Ataques a igrejas no Egito minam promessa de segurança do presidente antes da visita do papa

Magdy Samaan e Declan Walsh*

Em Tanta (Egito)

  • Mohamed Abd El Ghany / REUTERS

Sacudindo um país que já está lidando com uma economia em dificuldades e um mal-estar político cada vez mais profundo, os dois atentados a bomba suicidas que mataram 44 pessoas em igrejas coptas no Egito, no Domingo de Ramos, levantaram o espectro de um maior derramamento de sangue sectário liderado pelos militantes do Estado Islâmico.

Os ataques representaram uma das violências mais mortíferas contra cristãos no Egito em décadas e um desafio à autoridade do líder do país, o presidente Abdel-Fattah el-Sissi, que declarou prontamente estado de emergência por três meses.

A segurança é a principal promessa de Sissi, um homem-forte que retornou na sexta-feira de uma triunfante visita aos Estados Unidos, onde o presidente Donald Trump o saudou como um baluarte contra a violência islâmica. Trump deixou claro que estava disposto a ignorar o histórico de detenções em massa, tortura e execuções extrajudiciais durante o governo de Sissi em prol de sua habilidade de combater o Estado Islâmico e defender a minoria cristã.

No domingo, Sissi se viu de volta à defensiva, posicionando tropas para proteção de igrejas por todo o país semanas antes da visita planejada pelo papa Francisco. Sissi correu para assegurar às minorias cristãs, que tradicionalmente são suas principais apoiadoras e agora temem que ele não pode protegê-las dos extremistas.

"Eu não direi que os que morreram são cristãos ou muçulmanos", disse Sissi em um discurso exibido pela televisão na noite de domingo. "Eu direi que são egípcios."

Um ataque no domingo atingiu a Catedral de São Marcos, sede da Igreja Copta em Alexandria, onde o homem-bomba explodiu na entrada da igreja enquanto o patriarca copta, o papa Tawadros 2º, conduzia a missa de Domingo de Ramos no interior.

O outro ataque ocorreu na cidade de Tanta, no delta do Nilo, onde o homem-bomba conseguiu passar pela segurança e chegar até os bancos da frente da igreja, onde explodiu, transformando uma celebração religiosa de alegria em uma cena macabra de derramamento de sangue e morte.

O Estado Islâmico, que reivindicou a responsabilidade pelos ataques por meio de sua agência de notícias "Aamaq", sinalizou em dezembro sua intenção de aumentar os ataques aos cristãos quando um atentado a bomba suicida, contra uma grande igreja no Cairo, matou pelo menos 28 pessoas. Em fevereiro, centenas de cristãos fugiram de suas casas no norte do Sinai, após uma campanha orquestrada de assassinatos e intimidação na região.

Apesar de Sissi já ter aumentado a segurança nas igrejas, os atentados de domingo ressaltam a dificuldade de impedir ataques suicidas. Além disso, acentuou o fracasso das poderosas agências de inteligência do Egito em antecipar uma onda coordenada de ataques devastadores.

A explosão em Tanta, a cerca de 80 km ao norte do Cairo, ocorreu na Igreja de São Jorge, onde as autoridades já tinham selado a entrada principal para prevenir ataques. O homem-bomba conseguiu driblar as medidas de segurança, incluindo um detector de metais, em uma das portas laterais, e detonou a si mesmo perto do altar. Pelo menos 27 pessoas foram mortas e 78 outras foram feridas, disseram as autoridades.

Crianças, seus pais e diáconos (cristãos leigos que ajudam na missa) estavam entre muitos dos mortos.

Horas depois, os parentes das vítimas permaneciam em silêncio do lado de fora do necrotério da cidade, aguardando para identificação e retirada dos restos mortais de seus entes queridos. O reverendo Daniel Maher, o padre que estava realizando a missa, ainda usava suas vestes manchadas de sangue. O padre disse que não se feriu no ataque, mas que perdeu seu filho, Bishoy, que se casaria neste ano.

"O que posso dizer? Graças a Deus", ele disse, com voz embargada.

Ao lado do padre, uma mulher jovem estava sentada na calçada, chorando enquanto um grupo de mulheres tentava confortá-la. "Deus, o que ele fez para merecer isso?" ela perguntava, lamentando a perda de seu ente querido.

O segundo ataque ocorreu pouco mais de duas horas depois na cidade costeira de Alexandria, onde um homem-bomba tentou entrar na Catedral de São Marcos.

