Grupos que resistem a Trump tentam manter o embalo opositor até a próxima eleição

Kate Zernik

Em Caldwell, Nova Jersey (EUA)

  • Bryan Anselm/The New York Times

Repórteres telefonavam para creditá-los pela ajuda na derrubada da legislação republicana que revogaria a Lei de Atendimento de Saúde a Preço Acessível. Rachel Maddow os transformou em astros de um segmento de seu programa, narrando como se transformaram em um "movimento político legítimo" que pressionou seu congressista, o presidente do influente Comitê de Apropriações, a se posicionar contra o projeto de lei horas antes da liderança de seu partido decidir retirá-lo da pauta sem enfrentar uma votação.

Assim, membros do grupo que chama a si mesmo de "NJ-11th for Change" (11º Distrito de Nova Jersey por Mudanças) se reuniram em um salão de festas no andar de cima de uma taverna daqui para celebrar. Enquanto garçonetes passavam com dificuldade entre a multidão para distribuir cervejas, Debra Caplan, uma das fundadoras do grupo, subiu em uma mesa para fazer um brinde.

"Nós fizemos algo grande, que achávamos que não podia ser feito", ela disse. "Um brinde ao nosso futuro fazendo o impossível."

Alguém então gritou do meio da multidão: "Debra! Qual será nossa próxima vitória?"

Essa é a pergunta crítica diante de centenas de grupos semelhantes por todo o país, à medida que buscam criar uma força política duradoura que possa devolver aos democratas a maioria na Câmara e até mesmo no Senado. Apesar de grande parte da atenção (e o apontar de dedos do presidente Donald Trump) ter se concentrado no papel dos conservadores que se opuseram à projeto de lei de saúde, pequenos grupos ativistas liberais como o NJ-11th também foram cruciais no combate à legislação republicana, ao pressionarem os moderados em seus distritos.

Esse pode ser o momento Scott Brown para o movimento jovem que se ergueu em oposição à agenda de Trump e do Congresso liderado pelos republicanos, ao lhes dar a mesma prova de poder experimentada pelos grupos do Tea Party (o movimento radical republicano) em 2010, quando ajudaram a eleger Brown, um republicano de Massachusetts, a uma cadeira no Senado ocupada por décadas por um democrata. Aquela vitória impulsionou uma série de vitórias conservadoras nas eleições de meio de mandato daquele ano.

Mas para os grupos liberais, o rápido sucesso na questão da lei de saúde removeu uma questão unificadora e visceral. E com as eleições de meio de mandato (em novembro de 2018) ainda muito mais distantes do que após a vitória de Brown em uma eleição especial (20 meses de distância em vez de 10), muitos líderes dos grupos de resistência se preocupam em como manter o embalo até 2018.

"O cenário de pesadelo é dizermos daqui dois anos, 'Ei, você se lembra de quando todos nós estávamos empenhados em ativismo?'" disse Ezra Levin, cofundador do Indivisible (indivisível), um grupo que escreveu um guia para resistência à agenda de Trump e que está ajudando a nutrir os grupos de resistência.

"Há sempre o temor de que haja uma tonelada de energia agora, mas essas pessoas não são organizadores profissionais. Elas estão fazendo isso em seu tempo livre, noites, fins de semana, dias de licença", ele disse. "Isso é um trabalho árduo."

Apesar do Tea Party ter se unido em grande parte em torno de uma única meta por sete anos, abolir a lei de reforma da saúde chamada de forma zombeteira de Obamacare, os membros da nova resistência têm uma série de prioridades: pressionar pela investigação dos laços entre a Rússia e a campanha de Trump, fazer com que Trump revele suas declarações de imposto de renda, reverter suas ordens executivas que restringem a imigração e reduzem as proteções ambientais.

"As pessoas se importam com essas questões, mas não são coisas tão diretas quanto 'não sei se vou poder voltar a consultar com meu médico' ou 'não sei se a cirurgia pela qual passarei no mês que vem ainda será possível'", disse Vanessa Williamson, coautora, juntamente com Theda Skocpol, de "The Tea Party and the Remaking of Republican Conservatism" (O Tea Party e a transformação do conservadorismo republicano, em tradução livre, não lançado no Brasil).

"Quando as consequências não são tão imediatas", ela disse, "é difícil mobilizar as pessoas".

Muitos dos grupos começaram a organizar manifestações em encontros comunitários durante o recesso parlamentar de fevereiro. Esses encontros produziram vídeos arrebatadores de eleitores enfrentando seus representantes eleitos.

Mas para o recesso de Páscoa, que começa nesta semana, há menos foco nos encontros.

Em vez disso, muitos grupos passaram a desenvolver estratégias para as eleições de 2018. Grupos como o de Nova Jersey estão formando comitês de ação política e levantando dinheiro. Outros, assim como fizeram os grupos do Tea Party, estão começando a treinar seus membros sobre como irem de porta em porta e usando dados para estimular as pessoas a saírem para votar. Em alguns distritos onde republicanos conquistaram cadeiras por margem estreita, vários democratas já estão prontos para concorrer.

