George W. Bush rompe o silêncio e tenta ajudar a África na luta contra epidemias

Gardiner Harris

Em Windhoek (Namíbia)

  • Mike Hutchings/Reuters

    O ex-presidente George W. Bush posa com crianças em escola de Botsuana

    O ex-presidente George W. Bush posa com crianças em escola de Botsuana

Em uma desolada sala de espera de um hospital, meia dúzia de mulheres infectadas pelo HIV contaram que conseguiram ter bebês saudáveis graças a medicamentos comprados com dinheiro dos EUA.

Uma das mães queria saber se poderá continuar contando com a compaixão americana, pergunta que um visitante, o ex-presidente dos EUA George W. Bush, apressou-se a responder.

"Um dos motivos pelos quais viemos aqui é que queremos que a população de nosso país compreenda como este programa é eficaz", respondeu Bush por meio de um intérprete. "Onze milhões de pessoas que estão vivas hoje não estariam."

Enquanto o Congresso dos EUA ruma para um duro embate sobre financiamento, neste mês, Bush esteve na África na semana passada para divulgar um programa de ajuda de US$ 6,8 bilhões que fez muito para salvar o futuro do continente e também para reabilitar a imagem dele.

Em visitas a clínicas e escolas em Botsuana e na Namíbia, Bush afirmou que o Plano de Emergência do Presidente para Ajuda à Aids (Pepfar na sigla em inglês), que ele criou em 2004, deverá não apenas continuar combatendo a crise da Aids na África, como também expandir sua ação à mortal e evitável epidemia de câncer cervical, ou do colo do útero.

"É do nosso interesse nacional ajudar esses governos", disse Bush.

O orçamento do presidente Donald Trump, divulgado no mês passado, prometeu preservar o Pepfar, mas propôs profundas reduções em ajuda estrangeira, fazendo muitos defensores do programa temerem por seu futuro, especialmente sob uma administração que defendeu explicitamente a abordagem transacional para assuntos internacionais.

Para Bush, uma ameaça ao Pepfar põe em risco não somente uma população do tamanho da do Estado de Ohio, mas também a melhor parte de seu legado.

"O que o presidente Bush fez ao salvar milhões de vidas na África é uma das maiores conquistas de todos os presidentes americanos", disse James Glassman, ex-diretor-executivo do Instituto George W. Bush. "E na minha opinião ele supera o que muitos consideram suas deficiências no Iraque e com a economia."

Bush se manteve de modo geral fora do olhar do público desde que seu governo terminou em uma fusão econômica, com baixos índices de aprovação próximos do recorde. Mas recentemente ele voltou ao palco público, em campanha em 2015 e no início de 2016 para a candidatura presidencial fracassada de seu irmão, Jeb Bush, e em uma série de entrevistas nas últimas semanas para promover um livro de suas pinturas.

Mesmo com um novo livro para vender, porém, Bush ficou distante dos repórteres. Além de seus próprios livros, ele evitou falar sobre as decisões que tomou como presidente, e nunca manifestou em público dúvidas sobre sua decisão de invadir o Iraque.

Durante sua visita à África, Bush foi um defensor da prevenção de doenças --um caminho já aplainado por astros do cinema e dos esportes que concordam em falar sobre si mesmos desde que as reportagens resultantes mencionem a doença que eles decidiram combater. Mas Bush e sua mulher, Laura, mantiveram-se à distância. Não permitiam entrevistas ou conferências de imprensa. Os assessores se esforçavam para manter os grupos de repórteres pequenos, muitas vezes afastando-os dos Bush depois de breves oportunidades para fotos e comentários.

Mas o ex-presidente estava descontraído e discreto. Percorrendo o Hospital Estatal Central de Windhoek, ele pegou um bebê, mas a criança começou a tossir, então ele revirou os olhos e disse "Oh, não", e entregou a criança rapidamente a sua mãe.