Vídeos de segurança, exibidos posteriormente em um canal de televisão privado egípcio, mostraram um homem vestindo uma jaqueta volumosa, sendo direcionado a um detector de metais na entrada da igreja, onde parou para ser revistado por um policial. Um instante depois, ocorreu a detonação. Pelo menos 17 pessoas morreram, incluindo o chefe de polícia local e um policial, e outras 48 pessoas ficaram feridas, segundo o Ministério da Saúde.

O papa Tawadros, que deverá se encontrar com o papa Francisco durante sua visita ao Egito no final deste mês, não se feriu na explosão. Ele posteriormente emitiu uma declaração dizendo que "esses atos não ferirão a unidade e coesão do povo".

Os cristãos correspondem a cerca de 10% dos 90 milhões de habitantes do Egito, cuja maioria é muçulmana sunita, e há muito se queixam de discriminação e violência esporádica perpetrada por extremistas. Os líderes cristãos foram fortes apoiadores de Sissi após a chegada dela ao poder em 2013, quando os militares derrubaram o presidente eleito, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana.

Muitos cristãos veem Sissi como seu defensor, mas os eventos de domingo ressaltaram quão difícil é para ele cumprir essa promessa, e levantam questões urgentes sobre os arranjos de segurança para a visita de Francisco em 28 e 29 de abril.

Enquanto peritos reviravam os escombros ensanguentados nos locais das duas explosões, autoridades de segurança encontraram e desarmaram artefatos explosivos em outros locais em Alexandria e Tanta, noticiou a mídia estatal. Dois artefatos foram encontrados na Mesquita Sidi Abdel Rahim, em Tanta, lar de um dos mais famosos templos muçulmanos sufi na cidade, e outro foi encontrado no Collège Saint-Marc, uma escola apenas para meninos no centro de Alexandria.

Horas depois, El-Sissi convocou uma reunião do Conselho Nacional de Defesa, que inclui o primeiro-ministro e comandantes das forças armadas egípcias, em resposta aos atentados. Ele então declarou três meses de estado de emergência, apesar de não ter ficado imediatamente claro que poderes extraordinários ele exigiu, dado que seu governo já conta em grande parte com poderes irrestritos, já tendo preso ou exilado milhares de oponentes políticos e comandar um Parlamento dominado por seus apoiadores.

Em seus discursos pela televisão, El-Sissi indicou que cobertura pela mídia dos ataques que possa embaraçar sua autoridade poderia ser restringida. "O discurso pela mídia precisa ser responsável", ele disse. "Não é aceitável que o incidente seja exibido repetidamente pelas emissoras de televisão o dia todo."

Os egípcios estão acostumados a medidas como essas. O país esteve oficialmente sob estado de emergência durante todos os 30 anos de governo de Hosni Mubarak e, de novo, por três meses em 2013.

Quando Francisco chegar ao Egito, ele encontrará um país onde o Estado Islâmico está buscando fincar uma cunha entre o Islã e o cristianismo.

O pontífice ofereceu suas condolências aos coptas e a todos os egípcios, e em sua declaração em Roma ele se referiu ao patriarca copta como seu "irmão". A visita do papa ao Egito é considerada como o mais recente passo no longo esforço para forjar laços mais fortes entre a Igreja Católica Romana e os líderes muçulmanos.

As relações se tornaram tensas em 2011 quando o antecessor de Francisco, Bento 16, condenou o que chamou de "uma estratégia de violência tendo os cristãos como alvo", após um atentado a bomba em uma igreja em Alexandria ter matado pelo menos 23 pessoas.

Francisco tem buscado reconstruir os laços com os clérigos muçulmanos desde que se tornou papa em 2013. E no ano passado ele recebeu no Vaticano o xeque Ahmed el-Tayeb, o grão-imã de Al-Azhar, uma mesquita e universidade de 1.000 anos que é reverenciada pelos muçulmanos sunitas.

No Egito, o pontífice fará uma visita a Sissi, à liderança da Igreja Ortodoxa Copta e ao grão-imã.

O grão-imã condenou os ataques de domingo como "atentados a bomba terroristas desprezíveis visando a vida de inocentes".

Para muitos cristãos, entretanto, os ataques no início da Semana Santa antes da Páscoa são um prenúncio de coisas piores por vir.

"Acho que as pessoas não apenas terão medo de estar dentro de uma igreja, como também de passarem perto de uma agora", disse Mina Mansy, um proeminente ativista de direitos cristãos. "Isso continuará acontecendo porque o Estado não está interessado em proteger os cristãos, ou qualquer outra pessoa. A única função da polícia é esmagar os oponentes políticos. Eles não se importam com terroristas reais."

*Nour Youssef, em Gouna (Egito), contribuiu com reportagem.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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