Para serem tão eficazes quanto o Tea Party, disse Williamson, os grupos de resistência também terão que se concentrar na política e nas políticas de seus próprios Estados. Apesar do Tea Party ter obtido muita atenção pela energia que injetou nas eleições para o Congresso, ele também foi eficaz na esfera estadual, particularmente no bloqueio da expansão da cobertura pelo Medicaid (seguro-saúde pública para pessoas de baixa renda) de acordo com a Lei de Atendimento de Saúde a Preço Acessível.

Guy Potucek, que trabalha para uma empresa que presta serviços às forças armadas e organizou o grupo Indivisible, no 10º Distrito do Estado da Virgínia, representado por Barbara Comstock, disse que seu grupo vem realizando sessões de treinamento para ajudar os membros a se envolverem nas eleições estaduais deste ano.

"Não quero que o foco salte direto para 2018", ele disse.

Comstock esteve entre os republicanos que anunciaram no final que não apoiariam o projeto de lei de saúde do partido. "Isso nos energizou ainda mais", disse Potucek. "A sensação foi tipo, 'Isso foi fácil'."

Mas agora, ele disse, "Também estou preocupado em adotarmos um ritmo apropriado".

"Se dissermos, 'Apenas dê um telefonema de vez em quando', nós perderíamos força", ele prosseguiu. "Se pedirmos às pessoas no grupo para comparecerem toda semana no gabinete de Comstock, acho que também perderíamos força dessa forma."

Ele tem enviado "alertas de ação" aos 3.500 membros da lista de e-mail do grupo, pedindo para que postem nas redes sociais e escrevam e telefonem para seus representantes sobre um assunto diferente a cada semana. Nesta semana, o grupo está pressionando os legisladores a expandirem o Medicaid. (Na quarta-feira, o Legislativo estadual votou contra a expansão.)

Potucek também está pedindo aos membros para que escrevam cartas aos editores dos jornais locais a respeito do histórico de votações de Comstock.

"Quanto mais tempo pudermos mostrar como o histórico de votações dela está associado a Donald Trump, mais facilitaremos para o candidato democrata que venha a concorrer contra ela", disse Potucek.

Até 10 candidatos estão considerando concorrer contra Comstock, ele disse. Um já se declarou e compareceu às reuniões do grupo em busca de apoio, quatro outros já entraram em contato.

No 49º Distrito da Califórnia, onde o deputado Darrell E. Issa, um republicano, conquistou a reeleição por menos de 1% dos votos em novembro, os líderes de uma dúzia de grupos de resistência organizaram uma sessão de treinamento para o início do mês que vem, para a preparação de roteiros para uso pelos membros do grupo, para que possam convencer seus vizinhos sobre a importância das eleições de meio de mandato. Eles estão criando bancos de dados de eleitores para que os novos ativistas possam usar para promover festas de pizza ou cafés, e para controlar visitas de porta em porta para mobilizar votos para as eleições de meio de mandato, nas quais dois democratas, incluindo um que perdeu por margem estreita em novembro, já sinalizaram sua intenção de concorrer.

Uma organizadora, Terra Lawson-Remer, escreveu um roteiro de campanha de 50 páginas identificando cinco grupos de eleitores a serem visados para as eleições de novembro de 2018. Eles incluem democratas em cidades onde o comparecimento dos eleitores às urnas é baixo nas eleições de meio de mandato, republicanos do condado de Orange que não apoiaram Trump, e membros das forças armadas do Campo Pendleton, que podem estar preocupados com a interferência russa nas eleições de 2016.

Em Nova Jersey, os membros do NJ-11th for Change têm realizado manifestações do lado de fora do gabinete de seu congressista, o deputado Rodney Frelinghuysen, presidente do Comitê de Apropriações, toda sexta-feira desde janeiro para convencê-lo, sem sucesso, a se encontrar com eles. O número de pessoas já cresceu para 450.

A primeira manifestação deles após os republicanos retirarem da pauta seu projeto de lei de saúde foi menor, atraindo apenas cerca de 150. Mas novos rostos estavam presentes, incluindo Ted Noble, um veterano do Vietnã de 73 anos de Wayne, que disse estar preocupado com o orçamento de Trump.

"Precisamos cuidar das pessoas que precisam de ajuda", disse Noble. Ele se encheu de lágrimas enquanto o grupo começava a se reunir para a caminhada até o gabinete de Frelinghuysen. "Acho fenomenal  que vocês estão fazendo", ele disse para um organizador.

Na semana passada, o grupo organizou uma viagem de ônibus até Washington. Na noite anterior, o grupo conseguiu outra pequena vitória: Frelinghuysen finalmente concordou em se encontrar com eles.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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