Ataque americano à Síria aumenta incerteza em terra

Karam Shoumali e Ben Hubbard

Em Istambul

  • Robert S. Price/U.S. Navy via REUTERS

Seis anos de guerra na Síria destruíram a vida de Ebrahim Abbas, 27. Um técnico de computador, Abbas foi detido por protestar contra o governo sírio. Depois, foi sitiado em sua cidade natal, ferido por um tiro no estômago e viu seu irmão morrer em um ataque de granada. Ele escapou, mas seu pai, que era diabético, morreu mais tarde por falta de medicamento; sua mãe foi morta por um franco-atirador.

Foi de seu refúgio na Turquia que Abbas soube da decisão do presidente Donald Trump de lançar 59 mísseis de cruzeiro contra uma base aérea síria, para punir o presidente Bashar al Assad por um ataque com armas químicas. Ele gostou.

"Ver uma potência mundial vingar-se pelos civis contra o regime sírio me deu um sopro de esperança e me deixou um pouco mais otimista", disse Abbas.

Mas o ataque não trará de volta tudo o que ele perdeu, nem o ajudará a voltar para casa logo. Em um sinal de como a guerra está acirrada, houve novos ataques aéreos no domingo (9) na cidade visada pelos ataques químicos, com pelo menos uma pessoa morta, segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos.

O ataque à base aérea foi a intervenção militar mais direta e deliberada dos EUA contra as forças de Assad desde o início da guerra. Trump disse que lançou os ataques porque ficou comovido pelas imagens de mulheres e crianças sufocadas pelo gás tóxico.

"Foi uma coisa terrível, terrível", disse ele a jornalistas depois do ataque químico. "Eu vi aquilo, eu assisti, e não podia ser pior."

Enquanto o ataque de quinta-feira (6) parecia destinado a limitar as chances de retaliação, porém, Trump não apresentou propostas para encerrar a guerra ou atenuar o enorme sofrimento humano que ela já causou, enviando sírios em fuga por todo o mundo.

Yasmine Mashaan, uma técnica de farmácia da cidade de Mussahan, no leste da Síria, que perdeu vários irmãos no conflito, disse que o ataque provavelmente não mudará muita coisa para ela e sua família. E duvida dos motivos de Trump.

"Seria ótimo se ele continuasse, no sentido de salvar mais civis ou estabelecer uma zona de segurança, mas depois de seus discursos racistas e suas políticas contra os refugiados acho que o ataque é mais para ganhar popularidade", disse Mashaan, que está na Alemanha depois de fugir para lá com sua família. "Mas, a julgar pela rapidez com que ele interveio na Síria e como [o ataque] foi poderoso, talvez dê algum resultado."

O número de pessoas afetadas pelo conflito é estarrecedor. O que começou como um levante em 2011 escalou para uma guerra civil quando manifestantes pegaram em armas para reagir à repressão do governo e tentar derrubá-lo.

Com o tempo, países como EUA, Turquia e Arábia Saudita apoiaram os rebeldes, enquanto Rússia e Irã ajudaram Assad. Conforme o caos se disseminou, grupos extremistas ganharam terreno. A Al Qaeda se infiltrou no movimento rebelde, enquanto os jihadistas do Estado Islâmico ocuparam território que se estendeu até o Iraque.

Hoje mais de 400 mil pessoas foram mortas, um número equivalente à população de Oakland, na Califórnia. Muitas mais ficaram feridas.

A metade da população da Síria antes da guerra --22 milhões-- fugiu de suas casas, número próximo da população da Bélgica. Cinco milhões deles estão refugiados no exterior, segundo a ONU. A maioria está na Turquia, na Jordânia e no Líbano, onde 70% vivem com menos de US$ 4 por dia (R$ 12), menos que o custo de alguns cafés na Starbucks.

Jan Egeland, secretário-geral do Conselho Norueguês de Refugiados, que faz operações de ajuda na Síria, disse que não podia comentar o ataque dos EUA, mas que "eles não resolvem nenhuma de minhas prioridades urgentes".

