Londres continuará sendo a capital do mundo, após a saída do Reino Unido da Europa?

Sarah Lyall

Em Londres, Inglaterra

  • Sergey Ponomarev/The New York Times

    13.mar.2017 - Pedestres em rua de Londres

    13.mar.2017 - Pedestres em rua de Londres

A estação de trem internacional de St. Pancras, uma maravilha da arquitetura vitoriana ressuscitada para o século 21, abriu 10 anos atrás como a representação de um conceito particular: de que o Reino Unido é parte de algo maior do que si mesmo e de que pertencer a um grupo de nações é tão fácil e natural quanto embarcar em um trem.

No começo foi ao mesmo tempo chocante e empolgante saber que você poderia pegar um Eurostar de uma plataforma em Londres, passar por baixo do Canal da Mancha, atravessar o interior francês e em menos de três horas parar na Gare du Nord em Paris. Andar no Eurostar era se admirar com o fato de que as capitais —Londres, tão prosaica e descomplicada, Paris, tão romântica e misteriosa, ambas com seus longos históricos de rivalidade e discórdia —fossem parte de um mesmo projeto.

O Eurostar simbolizava uma era na qual Londres parecia estar inevitavelmente correndo na direção da Europa, também. Pelo menos essa era a ideia até agora, e o começo do processo conhecido como Brexit. Os trens continuam operando, mas a era que criou a Londres moderna parece ter chegado ao fim.

"Passamos uma mensagem horrível para o resto do mundo, e é muito triste", disse Martin Eden, um editor que esperava para pegar o Eurostar para Paris outro dia, para comemorar seu aniversário de 43 anos. "Deveríamos estar caminhando juntos", ele disse a respeito da Europa, "e não nos afastando".

Conheci Eden enquanto perambulava pela St. Pancras no momento em que o Reino Unido entrou oficialmente com o pedido de "divórcio" da União Europeia. Era hora do almoço do dia 29 de março, Dia do Brexit, por assim dizer, quando o Reino Unido entregou uma carta para Bruxelas e deu início a dois anos de negociações a respeito das regras do rompimento.

Sergey Ponomarev/The New York Times
Pedestres na Millennium Bridge em Londres

Mas, enquanto o Reino Unido tenta se despedir de seu parceiro de 44 anos, de quem hoje se encontra alienado, Londres enfrenta um desafio diferente: como um grande centro mundial, cujos residentes votaram em sua esmagadora maioria contra o Brexit no referendo do verão passado, deveria se ajustar a um futuro incerto governado por princípios que parecem o oposto de sua própria essência? O Brexit separou o Reino Unido da Europa, mas também separou o Reino Unido de si mesmo, com Londres de um lado e boa parte da Inglaterra de outro (a Escócia e a Irlanda do Norte, que também votaram a favor da permanência, são outra história).

Para muitas pessoas na capital, a votação no ano passado pareceu uma rejeição não somente à Europa, como também aos valores representados por Londres, talvez a cidade cosmopolita mais vibrante e exuberante do mundo: valores como abertura, tolerância, internacionalismo e o sentimento de que é melhor olhar para fora do que para dentro. Embora um sentimento de melancolia parecesse tomar conta de St. Pancras quando passei por lá outro dia, boa parte do resto do Reino Unido estava comemorando.

Aqui estão os mais ricos e muitos dos mais pobres do Reino Unido, vivendo lado a lado em relativa paz. Londres está repleta de marcos britânicos, como o Big Ben, o Palácio de Buckingham, a Catedral de St. Paul, mas também de pessoas de 270 nacionalidades diferentes, em um total de 8,7 milhões de habitantes.

O Brexit bagunçou esse grande experimento em tolerância. Ninguém pode prever como a cidade estará daqui a 10, 20 ou 30 anos. Se a viagem espontânea entre a Europa e o Reino Unido não parece mais tão simples, tampouco será a troca fácil de pessoas, capital, empregos, negócios e línguas. Talvez mais significativo seja o fato de que não está mais claro que essas são coisas que deveriam ser admiráveis, aqui ou em qualquer outro lugar.

Sergey Ponomarev/The New York Times
Mulher em sua loja na comunidade nômade de Londres

"Londres é um lugar estranho no momento", disse o escritor Nikesh Shukla, cujo livro "The Good Immigrant" ("O bom imigrante") é uma compilação de ensaios escritos por britânicos não brancos sobre um país do qual eles se sentem cada vez mais alienados. Hoje ele vive em Bristol, mas cresceu em Londres, e ele diz que a cidade "parece uma versão encapsulada de uma forma singular do que o Reino Unido significa para mim".

