à Síria, por causa de seu último ataque com armas químicas. Em 48 horas estonteantes, ele reverteu uma doutrina de política externa baseada em colocar os EUA em primeiro lugar e evitar conflitos complicados em terras distantes.

Os assessores de Trump enquadraram sua decisão na linguagem seca das normas internacionais e da dissuasão estratégica. Na verdade, foi um ato emotivo de um homem que de repente tomou consciência de que os problemas do mundo agora são seus --e de que virar as costas não era uma opção para ele.

"Vou lhes dizer", afirmou Trump a repórteres no Jardim das Rosas da Casa Branca na quarta-feira (5), "aquele ataque contra crianças ontem teve um grande impacto sobre mim, um grande impacto. Foi uma coisa horrível, horrível. E eu tenho visto isso, observado isso, e a coisa não poderia ser pior."

Aparecendo novamente na noite seguinte em sua propriedade na Flórida, Mar-a-Lago, Trump disse que o presidente sírio, Bashar al Assad, havia "sufocado a vida de homens, mulheres e crianças inocentes. Foi uma morte lenta e brutal para muita gente. Até lindos bebês foram cruelmente assassinados nesse ataque extremamente bárbaro. Nenhum filho de Deus deveria sofrer tal horror."

Foi difícil reconciliar o presidente angustiado com o crítico irritado do envolvimento dos EUA, que, do conforto da vida privada, aconselhou o presidente Barack Obama a não atacar a Síria depois de um terrível ataque de armas químicas a um subúrbio de Damasco, três anos atrás.

"Presidente Obama, não ataque a Síria", disse Trump no Twitter em setembro de 2013. "Não há lado positivo, e um tremendo negativo. Salve sua 'pólvora' para outro dia (mais importante)!"

Como candidato, Trump disse que forçar Assad a deixar o poder não era uma prioridade tão urgente para os EUA quanto vencer o Estado Islâmico no Iraque e na Síria. Ele afirmou, um tanto erroneamente, que sempre se opôs à guerra no Iraque. Criticou Obama e sua secretária de Estado, Hillary Clinton, por mergulhar insensatamente em confusões no estrangeiro, atraídos por um idealismo deslocado e a troca de interesses alheios pelos dos EUA.

Ataque químico mata civis na Síria

"Num dia estamos bombardeando a Líbia e livrando-nos de um ditador para promover a democracia para os civis", disse Trump durante seu principal discurso sobre política externa, em abril de 2016. "No dia seguinte estamos vendo os mesmos civis sofrerem enquanto seu país desmorona absolutamente. Vidas perdidas, um dinheiro enorme perdido. O mundo é um lugar diferente."

"Somos um país humanitário", continuou ele, "mas o legado das intervenções de Obama-Clinton será fraqueza, confusão e desordem, uma bagunça. Tornamos o Oriente Médio mais instável e caótico que nunca."

O contraste entre Trump e seu antecessor não poderia ser maior. Nos primeiros dias de sua Presidência, Obama defendeu a tese da responsabilidade moral dos EUA intervirem militarmente, sobre bases humanitárias. "A inação dilacera nossa consciência e pode levar a uma intervenção mais cara mais tarde", disse Obama, ao aceitar o Prêmio Nobel da Paz em 2009.

Quando a Síria caiu em uma guerra civil mortífera, porém, ele se concentrou mais nos custos da intervenção do que nos riscos da inação. Mesmo depois que as forças de Assad mataram centenas de pessoas em um ataque com gás tóxico, em agosto de 2013, Obama não concretizou a ameaça de um ataque com mísseis porque, segundo ele, não conseguiu que o Congresso o autorizasse.

A ação de Trump, apenas 77 dias após sua posse, dificilmente resolve a questão de quando ele poderá intervir em crises futuras. Ele não articulou os critérios para intervenções humanitárias e, mesmo que o fizesse, não está claro se manteria seus critérios mais que Obama.

Os assessores do presidente estavam claramente desconfortáveis com a sugestão de que Trump agiu impulsivamente.

"Eu não a considero absolutamente uma reação emocional", disse o secretário de Estado, Rex Tillerson. Ele afirmou que Trump reviu a decisão de Obama de não realizar o ataque e decidiu que os EUA "não poderiam mais uma vez dar as costas, fazer vista grossa".

Tillerson e o assessor de Segurança Nacional, tenente-general H.R. McMaster, expuseram um caso que pareceu estranhamente semelhante ao de Obama três anos antes, quando ele traçou sua fatídica "linha vermelha" contra o uso de armas químicas por Assad. Essas armas violam as regras da guerra e a Convenção de Armas Químicas, disseram. Permitir que a Síria as use com impunidade ameaça torná-las a norma e poderia encorajar outros a utilizá-las.

Os assessores do presidente descreveram um processo deliberativo com reuniões do Conselho de Segurança Nacional, opções militares apresentadas pelo Pentágono e um briefing secreto para Trump realizado sob uma tenda erguida em Mar-a-Lago para garantir as comunicações com Washington. Eles falaram sobre telefonemas aos aliados dos EUA, consultas a legisladores e o envolvimento diplomático que se seguiria aos mísseis de cruzeiro Tomahawk.

O que está claro, porém, é que Trump reagiu visceralmente às imagens da morte de crianças inocentes na Síria. E essa reação o levou a uma série de atos que mudarão o rumo de sua Presidência. O estilo improvisado de Trump às vezes parece inadequado à gravidade de seu cargo. Neste caso, ajudou-o a tomar a mais grave decisão que um comandante-em-chefe pode tomar.

"Agora eu tenho a responsabilidade, e terei essa responsabilidade e a portarei com muito orgulho, posso lhes dizer isso", declarou o presidente sobre a Síria na quarta-feira (5). "Agora é minha responsabilidade."
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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