Trump encara os limites do poder americano em conflitos na Síria e na Nigéria

Max Fisher

Em Washington (EUA)

  • Ashley Gilbertson/The New York Times

    Comboio aguarda para entrar em acampamento de refugiados, em Maiduguri, na Nigéria

    Comboio aguarda para entrar em acampamento de refugiados, em Maiduguri, na Nigéria

O presidente Donald Trump, inspirado por imagens de TV do sofrimento longínquo, lançou ataques de mísseis na Síria e pode estar prestes a descobrir uma lição que confunde presidentes há 25 anos: o poder dos EUA só vai até aí.

Essa verdade também está embutida em outro conjunto de imagens perturbadoras que Trump não citou em público: as do nordeste da Nigéria, dilacerado por conflitos, onde uma crise muito diferente provoca uma ação dos EUA voltada para outros fins.

Esses dois conflitos, tanto em seus contrastes quanto em suas semelhanças, revelam em parte o papel que Trump assumiu e sua limitação.

Ambos são desastres humanitários cujas histórias ao rés do chão horrorizam e enfurecem. E são crises de um tipo que os EUA, desde que saíram da Guerra Fria como o policial do mundo, tentaram repetidamente resolver, mas com frequência falharam.

O leque de esforços de intervenção americana, assim como seu sucesso muitas vezes modesto, pode ser visto nessas duas crises que Trump herdou: a Síria, cuja guerra civil tornou-se um problema global, e a Nigéria, onde a luta com rebeldes do Boko Haram matou dezenas de milhares de pessoas e desalojou cerca de 3 milhões.

Síria e Nigéria

As duas guerras não poderiam ser mais diferentes, assim como são as reações dos EUA. Mas elas ainda podem ter em comum a dinâmica fundamental que torna as crises causadas por conflitos tão resistentes a uma solução vinda de fora.

Na Síria, os EUA tentaram mediar entre as partes em luta ou inclinar o equilíbrio militar pela força, seja pelos esforços do governo Obama para armar certos grupos rebeldes ou os ataques de mísseis de Trump. O alcance do envolvimento americano foi extenso e de alta visibilidade.

Na Nigéria, a ação dos EUA parece mais modesta.

Lá, os EUA enfatizam os instrumentos políticos, pressionam o governo para melhorar as práticas nas partes do país afetadas e apoiam reformas. Também ajudam a coordenar uma força multinacional de países vizinhos e estão fornecendo assessores militares, inteligência e outras formas de apoio militar, que nesta semana Trump ampliou na forma de venda de aviões de guerra, mas nada comparável à ação na Síria.

A diferença entre as duas abordagens é explicada em parte pela escala do sofrimento, que é mais severo na Síria, e talvez por uma lacuna ainda maior na atenção recebida.

Também se explica pela aposta geopolítica maior na Síria --seu conflito afeta a crise de refugiados na Europa, o ressurgimento da Rússia, o terrorismo global e as lutas de poder no Oriente Médio--, enquanto a da Nigéria está contida em uma região menos central para os interesses americanos.

Mas a diferença também se deve à natureza contrastante das crises. O problema da Síria é considerado, em parte, um desequilíbrio militar que a força dos EUA pretende resolver. Os problemas da Nigéria são mais causados por crises de governança.

O Boko Haram explorou, e foi alimentado por, antigas tensões políticas e ressentimentos da sociedade nigeriana, incluindo a negligência do governo central e os abusos de seus soldados. A política americana visa ajudar a Nigéria a abordar as questões subjacentes que contribuíram para originar a insurgência, pressionando por reformas para reverter a corrupção e os abusos militares.

Como o objetivo é restaurar o controle do governo e a fé local nele, o poder militar tem um papel menor na estratégia dos EUA.

Mas a população americana às vezes vê o grau de intervenção militar como uma função da vontade política --se o presidente se importasse, ele interviria. Isso revela uma suposição mais profunda: que o poder dos EUA pode resolver qualquer crise, mas só se for aplicado de maneira correta e suficiente.

Embora os EUA tenham exercido um esforço muito maior na Síria do que na Nigéria, e usaram diferentes instrumentos, os resultados foram semelhantes ao que com frequência decorre desses esforços: decepção.

Colapso e intervenção

Os conflitos na Síria e na Nigéria, em suas diferenças, revelam os fatores comuns que tornam as crises causadas por conflitos humanitários tão difíceis de resolver: rupturas simultâneas na governança e no contrato social pelo qual uma população concorda em viver em harmonia.

Quando estes desmoronam, segmentos da sociedade, sejam divididos por tribo demográfica ou afiliação política, passam a ver uns aos outros como presos em uma disputa de soma zero por sobrevivência e controle. O resultado é o caos, um ciclo de violência que se perpetua, com comunidades inteiras apanhadas no meio.