"O governo diz que está tentando tomar o país de volta, mas no processo está perdendo a essência de seu povo em Londres", disse Shukla em uma entrevista por telefone. "As pessoas se sentem desconfortáveis porque há muitos futuros em jogo. Essas são pessoas que vivem na cidade que contribuem para a sociedade, que têm famílias, estruturas sociais e compromissos sociais, cujos futuros agora são incertos".

Eu morei em Londres por mais de 15 anos, e voltei para minha casa em Nova York em 2013. A cidade mudou bastante nesse tempo, e a cidade que deixei me pareceu claramente diferente daquela que encontrei quando cheguei. Ela parecia mais aberta, mais internacional, mais animada, mais empolgante. A comida havia melhorado e os lugares permaneciam abertos até mais tarde. Meus vizinhos pareciam vir de uma ONU, e nossas diferenças de alguma forma se apagavam porque todos nós partilhávamos delas.

A cidade também ficou muito mais rica, o que não era necessariamente algo bom: o centro da cidade se tornou quase inacessível. Oligarcas russos e outros membros da elite super-rica do mundo escavaram as ruas para construir complexos subterrâneos repletos de piscinas e garagens para casas onde eles planejaram viver somente algumas semanas por ano.

A Europa, que parecia um conceito distante, de repente parecia bem ali ao alcance. Multidões de franceses, e depois de poloneses e espanhóis e, mais tarde e de forma mais controversa, os romenos chegaram. Sempre que você entrava em uma galeria de arte ou em um cinema, via como a cultura britânica estava se beneficiando do financiamento europeu. O crescimento de companhias aéreas ridiculamente baratas, sem firulas, tornou a viagem aérea para a Europa quase mais fácil do que por trem. Tony Blair, o primeiro-ministro de boa parte desse período, gostava de tirar férias em lugares como a Toscana, na Itália.

Sergey Ponomarev/The New York Times
Vista do rio Tâmisa, em Londres

Londres é grande e difícil de lidar, e está em constante mudança. Ela resiste a uma definição fácil.

A eleição de Blair ao cargo de primeiro-ministro, em 1997, encerrou 18 anos de domínio conservador e sinalizou uma era em que pertencer à Europa parecia algo que beirava o cool. Falar uma língua estrangeira se tornou repentinamente, e brevemente, algo legal. E então, em 2012, Londres foi anfitriã das Olimpíadas de verão, vendendo-se como uma cidade do mundo e provando como esse lugar poliglota funcionava de forma tranquila e alegre quando se determinava a fazer algo, e como as pessoas que moravam aqui se davam extraordinariamente bem.

Aqui, apesar dos sentimentos anti-muçulmanos e anti-imigrantes que ajudaram a alimentar a aprovação do Brexit, temos o primeiro prefeito muçulmano de Londres, Sadiq Khan, cujos pais, um motorista de ônibus e uma costureira, vieram do Paquistão. Aqui temos investidores estrangeiros e playboys, eurocratas e eurotrash, bem como imigrantes econômicos da Espanha e de Portugal de outros países europeus em recessão espremidos em minúsculos apartamentos na periferia da cidade e aceitando empregos em cafés, construções e hotéis.

"Em Londres nunca me senti como alguém de fora, porque todos aqui são de fora", disse Paolo Martini, 32, um cabeleireiro que conheci em Kentish Town, vindo do Brasil, com sua mulher polonesa e uma filha britânica (por nascimento). Ele mora aqui há mais de uma década; quem sabe o que Brexit significará para sua família?

Parte do que torna Londres diferente é como ela consegue juntar pessoas de diferentes realidades econômicas e étnicas. Cada bairro tem seus casarões e seus conjuntos habitacionais populares, às vezes no mesmo quarteirão.

"Não sou só eu e você, e os ricos e os pobres", disse Dara Djarian, 25, um corretor imobiliário de Kilburn cujos pais são franceses e iranianos. Ele comparou os bairros misturados de Londres com as "banlieues" mais uniformes da periferia de Paris, que são basicamente centros de imigrantes árabes. "Aqui é tudo misturado".

Olhei para baixo, para a Kilburn High Road, a partir de seu escritório, e entendi o que ele quis dizer. Havia uma delicatessen polonesa próxima de um restaurante italiano de frente para um tradicional pub londrino, ao lado de um açougue halal. Havia a Shah, loja de móveis, um lugar clássico de fish-and-chips (peixe com batata frita), um cabeleireiro só para mulheres, uma loja de acessórios de luxo para banheiros, alguns cafés elegantes e o erudito Cinema Tricycle, com uma programação que atrai hipsters e cinéfilos.

"A única coisa que não vemos muito aqui são ingleses", disse Djarian. "Eles se mudaram para o interior ou para o subúrbio".
 

Tradutor: UOL

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