Opinião: As pessoas evitam rótulos de intelectuais e movimentos filosóficos de autoconsciência

David Brooks

  • Ángel Franco/The New York Times

Se você fosse um certo tipo de jovem voltado para as ideias, entrando na vida adulta no século 20, é muito provável que você adotasse um rótulo e entrasse para algum movimento. Você se autodenominaria de marxista, neoconservador, freudiano, existencialista ou progressista do New Deal.

Haveria certos escritores sagrados que explicariam o mundo para você, desde Jung até Camus, passando por Dewey ou Chesterton. Provavelmente existiria uma pequena revista onde as doutrinas de sua seita seriam marteladas.

As pessoas hoje parecem tender menos a se dar rótulos intelectuais ou entrar em movimentos filosóficos de autoconsciência. Os jovens de hoje parecem mais propensos a ter suas visões de mundo moldadas por viagens que eles tenham feito, ou causas com as quais eles tenham se envolvido, ou o grupo racial, étnico ou de gênero com o qual eles se identifiquem.

Isso mudou a natureza do cenário intelectual americano, a forma como as pessoas abordam o mundo e as vidas que elas vivem.

Em seu livro "The Ideas Industry" ("A indústria das ideias", inédito no Brasil), Daniel W. Drezner diz que passamos de um cenário dominado por intelectuais públicos para um mundo dominado por visionários. Um intelectual público é alguém como Isaiah Berlin, que é treinado para comentar sobre uma série de assuntos públicos a partir de um posicionamento ético específico. Um visionário defende uma grande ideia para melhorar o mundo, como Al Gore, com seu trabalho sobre o aquecimento global.

Como Drezner coloca, os intelectuais são muito críticos, céticos e tendem a ser mais pessimistas. Visionários são pregadores de suas ideias e tendem a ser otimistas. O mundo de conferências como Davos, de palestras do TED e PopTech recompensa visionários, não intelectuais, argumenta Drezner.

A vida intelectual perdeu o atrativo por vários motivos, segundo ele. Em uma era de pouca confiança, as pessoas não têm mais tanta fé em grandes intelectuais como árbitros culturais. Em uma era polarizada, patrocinadores de mentalidade ideológica como George Soros ou os irmãos Koch só pagarão por certos estilos de trabalho intelectual. Em uma era desigual, os ricos gostam de ir a palestras de inovações, e quando eles vão, querem ouvir ideias que tenham algum impacto imediato —como o mais recente plano de Jeffrey Sachs de acabar com a pobreza do mundo ou as descobertas de Amy Cuddy sobre como adotar a linguagem corporal certa.

Drezner não chama isso de declínio, somente uma mudança (não vamos subestimar o quão tolos e errados alguns dos grandiosos intelectuais podiam ser). Mas fico pasmo com como a relação das pessoas com as ideias mudou.

Em primeiro lugar, pensadores públicos agora se consideram conselheiros legislativos. Drezner escreveu um livro chamado "A Indústria das Ideias", mas na verdade ele está escrevendo sobre políticas públicas. Quando George Orwell, Simone de Beauvoir ou mesmo Ralph Waldo Emerson escreviam, eles estavam esperando mudar radicalmente a sociedade, mas ninguém os confundia com estrategistas políticos.

Segundo, acho que na época existia um sentimento maior do que hoje de que a própria natureza da sociedade era um caos. Pode chamar de vestígio do marxismo ou talvez do cristianismo, mas havia um sentimento de que a ordem vigente na época era frágil e que um modo mais justo de vida deveria ser imaginado.

Por fim, a vida intelectual era simplesmente vista como algo mais central para o progresso. Os intelectuais estabelecem os critérios pelos quais as coisas são medidas e os objetivos são estabelecidos. Os intelectuais criam as estruturas dentro das quais os políticos operam. Como você pode ter um plano a menos que receba uma teoria? Os intelectuais criam a era.

Fazer esse tipo de trabalho significava levar o tipo de vida excepcional que permitia que você saísse da caverna —ver a verdade diretamente e estar totalmente comprometido com a causa. Criar uma sociedade justa era o mesmo que se transformar em uma pessoa ética.

Para Orwell, isso significava estar junto com os pobres e oprimidos, vivendo como um mendigo sem teto na Inglaterra, um lavador de pratos em Paris, levando um tiro no pescoço como um soldado na Guerra Civil Espanhola. Significa ensinar a si mesmo como transformar a escrita política em uma forma de arte.

Para o comunista italiano Antonio Gramsci, significava se comprometer totalmente com as ideias, ainda que isso significasse passar anos na prisão, e fazendo o rigoroso trabalho mental exigido para uma vida de pensamento intenso. Ele era o mais de esquerda possível, mas acreditava em matérias tradicionais de escola, na dureza de se aprender a gramática do latim e do grego.

"Será necessário resistir à tendência de tornar fácil aquilo que não pode se tornar fácil sem ser distorcido", ele escreveu.

Significava também entrar para uma tradição e uma equipe. Havia todo um conjunto de testes éticos envolvidos com obediência ao movimento, rompendo com o ideal do grupo quando necessário, enfrentando verdades desagradáveis, sendo pioneiro em um modo coletivo de vida, fosse feminista, marxista ou libertário.

O século 20 elevou intelectuais dessa forma, e depois os jogou em desgraça, uma vez que muitos deles estavam errados demais em relação ao comunismo e ao fascismo. Mas nós provavelmente exageramos nos ajustes e privamos uma geração de uma visão do intelectual heroico. É bom ter pessoas que pensem sobre o desarmamento norte-coreano. Mas a política é mais real em um nível mais essencial.

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