A Síria e a Nigéria também ilustram uma reação americana comum: a intervenção, militar ou não, para resolver a ruptura política subjacente que leva à luta.

Desde o início dos anos 1990, quando os EUA assumiram o manto da liderança global, o país atuou na Somália, no Afeganistão, em duas partes diferentes do Sudão, na República Democrática do Congo, nos conflitos sobrepostos na Libéria e em Serra Leoa, em Timor Leste e duas vezes na antiga Iugoslávia.

Ele tentou a diplomacia e a ajuda externa, impôs reformas políticas e mantenedores da paz, lançou mísseis e praticou ocupações. Às vezes a variação na política se deveu a diferentes temperamentos ou visões de mundo de importantes autoridades americanas, ou ao nível de atenção que esses gritos receberam na TV, mas os resultados foram quase sempre modestos.

O que traz uma trégua?

As relativamente poucas tréguas oferecem pistas sobre por que outros esforços falharam.

As intervenções bem sucedidas muitas vezes vêm em duas formas: resolver um conflito entre dois Estados, ou ajudar a dinâmica local que já se alinhava em torno da paz.

Por exemplo, os EUA ajudaram a deter as guerras entre os países que antes formavam a Iugoslávia. Como o problema era de forças que cruzavam fronteiras, de fora seria possível empurrá-las de volta.

Isso raramente se aplica, porém, numa era em que o conflito entre Estados é raro e a maioria das guerras vem de rupturas políticas que não seguem linhas claras.

Quando a intervenção externa teve êxito nessas crises, geralmente não foi por modificar essas dinâmicas pelo lado de fora, e sim ao capitalizar na direção da paz grandes mudanças que surgiram de dentro.

Em Timor Leste, que a Indonésia reivindicou como seu território, anos de diplomacia e pressão política falharam até que a economia da Indonésia desmoronou e seu presidente linha-dura foi substituído por um reformista.

A solução, como quase sempre é o caso, veio dos participantes do conflito, cujo cálculo era dirigido principalmente por fatores locais, e não pela ameaça ou promessa de ação externa.

George Mitchell, o ex-senador americano que liderou as negociações de paz na Irlanda do Norte, frequentemente enfatizou isso. Em um discurso em 1999, ele disse: "A paz e a estabilidade política não podem ser alcançadas em sociedades fortemente divididas, a menos que haja uma vontade real de compreender o outro ponto de vista e entrar em um compromisso de princípios".

Essa pode ser uma mensagem difícil para americanos habituados a ver a si mesmos como os que decidem grandes problemas globais.

Os EUA assumem essa liderança em parte porque são a garantia da ordem internacional e o poder de último recurso, levando o mundo a buscar seu envolvimento.

Jeremy Shapiro, o diretor de pesquisa do Conselho Europeu sobre Relações Exteriores, afirmou que os EUA também são movidos pelo que ele chama de "o problema da onipotência americana".

Uma série de vitórias militares no início dos anos 1990, disse Shapiro ao "Times" em outubro, estabeleceu uma certeza de que "qualquer problema no mundo basicamente pode ser resolvido pelo poderio americano, se houver vontade política suficiente".

Em consequência, quando uma crise surge e os americanos são confrontados com imagens como as da Síria que Trump viu, a pergunta que surge muitas vezes não é se os EUA são capazes de impor uma solução, mas por que não o fizeram.

Sucesso e fracasso em Bagdá

Os EUA tentaram durante muito tempo impor essas mudanças de fora. Se o sucesso era principalmente uma questão de vontade ou comprometimento dos EUA, ele teria ocorrido em Bagdá em meados dos anos 2000.

Os EUA, responsáveis por uma crise amplamente criada por eles mesmos e conduzidos por um presidente cujo legado estava na balança, dedicou a plena força de seu poderio e sua diplomacia a resolver o derramamento de sangue sectário na cidade.

Washington impôs a ordem quarteirão a quarteirão, por meio de muros blindados, patrulhas e postos de controle. Realizou negociações de paz de alto nível e reuniões de moradores locais. Conquistou uma calma relativa, mas até os proponentes disseram que isso só serviu para criar espaço para os iraquianos resolverem as questões mais profundas que os dividiam, o que muitos tentaram fazer.

Quando as tropas americanas se retiraram, ficou claro que a força externa podia restaurar a ordem em um bairro. Mas não podia resolver as rupturas sociais e políticas que o haviam tornado perigoso, para começar, e em breve o fariam de novo quando o vácuo retornasse.

Síria e Nigéria, em suas próprias maneiras, carregam esse mesmo dilema. As opções políticas americanas se destinam a aliviar o sofrimento e a violência que são sintomas de problemas mais profundos. Mas a resolução só pode vir quando os participantes da guerra virem novamente a coexistência pacífica como algo que justifique os compromissos e os riscos --uma tarefa mais dura que qualquer missão dos EUA.

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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