Aos 16 anos, um ex-menino soldado tenta voltar para casa no Sudão do Sul

Jeffrey Gettleman

Em Bentiu (Sudão do Sul)

  • Tyler Hicks/The New York Times

O adolescente saiu do avião com duas pequenas pedras enfiadas nos ouvidos. Sua cabeça ainda doía por causa das surras, e ruídos fortes o incomodavam, mas ele não quis um tampão especial para os ouvidos, só aquelas duas pedrinhas.

Ele não tinha bagagem. Suas calças estavam sujas. Era do tamanho de um homem, mas com o olhar confuso de uma criança. Havia sido recrutado por uma milícia, capturado por soldados do governo, esmurrado, chutado, chicoteado e pisoteado.

E agora, após seis longos anos, estava voltando para casa.

Ao entrar em um caminhão da Unicef e escorregar pelos assentos em forma de banco ao fundo, ele parecia aterrorizado.

"Duop, você me escuta?", perguntou um funcionário da Unicef, usando o primeiro nome do menino. "Você vai ver sua mãe."

Duop olhou pela janela, e enquanto o caminhão sacudiu pela estrada esburacada ninguém mais disse uma palavra.

O Sudão do Sul, o país mais jovem do mundo, não se comportou do modo esperado, especialmente para suas crianças. Este país foi criado com uma aura de alegria em 2011, mas logo se partiu em uma guerra brutal, de caráter étnico, que queimou escolas, destruiu famílias, colocou milhares de crianças a carregar armas e desfigurou, mutilou e matou um número incalculável de outras.

Hoje o país é assolado pela penúria, e a fome tende a escolher os mais jovens. Durante a crise na Somália em 2011, mais da metade das 250 mil pessoas que morreram eram crianças de menos de 5 anos.

Como escreveu Heródoto há mais de dois milênios: em tempos de paz, as crianças enterram seus pais; em tempos de guerra, os pais enterram seus filhos.

Para o Sudão do Sul, não parece que os tempos de guerra irão terminar tão cedo. E mesmo que terminem haverá danos permanentes.

Duop tem cerca de 16 anos. Tem as mãos grandes, punhos finos, a cabeça raspada e um rosto oval com o queixo arredondado. Ele é do grupo étnico nuer, de uma aldeia no norte do país, perto da cidade de Bentiu, onde a savana é relativamente plana e os arbustos espinhosos e o capim-de-elefante áspero se estendem até o horizonte.

O calor aqui tem uma presença quase física. Às 9h já chega a 37 graus. Ao meio-dia, a 43. A luz do sol cega e é inclemente, pesada e perturbadora. Durante as horas mais quentes do dia, as pessoas se escondem embaixo das árvores.

Duop foi um menino soldado, entre os mais de 10 mil que portavam rifles no Sudão do Sul. Membros da Unicef dizem que os rebeldes e os militares do governo, que foram treinados pelos EUA, usam crianças soldados, algumas com menos de 10 anos, o que é crime de guerra sob a lei internacional.

Uma das razões pelas quais o sobrenome de Duop não é citado nesta reportagem é porque, segundo membros da Unicef, ele é testemunha de muitos crimes de guerra. Os soldados que ele viu cometendo essas atrocidades poderiam facilmente localizá-lo.

A experiência completa de Duop --e seu sofrimento-- são uma espécie de mistério. Sua família disse que soldados do governo o golpearam repetidamente na cabeça e chutaram seu rosto. Ele parece ter perdido quase toda a audição e a capacidade de falar. Também pode estar ouvindo vozes, segundo alguns funcionários da ajuda que se esforçam para fazê-lo sair de sua concha.

Esse pode ser outro motivo para as pedras nos ouvidos de Duop. Talvez ele esteja tentando evitar as vozes.

Às vezes, quando está sentado sozinho, ele ri de repente. Ou resmunga.

Segundo vários relatos de parentes, parece que Duop deixou a escola por volta dos 9 anos, saiu de casa, entrou para uma milícia rebelde, depois para o Exército do governo, desertou, tornou-se novamente rebelde, foi capturado, espancado e torturado pelos soldados do governo e então descartado. Tudo isso antes dos 17 anos, embora ninguém saiba exatamente quando é o aniversário.

O escritório da Unicef no Sudão do Sul tem um banco de dados de milhares de crianças que foram separadas dos pais, e no caso de Duop ele teve sorte, considerando tudo por que passou. Em dezembro, um homem idoso o encontrou muito ferido, andando perto de uma base do Exército próxima a Juba, a capital do Sudão do Sul. O idoso o levou até um grande campo de pessoas desalojadas, onde a Unicef começou a tentar descobrir quem ele era.

"Ele não falou durante semanas", disse James Elder, um porta-voz da Unicef. "Lembro que depois de vários dias ele retribuía um sorriso, ou, ao ver uma arma, mostrava uma careta."

Fazia seis anos que a mãe de Duop não o via. Após diversas visitas a sua aldeia, a Unicef a localizou e a levou ao campo de desalojados em Bentiu, o único lugar seguro para eles se reunirem.

Quando Duop saiu do caminhão, lágrimas escorreram pelo rosto de sua mãe. Mas a cultura nuer manda que ela não deveria tocá-lo antes que ele fosse purificado. Então era preciso fazer um sacrifício. Uma tia saiu andando pelo campo, falando algo sobre um bode.

O campo de Bentiu, como todos esses acampamentos, é miséria em alta concentração. Imagine uma cidade térrea com 120 mil habitantes, fileiras e fileiras de barracas cobertas de poeira, dispostas em uma trama de caminhos de cascalho e ângulos retos, algo irremediavelmente desesperado na geometria perfeita que parece se estender por quilômetros.

As pessoas ficam aqui por dois motivos. Elas têm medo de ser mortas acidentalmente em um fogo cruzado entre o governo e os rebeldes, que lutam constantemente bem próximo de Bentiu. Ou temem ser mortas propositadamente por forças do governo. Quase todo mundo no acampamento de Bentiu é nuer, e o governo do Sudão do Sul, especialmente os militares, é dominado por membros da tribo dinka.

Foi uma luta de poder entre nuers e dinkas que deu início à guerra em 2013, dois anos depois de o Sudão do Sul se tornar independente do Sudão. Uma boa parte de Bentiu foi incendiada. Recentemente, a luta envolveu muitos outros grupos étnicos, abrangendo novas áreas do país e pondo em xeque a própria integridade do Sudão do Sul.

Um pequeno bode branco foi encontrado, afinal. Sua garganta foi cortada, o sangue se esparramou pelo chão. Os parentes de Duop tentavam parecer muitos felizes. Alguns cantavam e dançavam.

Mas outros murmuravam entre si: Você acha que ele está entendendo? Ele conseguirá trabalhar? Será que os médicos podem ajudá-lo?

O campo tem um pequeno hospital, mas autoridades da Unicef disseram que no Sudão do Sul não há o especialista de que Duop precisa.

Duop se sentou em um catre na barraca de sua tia e ficou ali sob a meia-luz empoeirada. Um por um, seus parentes apareceram diante dele. Vários disseram que depois que ele deixou sua casa, anos atrás, pensaram que jamais voltaria.

Eles esfregaram os músculos de seus braços, tocaram seus ouvidos, olharam fixamente para seu rosto. Um grupo de mulheres ficou a alguns metros de distância e ululou, e não poderia haver maior contraste entre as vozes animadas e apaixonadas e o olhar perdido no rosto de Duop.

De certa forma, disseram os parentes, era como se ele tivesse voltado dos mortos.

"Mas ele não é o mesmo", disse sua tia. "Está deformado."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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