Fotos de Bush nos jornais daqui o mostram apertando as mãos do presidente Hage Geingob, da Namíbia, que está dobrado de tanto rir. As piadas rápidas de Bush, os abraços frequentes e o evidente prazer de estar com crianças agradou muito seus anfitriões.

Alguns ex-presidentes, especialmente os que deixam o cargo com baixa popularidade (lembro-me de Lyndon Johnson e Richard Nixon), passam seus últimos anos em torturadas buscas por redenção. Bush não mostra sinais de seguir esse caminho. Embora ele seja dedicado à caridade, não imita os esforços exaustivos do ex-presidente Jimmy Carter. Bush não pediu desculpas por inserir em seus três dias de atividade beneficente um safári no delta do Okavango, em Botsuana, no início, e uma visita ao famoso litoral da Namíbia no final.

Bush voou para Botsuana no espaçoso jato de seu amigo Harlan Crow. Sua primeira escala em Gaborone, a capital, foi na Clínica Tlokweng, onde um pequeno acampamento de defensores do câncer cervical haviam montado tendas coloridas. Usando terno cinza, gravata azul e camisa branca engomada num calor de quase 30 graus, Bush marchou pelas tendas cumprimentando e parou diante do grupo de jornalistas para fazer um breve discurso, com sua mulher ao lado.

"Espero que nosso governo, quando analisar o que funciona em todo o mundo, compreenda que a Pepfar salvou mais de 11 milhões de vidas", disse Bush, em comentários que repetiria várias vezes. "E apesar do progresso que foi feito temos de continuar na batalha para salvar vidas."

O câncer cervical é causado por variedades de papilomavírus humano, conhecido como HPV, e as mulheres com HIV têm maior probabilidade de contrair o câncer. No mundo industrializado, os testes da doença eliminaram quase totalmente as mortes, mas na África ela continua entre as mais letais. A Pepfar gasta bilhões de dólares para tratar mulheres com HIV, mas as vê morrer de câncer cervical, que custa uma fração para evitar.

A cura, se administrada cedo e de modo regular, é tão simples quanto uma lavagem vaginal rotineira com vinagre, seguida do uso de um instrumento parecido com um ferro de soldar para queimar as lesões expostas. As vacinas dadas a jovens antes que iniciem a vida sexual são uma prevenção eficaz.

Hoje Botsuana vacina todas as meninas da quinta série, em uma campanha que custa milhões ao governo, e a Pepfar dedica cerca de US$ 3 milhões por ano ao país para ampliar os testes de câncer cervical. Mas milhares de outras mulheres poderiam ser salvas com alguns milhões de dólares a mais em doações. O esforço da Namíbia apenas começou.

Para incentivar a vacinação, o casal Bush visitou escolas em Botsuana e na Namíbia, onde Laura Bush também fez doações à biblioteca. Quando eles chegaram à Escola Ella du Plessis, foram recebidos por uma serenata de estudantes que interpretaram a canção de "O Rei Leão".

A visita foi de muitas maneiras um retorno aos temas da primeira campanha presidencial de George Bush, na qual ele defendeu um "conservadorismo compassivo".

"Devemos acreditar que toda vida é importante e toda alma é preciosa", disse Bush em uma recepção na embaixada americana em Botsuana, onde ele apoiou um melhor atendimento de saúde para os africanos.

O trabalho de Bush na África mudará a mente dos críticos de sua Presidência?

"Não", disse Elaine Kamarck, uma estudiosa da Presidência no Instituto Brookings que já trabalhou para Al Gore, adversário de Bush na eleição de 2000. Citando as consequências desastrosas da guerra do Iraque e da crise econômica, ela disse: "Nada que ele fizer agora poderá reverter os danos de sua Presidência".

Mas a historiadora Doris Kearns Goodwin foi mais benevolente, dizendo que as atitudes sobre os presidentes mudam com o tempo. "O presidente Bush abordou sua pós-presidência com dignidade", escreveu ela em um e-mail, "e o fato de que ele continua progredindo no combate ao HIV/ Aids, malária e câncer na África será um capítulo que os historiadores irão honrar."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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