Para que a situação humanitária melhore, os trabalhadores de assistência precisariam de mais postos de fronteira para levar ajuda ao país, garantias de que as forças aéreas e de terra não atacarão os hospitais e melhor acesso a comunidades sitiadas e em sofrimento, incluindo quase 400 mil pessoas a menos de uma hora de carro de Damasco, a capital síria.

Mesmo alguns sírios que aprovaram o ataque perguntaram por que, depois de toda a brutalidade da guerra, foi o ataque químico da última semana que provocou a demonstração de força contra Assad.

"É claro que as armas químicas são de destruição em massa", disse um médico no leste de Damasco que tratou vítimas do primeiro grande ataque químico na Síria, em 2013. Ele falou sob a condição do anonimato por temer represálias do governo. "Mas e os sítios? E matar as crianças? Não é errado as crianças crescerem sem conhecer Tom e Jerry? Sem conhecer chocolate?"

O presidente Barack Obama não reagiu militarmente a um ataque químico em 2013, apesar de ter chamado o uso dessas armas de "linha vermelha". Desde então, o médico viu o mundo seguir adiante enquanto o cerco a sua área endureceu, disse ele pelo Skype, acrescentando que aprendeu a viver com menos eletricidade, menos combustível, menos água potável e menos comida.

"Estamos vivendo como povos antigos, que dependiam de si próprios, que usavam madeira para fazer fogo", explicou. "É uma vida dura."

Ele esperava mais dos EUA e seus aliados depois do ataque de 2013, o que segundo ele seria "uma posição adequada para o mundo livre". Mas o resultado foi um acordo, mediado pela Rússia, para que Assad entregasse as armas químicas.

"A solução para o crime foi um acordo para tirar as armas, mas deixar o criminoso", disse o médico.

O ataque dos EUA o deixou mais otimista de que Trump intervirá com mais força que Obama.

"Trump é uma caixa fechada que começou a se abrir", disse ele. "Logo veremos o que há lá dentro."

Segundo monitores do conflito, as forças de Assad e seus aliados causaram o grosso das mortes na guerra com suas armas avançadas, mas as comunidades leais a Assad também pagaram um alto preço.

Dezenas de milhares de soldados sírios foram mortos, e minorias religiosas, secularistas e outros que veem Assad como símbolo de uma Síria unificada continuaram a lutar, por medo de serem erradicados se rebeldes islâmicos tomarem conta do país.

Outros tiveram de enfrentar o governo e os jihadistas.

Mashaan, a técnica de farmácia, disse que os problemas de sua família começaram quando ela tentou conter um oficial de segurança que espancava seu irmão durante um protesto. O policial bateu nela e quebrou seu braço.

Conforme a rebelião se espalhou, Mashaan, 36, e seus cinco irmãos aderiram. Logo eles e o marido dela foram presos e torturados; alguns voltaram com as unhas arrancadas, disse ela.
Então eles começaram a morrer.

Mashaan contou que um foi morto quando forças de segurança dispararam contra uma manifestação. Outro foi atingido em sua casa por um atirador. Outro desapareceu; mais tarde ela reconheceu seu rosto em uma pilha de fotos de corpos retirados de uma prisão perto de Damasco.

Conforme a violência se espalhou, a família de Mashaan fugiu para um campo de refugiados na zona rural, mas logo ele foi tomado por uma nova força na região: os jihadistas do Estado Islâmico. Eles mataram seu irmão mais moço e aproveitaram o treinamento médico dela obrigando-a a trabalhar em uma clínica, disse Mashaan.

Mais tarde a família fugiu para um campo de refugiados do outro lado da fronteira, na Turquia, onde viveu até que o marido de Mashaan e seu último irmão aderiram à migração para a Europa. Eles pagaram a contrabandistas para que os levassem à Grécia em botes de borracha e conseguiram chegar à Alemanha, onde ela e seus cinco filhos os encontraram no ano passado.

Viver na Alemanha é duro, explicou ela em uma conversa no Facebook, em sua nova casa. Não falar a língua dificulta registrar as crianças, e muitos alemães se recusaram a alugar moradias para sua família porque eram refugiados, disse Mashaan.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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