Por que você não deveria andar nas escadas rolantes?

Christopher Mele

  • Luis Carlos de Santana/Divulgação/BBC

O trem para na Estação Pennsylvania no horário de pico da manhã, as portas se abrem e você entra na fila para as escadas rolantes.

Você vai para a esquerda e sobe a pé a escada, pensando que está ganhando preciosos segundos, além de fazer um pouco de exercício.

Mas os especialistas são unânimes: você está agindo errado, ao tirar vantagem às custas da segurança de outros passageiros. Ficar parado na escada rolante lado a lado com outra pessoa é a melhor abordagem.

Pode parecer contraintuitivo, mas pesquisadores dizem que é mais eficiente se ninguém anda na escada rolante.

Para que fique claro, isso não é melhor para a escada rolante em si, embora a questão tenha sido alvo de controvérsia.

A questão do parado versus andando veio à tona recentemente em Washington, D.C., depois que o gerente-geral da companhia de metrô, Paul Wiedefeld, disse que a prática de andar na esquerda e permanecer parado na direita —como especificado nas regras de conduta do metrô— poderia danificar a escada rolante. A empresa fabricante de escalas rolantes Otis disse que isso não era verdade, segundo noticiado por uma afiliada da NBC, e Wiedefeld esclareceu que ficar em dois lado a lado seria mais seguro e reduziria as chances de queda se todos fizessem isso.

A Otis, por sua vez, disse em um comunicado que sua posição é há muito tempo de que os passageiros não deveriam andar nas escadas rolantes, por questões de segurança.

"As regras e os padrões variam de acordo com cada jurisdição, mas nossa recomendação é que os passageiros subam na escada rolante, segurem o corrimão e permaneçam atentos", escreveu a empresa.

O metrô [de Washington] não é a primeira operadora de transporte coletivo que tenta abordar essa questão.

No ano passado, o metrô de Londres promoveu um experimento na Estação Holborn, uma das mais movimentadas de Londres, com mais de 56 milhões de passageiros por ano e escadas rolantes com 24 metros de altura.

O plano? Mudar o comportamento dos passageiros e fazer com que eles ficassem lado a lado parados, e não andando, nos períodos de pico.

O metrô de Londres havia concluído que em estações com escadas rolantes acima de 18,5 metros, boa parte do lado esquerdo ficava ocioso, causando filas e obstruções no começo da escada. O metrô de Londres fez uma campanha para que se preenchessem os espaços vazios com pessoas, em vez de deixar o lado esquerdo de cada degrau livre, exceto por aqueles que optassem por andar.

Um experimento realizado em 2015 na estação revelou que ficar parado em ambos os lados de uma escada rolante reduzia o congestionamento em cerca de 30%.

Consultores da Capgemini Consulting de Londres exploraram a questão da eficiência ao se auto-cronometrarem ao longo de vários dias andando e ficando parados em uma escada rolante na estação Green Park, e depois lançando esses dados em modelos computacionais.

Eles descobriram que subir andando a escada rolante levava 26 segundos, em comparação com ficar parado, que levava 40 segundos. No entanto, o "tempo no sistema" —ou quanto tempo se levava para permanecer na fila para chegar até uma escada rolante e então ficar parado nela— caía bruscamente quando todos ficavam parados, de acordo com uma postagem de blog feita pelos pesquisadores.

Quando 40% das pessoas andavam, o tempo médio para os que ficavam parados era de 138 segundos e de 46 segundos para os que andavam, de acordo com seus cálculos. Quando todos ficavam parados, o tempo médio caía para 59 segundos. Para os que andavam, isso significava perder 13 segundos, mas para os que ficavam parados era uma melhora de 79 segundos.

Os pesquisadores também descobriram que o comprimento da fila para chegar até uma escada rolante e embarcar nela caía de 73 para 24 pessoas.

E por que os resultados melhoram quando todos ficam parados?

"Aqueles que ficam parados do lado direito tendem a ocupar degraus intercalados, de dois em dois, enquanto aqueles que andam tendem a ocupar três degraus por pessoa, o que desperdiça espaço", escreveram os consultores Shivam Desai e Lukas Dobrovsky.

Então todos deveriam ficar parados em uma escada rolante em vez de andar porque o bem de todos deve vir primeiro, certo?

Os especialistas dizem que, pelo menos nos Estados Unidos, isso é muito difícil de acontecer.

Jeanine L. Skorinko, professora de psicologia no Instituto Politécnico de Worcester em Massachusetts, disse por e-mail que as pessoas, especialmente os americanos, gostam de manter maior distância entre si e estranhos "e preferem ficar um degrau abaixo deles ou passar por eles andando".

"É por isso que as pessoas colocam bolsas nos assentos ao lado delas no trem, para que outras pessoas não se sentem perto delas", ela acrescenta.

Seria difícil convencer as pessoas de que "todos sairiam ganhando" se todas elas simplesmente ficassem paradas na escada rolante, diz Curtis W. Reisinger, um psicólogo do Zucker Hillside Hospital em Glen Oaks, Nova York.

"No geral não acredito muito que o senso de altruísmo das pessoas possa superar seu senso de urgência e de imediatismo em uma grande área metropolitana, onde as demandas por velocidade e eficiência são altas", ele escreveu por e-mail.

Sam Schwartz, ex-comissário de tráfego da prefeitura de Nova York e professor convidado de transportes na Hunter College, diz que a natureza competitiva das pessoas tende a superar a lógica e a ciência.

"Nos Estados Unidos, o interesse próprio domina nosso comportamento nas estradas, em escadas rolantes e em qualquer lugar onde haja um problema de lotação", ele escreveu por e-mail. "Não acredito que os americanos tenham mais algum modo de racionalidade (se é que eles já tiveram algum dia)".

Tradutor: UOL

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