A nova doutrina de Trump para os EUA é clara: não siga uma doutrina

Peter Baker

Em Washington (EUA)

  • AP Photo/Alex Brandon

Enquanto enfrentava uma série de desafios internacionais do Oriente Médio à Ásia na semana passada, o presidente Donald Trump deixou claro que não há nada definido em sua política externa. Na medida em que está surgindo uma doutrina Trump, parece ser esta: não se deixe amarrar por nenhuma doutrina.

Em uma semana em que hospedou chefes de Estado estrangeiros e lançou um ataque de mísseis contra o governo da Síria, Trump desprezou o próprio dogma e obrigou outros líderes mundiais a reavaliarem suas suposições sobre como os EUA irão liderar nesta nova era. Ele demonstrou uma abordagem altamente improvisada e casual que poderá injetar uma arriscada imprevisibilidade nas relações com potenciais adversários, mas também abriu a porta para um envolvimento americano mais tradicional com o mundo, o que atenua os temores dos aliados.

Como cidadão privado e candidato, Trump passou anos afirmando que a guerra civil na Síria não era um problema dos EUA, que a Rússia devia ser uma amiga e que a China era uma "inimiga" cujos líderes não deveriam ser convidados para jantar. Como presidente, Trump, no espaço de alguns dias, envolveu os EUA mais diretamente na confusão da Síria, abriu uma nova rixa acrimoniosa com a Rússia e convidou o líder chinês para um jantar muito amistoso em sua propriedade na Flórida.

No processo, Trump também inverteu a política interna. Ele rejeitou a ala nacionalista de sua própria Casa Branca, liderada por Stephen Bannon, seu principal estrategista, que se opõe ao envolvimento nos conflitos no Oriente Médio além do combate ao terrorismo e defende medidas comerciais punitivas contra Pequim. E, ao lançar o ataque na Síria, aliada da Rússia, calou os críticos que o pintaram como um candidato traidor, que faria o jogo do presidente Vladimir Putin depois que o Kremlin interveio em seu favor na eleição do ano passado.

Diante de sua imprevisibilidade, nada disso significa que Trump tenha atuado de modo permanente em nenhuma dessas áreas. A Casa Branca preparou um decreto executivo que o presidente poderá assinar nos próximos dias visando países como a China, que despejam aço no mercado americano. E Trump enviará nesta terça-feira (11) seu secretário de Estado, Rex Tillerson, a Moscou, onde ele terá a tarefa adicional de tentar abrandar o rancor dos últimos dias, além de explorar se a Rússia poderá ser um parceiro real no combate ao Estado Islâmico na Síria.

"Nossas decisões", disse Trump em seu discurso no sábado (8), "serão conduzidas por nossos valores e nossos objetivos --e rejeitaremos o caminho da ideologia inflexível que muitas vezes leva a consequências indesejáveis."

Esse conceito --flexibilidade-- parece chave para se compreender Trump. Ele detesta sentir-se preso, como ponderou na semana passada no Jardim das Rosas enquanto contemplava a primeira nova operação militar de sua Presidência com consequências geopolíticas.

"Eu gosto de pensar em mim mesmo como uma pessoa muito flexível", disse ele a repórteres. "Não preciso ter um caminho específico." Trump deixou claro que aprecia a imprevisibilidade. "Não gosto de dizer aonde vou e o que vou fazer", disse.

Essa flexibilidade foi um símbolo de sua ascensão no ramo imobiliário, e se os críticos preferiam a palavra "errático", ou "inconstante", não incomodavam Trump --isso funcionou bem o suficiente para projetá-lo à Casa Branca. Mas agora que ele é o comandante-em-chefe da nação mais poderosa do mundo líderes de toda parte tentam detectar qual é seu método.

"Não há uma doutrina emergente para a política externa de Trump em um sentido clássico", disse Kathleen Hicks, uma ex-funcionária do Pentágono que hoje está no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. "Há, entretanto, claras características emergentes coerentes com os atributos do homem em si: imprevisível, instintivo e indisciplinado."

Sobre a Síria, Trump zombou do presidente Barack Obama por definir uma "linha vermelha" contra o uso de armas químicas e lhe pediu para não lançar um ataque punitivo contra a Síria depois que Assad a cruzou em 2013. Esse ataque, em que morreram 1.400 pessoas, foi muito pior que o da semana passada, que deixou 84 mortos. E dias antes do ataque da última semana Tillerson indicou que Washington aceitaria que Assad continue no poder.

De fato, críticos, como o senador republicano Marco Rubio, da Flórida, afirmaram que Assad se sentiu à vontade para lançar o ataque químico exatamente porque o governo Trump lhe havia dado a luz verde. A Rússia, acrescentaram os críticos, não restringiu Assad porque ele tinha um cheque em branco de um governo Trump excessivamente amistoso. E os esforços de Trump para barrar os refugiados sírios nos EUA, diziam eles, enviaram um sinal de que Trump não se importa com eles.

"O presidente Trump parece não ter pensado direito sobre nada disso, ou ter algum tipo de estratégia mais ampla, mas sim ter lançado um ataque militar com base em uma decisão repentina e emocional", escreveu em um artigo para The Huffington Post no sábado o senador democrata Christopher Murphy, de Connecticut.

A ação de Trump na Síria foi bem recebida por muitos aliados tradicionais dos EUA que criticavam a hesitação de Obama em assumir um papel maior de liderança no Oriente Médio e temiam que Trump recuasse ainda mais. Depois do ataque de mísseis, a mídia israelense se encheu de manchetes como "Os americanos voltaram", e líderes europeus manifestaram alívio por ele ter agido e também por não ter ido longe demais.

"Aprendemos que Trump não é tão isolacionista quanto muitos europeus temiam que fosse --ele parece se importar com as vítimas de um ataque com gás na Síria", disse Charles Grant, diretor do Centro para Reforma Europeia, em Londres. "Aprendemos que ele entende que a influência dos EUA foi prejudicada pela percepção --que cresceu com Obama-- de que era uma potência enfraquecida por sua relutância em usar a força."

Isso toca em outro fator animador enquanto Trump lida com desafios no estrangeiro --fazer o oposto do que Obama fez. O primeiro instinto de Trump depois do ataque químico da Síria foi acusar Obama de não pôr em prática sua linha vermelha, apesar de Trump ter pedido que ele não o fizesse na época. Enquanto anunciava o ataque de mísseis na noite do dia 6, Trump afirmou que a política de seu antecessor para a Síria havia "falhado muito drasticamente".

De modo intencional ou não, Trump adotou uma linguagem semelhante à usada por Obama e muitos outros presidentes para definir as prioridades americanas. Embora no passado Trump tenha dito que os EUA não têm um interesse nacional na Síria, na semana passada ele afirmou que a instabilidade lá estava "ameaçando os EUA e seus aliados".

Ele também disse que "a América representa a justiça", efetivamente assumindo a responsabilidade por agir em casos de abusos dos direitos humanos, como fizeram outros presidentes às vezes.

Até agora, Trump evitou de modo geral essa linguagem. Apenas três dias antes, ele havia recebido o autoritário presidente egípcio, Abdel-Fattah el-Sissi, e não mencionou em público as milhares de pessoas que o governo do Cairo prendeu na repressão política.

"O que me surpreende é um distanciamento sutil mas claro da retórica do puro interesse próprio americano estreitamente definido, como defendeu o candidato Donald Trump", disse Robert Danin, um ex-negociador para o Oriente Médio que hoje está no Conselho de Relações Exteriores. "O que surgiu é uma nova linguagem de liderança americana no mundo que ainda não tínhamos ouvido do presidente Trump."

Grant e outros comentaram que o ataque, ocorrido enquanto Trump jantava com Xi, poderia repercutir na Ásia também, deixando a Coreia do Norte a se perguntar se o presidente poderia recorrer à força para deter seu desenvolvimento de mísseis balísticos.

Mas Hicks disse que a flexibilidade --ou imprevisibilidade-- de Trump era em si mesma "extremamente arriscada". Se outros países não podem prever acuradamente o que o presidente americano fará, disse ela, eles podem agir precipitadamente, citando o exemplo da China estender suas reivindicações marítimas no mar do Sul da China.

"Imagine se Donald Trump adotasse a exceção de maneiras que eles não previssem e se seguissem grandes guerras", disse ela. "Linhas claras, derivadas de interesses claros e bem aplicadas, são geralmente melhores, e não penso que Donald Trump goste de ser restrito por linhas claras."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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